08/07 - 08:05 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- Já sabemos que os estatutos do clube são antiquados. Os integrantes do G-8 (os sete países mais ricos do mundo e a Rússia) convidam os novos ricos para suas reuniões, mas não dão carteirinha a países com economias mais poderosas do que as de alguns sócios titulares.
Apenas para dar o exemplo mais escancarado, está aí a China (quarta economia mundial). O Brasil, que é décima economia, está batendo na porta. Clube, no entanto, sempre tem esta coisa de privilégio e panelinha.
Mas para que ser sócio? Em geral, é o contrário da piada de Groucho Marx. As pessoas (ou países) não desconfiam do clube para o qual são convidadas a entrar. Dá prestígio e, quando se trata do cenário mundial, mais poder para influenciar a agenda. O problema é que quanto mais gente, mais alta a torre de Babel e a confusão.
Para a reunião em curso no Japão, foram convidados 22 dirigentes mundiais, entre eles o presidente Lula (o Brasil integra o G-5, o clube dos sócios aspirantes, ao lado da China, índia, México e África do Sul). Antes mesmo das espinhosas discussões entre os "elitistas e os novos ricos" sobre alta dos preços dos combustíveis e alimentos e mudanças climáticas, a cúpula já empacou na segunda-feira no debate sobre o que fazer com o Zimbábue, com os representantes africanos avessos às pretensões de alguns ricos de jogar mais duro com Robert Mugabe.
Há muita reclamação sobre o caráter elitista e discriminatório do G-8, mas a idéia inicial era esta mesma. Energia está na ordem do dia da atual cúpula e, nas voltas que o mundo dá, tudo começou na sequência da crise do petróleo de 1973, com contatos informais entre autoridades dos EUA, Japão, Grã-Bretanha, França e a então Alemanha Ocidental. Na reunião de 1975, já apareceram os italianos. Na sequência, vieram os canadenses.
O critério de riqueza afrouxou para dar entrada aos russos. Agora, é claro, um monte de gente quer carteirinha. O francês Nicolas Sarkozy topa dar uma liberada nos estatutos (beneficiando inclusive o Brasil), já americanos e japoneses descartam as mudanças.
Os americanos dizem que está muito bom do jeito atual. Os novos ricos foram incorporados com as reuniões mais abrangentes (o que torna a agenda da cúpula mais vasta e inconsequente). O Japão, atual anfitrião, tem sua própria agenda para não mexer nos estatutos. Sem cadeira permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas (que conta com a presença chinesa) e fora da Otan (a aliança militar ocidental), os japoneses são muito ciosos de seus privilégios no G-8 e não querem compartilhá-los com os rivais chineses.
Há ainda a complicação se o clube deve ser uma liga das democracias, espirrando a Rússia (conforme sugere o candidato presidencial americano John McCain), ou levar em conta basicamente o peso econômico. Neste caso, bola branca para a China. O drama é que este novíssimo rico é ambivalente sobre seu status. Quer reconhecimento global, mas ainda não tem mentalidade grupal e reluta sobre respeitar estatutos internacionais (de emissões de carbono à política cambial).
A China cresceu, mas ainda pensa como aspirante e desconfia deste clube. Será que os cinzentos dirigentes, formalmente comunistas, levam o outro Marx a sério?.

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