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Judaísmo não conta porque nasci judeu. Por escolha, o sionismo foi o primeiro"ismo" na minha vida. O pioneiro é sempre mais difícil tratar com ceticismo. A desilusão e o senso crítico ficam reservados para os outros "ismos". Desde criança fui sufocado por sionismo. Pudera. Nasci e fui criado no Bom Retiro, o bairro judaico de São Paulo. A escola e todos os amigos, claro, eram patrícios. Alfabetizado em português e hebraico, até a adolescência eu era afiado para cantar os hinos do Brasil e de Israel.
Hoje, mais errante no mundo, tropeço na cantoria de ambos.
Escola judaica era um grande negócio. Nunca tínhamos aula aos sábados e faturávamos todos os feriados religiosos e cívicos judaicos, cristãos, brasileiros e israelenses. Eu adorava o Dia da Independência de Israel. Marchávamos pelas ruas do bairro. Que maravilha! Nos tempos da ditadura militar brasileira, nós celebrávamos, em ordem unida, o triunfo de uma luta de libertação nacional.
Tenho uma foto memorável, ao lado do meu irmão Ciro e do meu primo Ismar.
Eles à paisana e eu, de peito estufado, do alto dos meus sete anos, fardado com o uniforme de soldado da Haganá, a força de defesa de Israel. Hoje sou bem menos militarista e os tempos mudaram no Bom Retiro. Os judeus, eternamente errantes, migraram para bairros mais abastados de São Paulo. A marcha escolar no Bom Retiro deve ser agora no Dia da Independência da Coréia do Sul. Mas esses coreanos também são errantes. Quem serão os próximos a marchar no bairro?
Aos sete anos fui aliciado para a causa sionista, ali mesmo na minha escola, "o" Renascença. A uma quadra ficava a sede do Dror, um dos vários movimentos da esquerda sionista. Aderi junto com uma tropa da minha classe. As reuniões eram aos sábados, mas não atrapalhavam o futebol no Jardim da Luz. Fiquei meio assustado com a palavra-de-ordem: até o científico, eu deveria emigrar para Israel, morar num kibutz e estar pronto para servir três anos no Exército.
Esses planos foram abortados em duas semanas por uma guerra inesperada.
Houve uma briga de rua entre os quadros do Dror e do Hashomer, um movimento sionista rival. Graças ao sionismo, tomei a primeira surra da minha vida. Decidi que não estava preparado para ser vanguarda, mas topava o engajamento num sionismo "light". Por sorte, meus pais me colocaram na Chazit, o movimento sionista ligado à Congregação Israelista Paulista. A Chazit era um mundo novo. Para começar, a sede não era no Bom Retiro. Eu saía do gueto duas vezes por semana. Sábado sionista na Chazit e domingo de futebol-de-salão no clube Hebraica. Que avanço! Até então eu só era chutado para fora do gueto para passar as férias em Santos, ir ao futebol com o meu pai no Morumbi ou cortar cabelo na Clípper, no Largo Santa Cecília.
Militei dez anos na Chazit. Era "light", mas algumas discussões ideológicas ficavam pesadas. Éramos moleques discutindo os gurus sionistas. Esqueci o hino de Israel, mas ainda me lembro das posições de Borochov, meu favorito na época. Vou poupá-los da arenga. Sábado à noite, eu, Luiz, Jairo, Nelson e Milton estávamos na pizzaria discutindo se as crianças no kibutz deveriam morar em casa com os pais ou no dormitório. Era tanto debate que não tínhamos tempo ou trejeito nem para arrumar namoradas, muito menos filhos.
De fato, pouquíssimos na turma contemplavam com seriedade a possibilidade de concretizar o sonho sionista, O movimento preenchia uma função mais imediata, mais adolescente. Ele nos oferecia identidade e uma intensa vida social. Não vivíamos só de pizza e conversa. Depois vieram as namoradas. Mas não havia como fugir ao rito de passagem. Era preciso dar uma passada em Israel e conhecer o paraíso campestre do kibutz, a essência do sionismo socialista.
Eu só fui para Israel após o vestibular. A idéia era passar dois meses em um kibutz no meio do deserto do Neguev. Meu hebraico ainda dava para o gasto, mas foi lá que meu inglês melhorou muito, O kibutz Urim tinha um monte de judeus de Chicago. Era um pessoal urbano e sofisticado que fingia gostar daquela utopia agrária. No meio da chatice que era plantar melancias, eu sonhava em conhecer Chicago. Era meio fora de mão. Encurtei a estada no kibutz e fui passear em Paris. Mais tarde, conheci as luzes de Chicago e Nova York. Nunca se apagaram.
O meu sonho de viver em Israel acabou ali, naquela viagem em 1976, mas não a lealdade sionista. E verdade que existe um pouco da culpa, tão judaica, por ter abandonado a causa, mas tantos anos de militância não foram em vão. Carrego a convicção de que a criação do Estado de Israel é um inquestionável direito do povo judeu e um ato de justiça histórica. Na minha formação sionista juvenil houve uma falha que só o tempo consertou. Os palestinos eram invisíveis. Hoje o problema moral está resolvido na minha cabeça. No conflito entre Israel e os palestinos, é o certo lutando contra o certo. Como não existe drama moral, a questão para ser resolvida é política. A solução é complicadíssima, exigindo mais do que uma partição salomônica.
O sionismo é uma história épica, uma das grandes revoluções do século XX. Para mim é visceral. Foi no movimento que fiz os melhores amigos. Estaremos juntos para sempre, nenhum de nós vivendo em Israel. Do sionismo socialista herdei um certo desprezo pelo individualismo e uma capacidade de ficar indignado com as injustiças da vida. É possível chegar aí por outros caminhos. Este foi o meu. Tenho um pedaço do kibutz dentro de mim.