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Farc perdem peões no seu tabuleiro criminoso

03/07 - 07:42 - Caio Blinder, de Nova York

NOVA YORK - Nada mais apropriado que o bem-sucedido resgate na selva colombiana de Ingrid Betancourt e outros 14 reféns tenha sido chamado de Operação Xeque. Reféns são peões em um tabuleiro criminoso e as Farc são criminosas, ainda mascaradas com uma anacrônica ideologia política, na condição de maior e mais antiga insurgência na América Latina.

 

AFP
Ingrid Betancourt se reúne com sua mãe em base militar da Colômbia


Os criminosos das FARC mantêm cerca de 700 reféns e Ingrid Betancourt, ex-candidata presidencial sequestrada quando estava em campanha em 2002, tornara-se a face dos cativos do grupo colombiano.

Era também um símbolo de vítimas do extremismo político que geralmente degenera neste banditismo como é o caso das Farc, um grupo que teima em sobreviver com o terrorismo do narcotráfico e sequestros para arrecadar fundos, pegando um caminho semelhante ao do maoísta Sendero Luminoso, no Peru.

Ingrid Betancourt tinha uma função especial para as Farc. Era o peão mais valioso neste tabuleiro criminoso. Integrava o grupo seleto de reféns que serviam como fichas de barganha para serem trocados por guerrilheiros presos. Seu valor crescia com a fama e a campanha internacional por sua libertação, em particular na França, país da qual é cidadã. Mais de mil cidades no mundo a declararam cidadã honorária. Para o governo colombiano, que tem colecionado vitórias espetaculares contra as Farc, era vital conseguir a libertação de Ingrid Betancourt (sem negociações), justamente para aplicar um golpe devastador contra os bandoleiros.

Para o governo Uribe era preocupante que Ingrid Betancourt tivesse se tornado um peão no tabuleiro da política mundial, com as pressões, algumas puramente humanitárias, vindas de várias partes por uma negociação que levasse à libertação. Ingrid Betancourt e outros reféns menos valiosos se tornaram peças também dos lances do presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

Agindo em consonância com as Farc, Chávez passou a buscar a libertação seletiva de reféns para, em troca, conseguir o reconhecimento internacional do grupo insurgente (e meramente criminoso) como um legítimo ator político. Na sequência previsivel do reconhecimento pelos aliados Equador e Nicáragua, a idéia seria um jogo de dominó, em que demais governos reconheceriam as Farc, debilitando a ferrenha ofensiva do governo Uribe contra a guerrilha. Por extensão, é claro, haveria o enfraquecimento do governo americano, o patrocinador da campanha colombiana.

Mas os últimos meses foram marcados pelos fracassos retumbantes das Farc (morte de três altos comandantes, deserções de militantes, perda de grande parte de território ocupado nas últimas décadas e crescente mobilização popular contra a guerrilha). Com as evidências de vínculos íntimos entre Chávez e os rebeldes, tivemos os teatrais incidentes diplomáticos (que muitos temeram que levasse a uma guerra regional) e o recuo do presidente da Venezuela. No mês passado, Chávez conclamou a guerrilha a desistir da luta armada e simplesmente soltar seus reféns.

O governo colombiano controla o tabuleiro. Ainda não é xeque mate nas Farc, mas para a guerrilha narcotraficante e bandoleira agora é meramente o jogo pelo jogo. Para o fortalecido Alvaro Uribe, pode significar lances além do tempo regulamentar de segundo mandato, enquanto para Ingrid Betancourt, quem sabe, o renascimento de ambições presidenciais.


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