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A perseverança de Clinton e o perigo de um harakiri

23/05 - 07:32 - Caio Blinder, de Nova York

NOVA YORK- Barack Obama tem alguns problemas. Um deles, por ser jovem, negro e bem educado, é a incapacidade até agora para seduzir, entre os democratas, uma parcela do eleitorado branco, feminino, mais velho e e de renda mais baixa em estados mais pobres. Hillary Clinton tem os seus problemas e são bem mais graves do que os do rival. A ex-primeira-dama tem acumulado alguns vitórias impressionantes nas primárias, mas sua vantagem avassaladora no eleitorado se concentra em mulheres como ela, com mais de 50 anos.

Hillary Clinton carece do argumento categórico capaz de virar a cabeça dos superdelegados (aqueles não eleitos nas primárias) que estão pendendo para Obama. Ele está na frente entre os delegados eleitos e já conseguiu a maioria simples. Como negar esta regra básica do jogo? Basta ver que Hillary Clinton teve a contundente vitória em Kentucky na terça-feira (enquanto a de Obama no Oregon foi basicamente confortável). No entanto, não houve um terremoto politico.

Obama tem o pudor e o bom senso de não se autoproclamar candidato democrata. Hillary Clinton confirma que é tenaz, mas a narrativa da história é repetitiva: quando ela vai se dobrar à matemática e aceitar a vitória de Obama? Talvez ela consiga algumas migalhas na partilha do filão dos delegados de Michigan e Flórida, não sancionados pela direção do partido, mas é inconcebível uma "nova matemática" que deixaria os democratas tão horrorizados como na recontagem dos votos que conferiram a Casa Branca para George W. Bush nas eleições do ano 2000.

Nesta sua tenacidade, Hillary Clinton brinca com fogo. Ela nega que tenha insuflado ou tirado proveito de racismo para abocanhar votos em estados culturalmente mais atrasados como Virgínia Ocidental e Kentucky (cenários de vitórias espetaculares). Ela rechaça esta idéia de racismo, mas reclama cada vez mais que sexismo (ou machismo) é o fator primordial para explicar suas desvantagens.

A ex-primeira-dama alimenta este argumento ao mesmo tempo em que garante que a prolongada disputa nas primárias não irá impedir que as feridas democratas sejam cicatrizadas até a grande guerra contra os republicanos em novembro. Como assim? Se a vitória de Obama nas primárias for confiscada, haverá ressentimento negro. Ao insuflar a cartada sexista, Hillary Clinton reforça a frustração de uma parcela do eleitorado que considera absurdo que mulheres ainda não consigam conquistar a Casa Branca. O negócio, portanto, é ficar em casa em novembro e esperar uma nova oportunidade com Hillary Cllinton ou outra mulher de briga.

Há a teoria de que Hillary Clinton permanece na disputa esperando um desastre ou um escândalo no caminho de Barack Obama (o casal Clinton entende destas coisas). Isto quer dizer que não se trata do mérito de um candidato, mas do podre do outro. De qualquer forma, típicos políticos permanecem em uma campanha apenas com uma chance realista de ganhar. Ela se parece cada vez mais com aqueles soldados japoneses na Segunda Guerra Mundial que consideravam a rendição pior do que a derrota e que lutar era um fim valoroso mesmo sem a perspectiva de vitória . Nesta cultura de perseverança, Hillary Clinton pode levar o Partido Democrata a praticar harakiri.

Sendo menos mórbido, esta cultura de perseverança pode resultar em um improvável prêmio de consolação. A ex-primeira-dama e segundona nas primárias pode se tornar companheira de chapa de Obama. Já dizem que é o desejo de Bill Clinton. Que sempre quer viver para outra guerra e outra campanha eleitoral.





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