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E com vocês, o Obama que é como qualquer um de nós

26/08 - 07:38 - Caio Blinder, de Nova York

NOVA YORK- E agora vamos à crítica do espetáculo. Michelle Obama fez o seu papel no primeiro dia da convenção presidencial democrata. Na segunda-feira à noite, em Denver, ela apresentou o seu marido como um de nós, como um homem que veio de baixo e como a prova de que o sonho americano vive. Uma retificação. O roteiro era reapresentar Barack Obama como o candidato presidencial que deve seu impulso político a uma incrível jornada pessoal.

 

Nesta narrativa, Michelle bateu na tecla de que o marido esposa os típicos valores e aspirações americanas e não é o elitista exótico e arrogante pintado pelos republicanos. Michelle Obama é negra, mas na narrativa havia o empenho para remover a conotação racial. A família Obama é uma família como outra qualquer. Ao lado das duas filhas pequenas, Michelle estava lá para humanizar o marido, que mesmo os partidários consideram muito cerebral, com dificuldades para se conectar com uma certa camada social, em particular brancos mais pobres, mais velhos e com menos educação.

No geral, foi um desempenho com pose genuína, mas, ironicamente, para reafirmar o patriotismo de Obama, a sua mulher escorregou na habitual bravata americana de que somente em um país como os EUA é possível a ascensão de alguém como o marido, filho de pai negro do Quênia e mãe branca do Kansas.

Os republicanos de John McCain, obviamente, querem deter a ascensão de Obama. A mensagem é que ele representa um perigo, não pela raça, mas pelo exotismo e inexperiência. Acalmar os americanos sobre a falta de experência de Obama foi a tarefa de o senador Teddy Kennedy.

O patriarca do partido, o velho leão liberal e cacique da dinastia lendária tem um tumor cerebral terminal. O espetáculo de uma convenção é coreografado, mas quem não se comoveu com a aparição triunfal, emocional e de surpresa, de Kennedy, não tem coração.

Kennedy não olhou para trás e não se perdeu em reflexões nostálgicas. Ele invocou a memória do seu irmão, o ex-presidente John Kennedy, assassinado em 1963, para dizer que Obama é o futuro. Na segunda-feira, Kennedy passou a tocha para uma nova geração, como ocorreu há quase meio século em uma convenção democrata eletrizante, que consagrou John Kennedy.

Para mudar é preciso coragem. Não é fácil, mas o septuagenário Kennedy, contemporâneo do candidato republicano John McCain, estava lá para dizer que chegou a hora. O vídeo de tributo ao velho leão mostrou como ele adora singrar os mares no seu barco, ensinando os netos a navegar. A metáfora é cristalina. Sua geração deve passar o timão para os mais novos, como Obama. A linha é sinuosa. Mudar é preciso, mas também é preciso reassegurar os americanos que o barco não irá virar.

Além de reapresentar Obama como "'um de nós", que levará a nau americana para um porto novo, porém seguro, uma tarefa essencial da convenção de Denver é cicatrizar as feridas dentro da família democrata. Kennedy fez a sua parte com os apelos por união. Michelle Obama também quando rendeu um tributo à ex-primeira-dama Hillary Clinton, derrotada por seu marido nas primárias. Mas o essencial neste desafio dependerá da dinastia Clinton, uma geração postada entre a familiar lenda Kennedy e a incerteza Obama.

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