24/06 - 08:12 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- No Zimbábue de Robert Mugabe impera o terrorismo de estado. A decisão do líder da oposição Morgan Tsvangirai de não concorrer no segundo turno das eleições presidenciais na sexta-feira é compreensível. Tampouco foi covardia ele ter buscado refúgio na embaixada holandesa em Harare depois do anúncio. Tsvangirai já mostrou muitas vezes coragem pessoal (e tem cicatrizes para confirmar) nas suas batalhas políticas contra o veterano tirano Mugabe.
Mas participar do processo eleitoral se tornara uma missão quixotesca, diante da profusão de atos de violência, intimidação e fraudes praticadas pelo presidente e seus asseclas. A meta de Mugabe não é competir, mas se manter no poder a qualquer custo. Nos últimos dias ficaram expostos seus piores excessos tirânicos.
Seu governo é um dos casos mais escandalosos de desastre pós-colonial. O país já foi conhecido como a "jóia da África" graças ao seus recursos naturais. Hoje amarga pobreza, fome, uma baixa vexaminosa da expectativa de vida e mais de um milhão por cento de inflação. Há relutância de alguns vizinhos importantes, a começar a África do Sul, para pegar pesado contra o camarada Mugabe. O líder do Zimbábue foi um valoroso combatente contra a versão local do racismo quando a então Rodésia era governada pela minoria branca Mas não há como justificar esta solidariedade do presidente sul-africano Thabo Mbeki. Mugabe, o herói de ontem, hoje é o vilão que expressa desprezo `a indignação internacional.
Tsvangirai parece não saber exatamente o que fazer agora. Esta mais claro do que nunca, porém, que a batalha foi além das fronteiras do Zimbábue. A comunidade internacional está diante daqueles testes atrozes de consciência. O ideal seria transformar Mugabe em um pária e a partir daí inviabilizar sua permanência no poder. Para tanto, as crescentes pressões dos EUA e Grã-Bretanha precisariam da resoluta adesão não apenas do poderoso vizinho do Zimbábue, a África do Sul, mas também da China, cujas prioridades não são as denúncias das violações dos direitos humanos e a criação de uma ordem democrática global.
Uma espinhosa batalha diplomática está na ordem-do-dia e são insuficientes resoluções unânimes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, como a que foi costurada na segunda-feira, pedindo o adiamento das eleições de sexta-feira. Mugabe merece o destino do sérvio Slobodan Milosevic, cujo regime foi derrubado basicamente por ataques aéreos da Otan em 2001 e foi a julgamento no tribunal internacional em Haia como um arquiteto de genocídio. Há bases legais para processar Mugabe por crimes contra a humanidade.
Mas não existe hoje no Ocidente apetite para uma ação militar depois das guerras problemáticas no Iraque e Afeganistão .O Zimbábue está morrendo, mas o regime de Mugabe pode ter uma sobrevida.

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