16/07 - 07:48 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- Vamos reconhecer. O cartoon da "New Yorker" não colou. Na capa da revista desta semana estão Barack e Michelle Obama de fantasia. Ele, com túnica e turbante de muçulmano. Ela, trajada de militante ao estilo Pantera Negra, com cabelo afro e rifle. O cartoon não pegou porque a "New Yorker" precisou explicar a piada com a controvérsia gerada. Os protestos imediatos vieram da campanha do candidato democrata e, marotamente, do pessoal do republicano John McCain. Mas na terça-feira à noite, em uma entrevista a Larry King, na CNN, Obama não fez muita onda com a história. O cartoon não colou como cartoon, mas ao menos serviu como peça autopromocional para a revista.
O trabalho de Barry Blitt é uma paródia da avalanche de desinformação sobre Obama como muçulmano, exótico e antipatriótico. As calúnias se estendem à sua mulher. A acusação é de que a "New Yorker", na verdade, está reforçando a caricatura. Tudo bem. A brincadeira não deu certo, mas a acusação é absurda. O alvo das críticas não deve ser a "New Yorker", mas a turma que na Internet e nos talk-shows alimenta a campanha de difamação contra o casal Obama.
As pesquisas mostram que 10% dos eleitores acreditam nos rumores do gênero que Obama seja muçulmano. Vamos ser sinceros: Estes parvos não são leitores da "New Yorker", a bíblia da intelligentsia liberal americana. "New Yorker" é pró-Obama e cáustica com o governo Bush. Seus cartoons lendários, porém, não discriminam. Todos e tudo são alvos da revista.
Malandramente, blogueiros conservadores (incentivadores das difamações) saíram em defesa da "New Yorker". Claro que interessa a eles manter a polêmica acesa, no cálculo de que a caricatura ficará cristalizada como um fato para muitos, neutralizando a sátira.
"New Yorker" é uma revista elitista, sofisticada e pretensiosa. Seu brilhante editor, David Remnick, não deu o braço a torcer e, levemente exasperado, não reconheceu a pisada na bola. Já na sua capa, o "New York Times" publicou reportagem sobre as dificuldades para "pegar" Obama como objeto de humor. Talvez haja escrúpulos de humoristas brancos com medo da pecha de racismo, mas o outro problema é que o sujeito não é nem ridículo nem engraçado.
De sua parte, a "New Yorker" é seríssima no sucesso. A grande ousadia de Remnick é não mergulhar em crise existencial sobre o papel de revistas na era da Internet. Nos seus 10 anos de chefia, a circulação da "New Yorker" aumentou 32%, com mais de 1 milhão de exemplares por semana e a taxa de 85% de retenção de assinantes é a maior no setor. Remnick investe na edição online, mas não é um ardoroso tecnoevangelista. Para ele, o melhor formato para revista ainda é o papel. No caso específico da "New Yorker", com seus longuíssimos artigos e cartoons.

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