A junta é truculenta, corrupta e paranóica. Teme mais os integrantes das equipes internacionais de emergência do que as epidemias. Prefere um povo morto a um povo ajudado por governos inimigos como o o dos EUA (somente nesta segunda-feira, dez dias após o ciclone, permitiu que o primeiro avião americano com suprimentos pousasse no país). Obviamente há uma luta contra o tempo em meio aos "esforços" da junta de Mianmar para bloquear a ajuda de fora enquanto se mobilizava para ir adiante com o referendo constitucional de sábado passado para se perpetuar no poder.
Estes gangsters de uniforme ignoram lições básicas. No tsunami no Oceano Índico, que deixou 200 mil mortos em dezembro de 2004, a rápida resposta da comunidade internacional foi vital para que não se agravassem epidemias e fome. Muitos dos países assolados se recuperaram. Na provincia de Aceh, na Indonésia, o nível de pobreza hoje é inferior aos tempos pré-tsunami.
Os militares em Mianmar realmente têm outras prioridades. Eles governam o país miserável, que já foi um dos mais prósperos do sudeste asiático. Desde do golpe de 1962, investiram em uma versão local de socialismo. Mianmar afundou e como desgraça pouca é bobagem veio o ciclone. Hoje os militares abocanham 40% do orçamento e alimentam suas suspeitas do mundo externo. Depois do golpe de 1962, estrangeiros foram expulsos do país. Não é uma surpresa que vistos não sejam concedidos agora para especialistas em ajuda humanitária. O regime teme que estrangeiros irão organizar protestos pró-democracia (na verdade, pró-vida), como os do ano passado liderados pelos monges budistas.
Incompetentes e brutais, os militares não escutaram as advertências do Serviço de Meteorologia da Índia sobre a vinda do ciclone. O homem-forte da junta, o general Than Shwe, prefere ouvir astrólogos. Difícil prever o que irá acontecer no sofrido e isolado Mianmar: quantas pessoas irão morrer e se a tragédia irá também afogar este odioso regime militar.
O terremoto de 1972 na Nicarágua contribuiu para a queda da ditadura Somoza sete anos mais tarde. A escória da escória dominante se apossou de fundos internacionais de reconstrução, o que intensificou o ressentimento contra o regime venal. O povo de Mianmar precisa de um duplo resgate. Primeiro, o do furacão Nargis e, em seguida, dos gangsters de uniforme.