16/05 - 07:34 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- A junta militar que desgoverna Mianmar é venal, estúpida, corrupta, arrogante e xenófoba. Em meio ao agravamento da catástrofe humanitária, os generais enclausurados nos seus palácios dizem que a situação está sob controle. É isso. Controle deles. Parte da limitada ajuda internacional às vítimas do ciclone, autorizada s duras penas pelo governo está sendo roubada, desviada e armazenada pelos militares.
Para mim, é fácil insultar estes gangsters de uniforme. Eu não estou ali na linha de frente negociando com esta gente o envio de suprimentos ou vistos para especialistas em ajuda humanitária. Não é à toa que o almirante americano Timothy Keating, comandante no Pacifico, que está negociando com os gangsters de Mianmar, prefere dizer que eles não são "muito iluminados". Uma boa medida da falta de clareza desta gente é que até o plácido diplomata-burocrata que dirige a ONU, o sul-coreano Ban Ki-moon, está exasperado.
Negociar, portanto, é preciso. Náo dá para mandar a cavalaria americana ou os capacetes-azuis da ONU para Mianmar. É verdade que existe uma doutrina desenhada justamente para lidar com esta tipo de situação desesperadora. É a doutrina legal de "responsabilidade para proteger", estabelecida há três anos na esteira de fracassos da comunidade internacional para impedir o genocídio em Ruanda, na África. A doutrina atropela a soberania nacional, conceito em vigor há centenas de anos, autorizando a intervenção que impeça crimes contra a humanidade. Os franceses têm sido desenvoltos no argumento de que a doutrina é válida quando um governo, como é o caso em Mianmar, bloqueia ajuda destinada a salvar o seu próprio povo.
Mas há resistência dentro do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Nenhuma surpresa que seja liderada pelos chineses, muito ciosos do conceito de soberania nacional e que pautam sua diplomacia basicamente em termos de interesses geopolíticos e comerciais, desdenhando questões de direitos humanos. Mesmo os britânicos levantaram dúvidas se crises decorrentes de desastres naturais, embora agravadas por obra humana, se inserem na definição de "responsabilidade para proteger".
É um bom debate acadêmico e talvez leve um bom tempo para ajustar a doutrina de intervenção humanitária a uma nova interpretação de soberania nacional. Enquanto isto há urgência. Ë preciso conviver e negociar com aquela gente pouca iluminada que desgoverna Mianmar para enviar o que for possível para as vítimas, mesmo que parte seja roubada pelos gangsters de uniforme.

Publicidade