13/05 - 08:07 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- Em contraste ao criminoso escândalo da morosa e paranóica resposta da junta militar de Mianmar ao ciclone de 2 de maio, as autoridades chinesas reagiram prontamente ao maciço terremoto de segunda-feira que atingiu o sudoeste do país. A resposta de agora do regime de Pequim difere de atitudes anteriores marcadas por falta de transparência nas informações e rejeição automática de ajuda internacional.
Em 1976, no terremoto que assolou o norte do país, a rejeição de assistência externa exacerbou o número de vítimas. Até hoje não se sabe precisamente quantas pessoas morreram há 32 anos, com estimativas variando entre 250 mil e 750 mil. Inicialmente, o regime comunista acobertou a extensão daquela tragédia. O comportamento mais aberto em 2008 também chama a atenção no momento em que o pais enfrenta vários desafios como alta de inflação (em parte devido à perdas agrícolas decorrentes das piores tempestades de inverno em 50 anos), descontentamento no Tibete e a ansiedade que acompanha a contagem regressiva para a Olimpíada de agosto, em Pequim.
Os jogos justamente deveriam coroar o triunfo desta China emergente, Primeiro foram os protestos em várias cidades do mundo durante a passagem da tocha olímpica, contra a repressão no Tibete e violações dos direitos humanos em geral, que deixaram as autoridades de Pequim muito ressabiadas. Agora é mais esta emergência. O colossal esforço de resgate e reconstrução será um teste crucial de liderança em tempos de crise e de autoafirmação diante da comunidade internacional. Haverá uma busca de equilíbrio entre o desejo de mostrar auto-suficiência e a necessidade de aceitar ofertas internacionais de assistência.
Engajada hoje nos seus próprios esforços de resgate pós-terremoto, a China também tem responsabilidades na assistência em Mianmar, de cujo recluso regime militar é aliado. Pequim também é alvo de pressões internacionais para que force as autoridades de Mianmar a aceitarem mais ajuda multilateral. Os chineses, porém, resistem à idéia de terem um papel diplomático mais amplo na crise, apesar de seus laços íntimos com o vizinho no sudeste asiático.
A China e outros países menos críticos do terrível prontuário em direitos humanos do regime de Mianmar (como Índia e Tailândia) têm tido muito mais sucesso do que países ocidentais para despachar suprimentos. Na corrida contra o tempo para evitar uma catástrofe humanitária de proporções bíblicas, a China, no entanto, reluta, em prejudicar suas relações com um governo venal como o de Mianmar.
Velhos hábitos resistem. De certa forma, o regime comunista chinês é simpático às suspeitas de Mianmar para receber assistência ocidental, em uma atitude que mescla orgulho nacional, paranóia e o temor de que signifique um revés ao governo. A China tampouco permitiu que agências internacionais operassem de forma independente dentro do pais em desastres anteriores, com exceção da Organização Mundial de Saúde, que pôde realizar investigações durante a epidemia de Sars em 2003.
A China dá passos titubeantes para se transformar naquilo que, com condescendência, os americanos chamam de "acionista responsável" de uma nova ordem mundial. Exibe mais maturidade na sua resposta a uma tragédia doméstica como o terremoto de segunda-feira, mas estreiteza geopolítica e insensibilidade humanitária no caso de Mianmar.

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