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Obama usa John Kennedy como inspiração em política externa

21/05 - 07:16 - Caio Blinder, de Nova York

NOVA YORK- Os contornos da campanha presidencial do republicano John McCain contra o democrata Barack Obama estão delienados: ele é um liberal de limusine, como os derrotados Michael Dukakis (1988) e John Kerry (2004). Ainda por cima, Obama é jovem, ingênuo e inexperiente. Tudo muito caricatural, mas estas coisas funcionam em campanhas eleitorais, do Alasca ao Chuí. Pegando rapidamente experiência, Obama rebate que McCain, apesar do seu honrado e patritótico serviço à nação (prisão e tortura na guerra do Vietnã), tem uma experiência que significará continuidade da falida política externa de George W. Bush. Obama e McCain têm trocado tiros retóricos sobre o Irã, que promete ser tema central da campanha.

O próprio presidente Bush, que não deveria se meter nestas coisas quando esta em viagem no exterior, como aconteceu na semana passada, vinculou as promessas de Obama de conversar sem pré-condições com os inimigos dos EUA ao apaziguamento de Hitler antes da Segunda Guerra Mundial. Obama rebate que a fracassada política de Bush e McCain (agora ele sempre coloca os dois juntinhos) no Iraque permitiu o fortalecimento do Irã de Mahmoud Ahamedinejad. De fato, o regime xiita foi o grande beneficiado pela aventura imperial americana no Oriente Médio.

Investir em uma dura diplomacia ao invés de beligerância leviana não deixa de ser um argumento plausível de Obama. Não é a mesma coisa que apaziguamento, embora Ahamedinejad seja uma figura que se refere ao "pestilento" Estado de Israel, prega quase que diariamente sua destruição e questiona a existência do Holocausto.

Obama recorre à história e lembra que presidentes americanos frequentemente empreeenderam negociações com os inimigos do país e o fizeram para a vantagem dos EUA. Um exemplo foi John Kennedy na crise dos mísseis de Cuba em 1962. Kennedy ofereceu a Nikita Khrushchev a retirada de mísseis nucleares americanos da Turquia em troca da remoção dos mísseis soviéticos da Cuba.

Mas há diferenças em relação à crise de hoje, envolvendo as ambições nucleares do Irã. A oferta de Kennedy era secreta. Se fosse revelada, seria cancelada. Ponto mais importante: Khrushchev estava inclinado ao acordo e pronto para desistir do seu programa nuclear em Cuba. Outro ponto essencial: em uma cartada que poderia ter levado o mundo à guerra nuclear, Kennedy estava disposto a recorrer à força militar para ter credibilidade diplomática. Já Obama diz que, ao contrário de Kennedy, se eleito presidente, não irá ameaçar o Irã com guerra. A idéia é descartar esta opção enquanto conduz negociações públicas e diretas com Teerã. Aliás, na terça-feira, McCain criticou a disposição de Obama de se reunir com Raúl Castro, dizendo que seria o "pior tipo de sinal" à ditadura cubana.

Cúpulas presidenciais têm consequências, para o bem ou para o mal. Líderes podem cometer erros de cálculo e para tal não precisam ser jovens e inexperientes. Quando se reuniu com Kennedy na cúpula de Berlim em 1961, Khrushchev considerou que o presidente americano estava debilitado politicamente após o fiasco da Baía dos Porcos (a fracassada invasão da Cuba por anticastristas treinados e financiados pela CIA). O dirigente russo foi adiante com a construção do muro de Berlim e no ano seguinte colocou os mísseis em Cuba. Khrushchev estava errado sobre a fraqueza de Kennedy, mas foi necessária a crise dos mísseis para convencê-lo disso.

Obama insiste que está certo com seu foco diplomático, inspirado no liberalismo muscular de um presidente chamado John Kennedy.  Só saberemos se ele for eleito e colocado à prova.

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