20/08 - 07:47 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- Agosto é um mês maldito na Europa Oriental. Há exatamente 40 anos, os tanques soviéticos entraram na Tchecoslováquia e esmagaram as flores de uma primavera reformista. Neste agosto de 2008, os tanques russos entraram na Geórgia e.....Bem, analogias podem ser uma história equivocada e mal contada. Mas podemos traçar alguns paralelos sobre os caminhos dos tanques.
Moscou novamente está punindo aqueles que ousam se comportar com independência na sua tradicional área de influência. Mais do que isto, a Geórgia é uma ex-república soviética, enquanto a Tchecoslóváquia, hoje dividida em dois países independentes, era um mero satélite no ex-bloco comunista.
Sim, a Geórgia está pagando um preço por seu erro de cálculo. Seu presidente Mikheil Saakashvili deu ao regime Putin a desculpa (casus belli, em uma linguagem mais sofisticada) para a guerra quando se meteu no enclave da Ossétia do Sul no último dia 7. Mas vamos ver aquilo que em inglês é conhecido como "big picture". Esta guerra na Ossétia (que se estendeu para dentro da Geórgia) é uma guerra de demonstração.
Putin e seu afilhado Dmitri Medvedev mostraram disposição para usar a força como um recado sem meias palavras: Moscou não tolera que a Geórgia e a Ucrânia entrem na Otan e se consolidem como países democráticos. Houve também o recado para que os americanos deixem de humilhar uma Rússia que reencontrou sua autoconfiança depois da implosão comunista em 1989. A reação desproporcional do regime Putin na Geórgia mostrou que ele vê o desgastado império americano como hipócrita e sem estômago para lances pesados na Georgia e afins. As ações russas demonstraram nacionalismo e a típica arrogância de uma potência.
Mas a Rússia de hoje não é a União Soviética de ontem. Putin já é ruim por si. Ele não precisa ser Joseph Stalin, nem mesmo Leonid Brezhnev. Com seu presidente-apaniguado, Putin está à frente de um regime que não é mais comunista ou integralmente ditatorial, mas segue obcecado pelo controle e não admite gestos de independência nas suas bandas. A idéia de sociedades livres é inconcebível para dirigentes como Putin é este processo está em marcha, aos trancos e barrancos, em várias partes da tradicional esfera de influência russa. Moscou fará o que for possível para contê-lo.
Putin mostrou sua truculência na Geórgia, mas ele é mais sutil do que seus antecessores. Os líderes de hoje na Rússia, apesar da paranóia e maniqueísmo alimentados pelo treinamento na KGB, sabem que as relações com o Ocidente são mais complexas e profundas. Há uma dependência de mercados e mais transações entre os dois lados (lícitas ou no submundo de um capitalismo gangster). Putin está consciente que não pode reconstruir o Gulag soviético ou se descontrolar no castigo dos meninos desobedientes no seu quintal.
Este cenário também exige uma resposta mais sofisticada do lado ocidental. E de qualquer forma, embora exista a vara, não há disposição para cutucar o urso russo com muita agressividade. Não estamos em uma segunda edição da Guerra Fria, mas tampouco naquela difusa ordem construída com a queda do muro de Berlim, quando a Rússia vivia dias caóticos. Portanto, não sabemos exatamente o que irá acontecer em um novo agosto de tanques russos rolando por seu quintal.

Tanques russos em Praga em agosto de 1968 / AP
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