21/07 - 09:22 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- Caso não tropece no palco, Barack Obama irá triunfar nesta sua viagem eleitoral ao exterior, iniciada no sábado passado. O palco é cada parada da visita que inclui as zonas de guerra do Afeganistão e Iraque, outras zonas de conflito no Oriente Mëdio (Jordânia e Israel) e a Europa velha de guerra dos interesses americanos (Grã-Bretanha, França e Alemanha).
Tropeços podem acontecer em caso de gafes retóricas ou, ironicamente, se a adoração popular dos europeus pelo candidato democrata não corresponder às altas expectativas. Em viagem do presidente George W. Bush, a dúvida sempre foi a dimensão do protesto. No caso de Obama, será a dimensão da tietagem. Obviamente, vital para Obama é a repercussão da viagem-comício dentro de casa. O giro tem alguns objetivos essenciais, a começar reforçar o capital do candidato noviço em política externa, ainda o ponto forte do vulnerável rival republicano John McCain.
A escala no Afeganistão foi obrigatória diante da insistência de Obama de que o Iraque foi uma distração da verdadeira guerra contra o terror. Melhor ainda o presente do primeiro-ministro iraquiano Nuri al-Maliki, antes da chegada de Obama a Bagdá nesta segunda-feira, dizendo a uma revista alemã que ele endossa em linhas gerais o seu plano de retirar a maioria das tropas de combate do país em 16 meses, embora não seja o mesmo que abençoar a candidatura democrata.
Os republicanos estão irritados com a onda que a imprensa está fazendo sobre esta viagem, como se fosse uma coroação do príncipe Obama antes da votação. Os âncoras dos principais telejornais americanos integram o trem da alegria, mas com isto eles precisam justificar tanta cobertura. Nestes termos, valem tanto o tropeção como o triunfo do candidato democrata.
A viagem é carregada de simbolismo. Além de exibir suas credenciais em política externa, é uma oportunidade para Obama se enrolar na bandeira americana, quando os republicanos, nem sempre sutilmente, tratam o candidato como uma figura exótica, cosmopolita e de várias identidades, por ser filho de mãe branca do Kansas, pai negro do Quênia, além do padastro muçulmano da Indonésia. Não é à toa que a primeira escala de Obama foi em uma base militar americana no Kuwait. Todo esforço do candidato para desfazer as dúvidas e desinformação é pouco. Basta ver uma recente pesquisa New York Times/ CBS mostrando que 73% dos eleitores consideram McCain "muito patriótico", enquanto 37% sentem o mesmo sobre Obama.
Para não tropeçar, o malabarismo de Obama nas escalas européias será exibir seu patriotismo americano, mas entusiasmar massas estrangeiras sem se converter em uma refém dos aduladores. Uma peça de simbolismo não irá se materializar. Na quinta-feira em Berlim, Obama não irá discursar, como os ex-presidentes Kennedy e Reagan (afinal ele ainda é apenas um candidato) no Portão de Brandenburgo, que formalmente dividia as duas Alemanhas até a queda do muro e o fim da Guerra Fria em 1989. A primeira-ministra alemã Angela Merkel deu uma esfriada no marketing eleitoral de Obama.
Com a escolha definitiva do cenário, o simbolismo será bastante curioso. Obama irá falar no parque Tiergarten, sob o monumento com a estátua de um anjo dourado, familiar para quem assistiu ao filme Asas do Desejo, de Wim Wenders. O parque hoje é cenário de eventos como a parada gay de Berlim, mas era usado para celebrar as vitórias militares prussianas. Eram tempos em que os europeus se matavam na guerra, algo que hoje eles consideram tão americano.

Obama se encontrou com militares norte-americanos em Cabul / AFP
Leia mais sobre Barack Obama

Publicidade
McCain culpa Obama pelo aumento da gasolina em anúncio de televisão; assista