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Mugabe é um golpe também ao sonho democrático africano

30/06 - 08:20 - Caio Blinder, de Nova York

NOVA YORK- Alguns líderes africanos romperam o silêncio para denunciar o brutal ataque de Robert Mugabe contra as tênues esperanças democráticas no Zimbábue. Mas o quixotesco líder oposicionista Morgan Tsvangirai não pode esperar muita coisa da reunião da União Africana, que começou nesta segunda-feira no Egito. Um certo desconforto com a trágica pantomina eleitoral que deu mais um mandato ao tirano não esconde o fato de que poucos dos integrantes da entidade têm credibilidade ou disposição para fazer alguma coisa efetiva contra Mugabe. O ilustre, aliás, está prestigiando a reunião de dois dias, que para Tsvangirai é um teste do compromisso da União Africana com a democracia.

Plenas condições democráticas vigoram em apenas 11 dos 53 países da União Africana. Neste ponto, a Organização dos Estados Americanos é uma maravilha. Basta ver que o anfitrião do encontro africano é o ditador egípcio Hosni Mubarak, no poder desde 1981. As eleições de abril na Nigéria foram uma farsa. No Quênia, houve um banho de sangue antes de Mwai Kibaki, o presidente reeleito em condições duvidosas, aceitar a partilha do poder com o primeiro-mnistro Raila Odinga, que é uma das vozes mais vibrantes para denunciar a pouca vergonha no Zimbábue. O Sudão está no primeiro time dos países que abusam dos direitos humanos no mundo de hoje e a Somália é um Estado falido.

Os violadores dos direitos humanos e mesmo dirigentes democráticos, como o sul-africano Thabo Mbeki, protegem Mugabe com o escudo da soberania nacional ilimitada ou preferem advertir o Ocidente contra uma postura neocolonial. Há inclusive recomendações para o primeiro-ministro britânico Gordon Brown conter sua indignação, vista na África como contraprodutiva. Como lembrou o colunista do "New York Times", Nicholas Kristof, seria bem mais fácil se livrar se Mugabe se ele fosse um racista branco.

É verdade que as táticas brutais usadas por Mugabe para estender o seu poder são mais do que um drama moral ou constrangimento politico. Existe a implosão econômica do Zimbábue e milhões dos seus cidadãos fugindo da fome e da repressão para países vizinhos. Resolver a crise, portanto, se tornou uma questão de autointeresse para muitos dirigentes africanos.

Diante da brutalidade, Tsvangirai decidiu não concorrer contra Mugabe no segundo turno das eleições. Estimou que seu gesto, o pragmatismo regional e a "nova" Africa impedissem que o tirano consumasse a pantomina. É uma pena que o plano não tenha vingado. Não há em termos imediatos luz no fim do túnel. Mugabe agora acena com negociações com a oposição. Para quê? O ditador ganhou uma sobrevida. Não sabemos quando tempo durará. Para a modesta marcha africana rumo à democracia, os trágicos eventos no Zimbábue são um golpe devastador.

Tivemos alguns ganhos políticos em meio ao mais rápido crescimento econômico em três décadas na África Negra. Há os exemplos de Gana, Senegal, Tanzânia, Moçambique, Bostsuana e África do Sul. Ao contrário deste último país, o Zimbábue se livrou das amarras do apartheid, para terminar prisioneiro de outra odiosa tirania.





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