02/05 - 07:28 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- Maio 1968. E o tempo passa. Já são 40 anos. A geração meia-oito hoje é sessentona. Muitos protestaram e ainda protestam, mas com outros métodos (viva Fernando Gabeira). Outros saltaram das barricadas para a limusine e veículos mais suspeitos do poder (José Dirceu), mas vamos nos remeter a figuras emblemáticas daqueles dias que são mais universais.
Mais para Gabeira do que para Dirceu, o franco-alemão Daniel Cohn-Bendit, Danny, o Vermelho, foi líder estudantil na França e hoje é deputado verde do Parlamento europeu, representando a Alemanha. Tem seu novo livro sobre 68 (só na França são uns 100) e está sendo caçado pela imprensa para falar sobre aquele ano que dizem que nunca terminou. Mas terminou e tem um legado.
É possível fazer um balanço portentoso, patético e pavoroso sobre o que aconteceu há 40 anos em várias partes do mundo (militância como um fim, a imaginação no poder, é proibido proibir, gozar sem freios, os assassinatos de Martin Luther King e Bobby Kennedy, os tanques soviéticos em Praga, no final do ano ruidoso a vitória eleitoral de Richard Nixon e sua maioria silenciosa e, no nosso Brasil, a implantação do AI-5).
Cohn-Bendit ainda é capaz de surpreender. Perguntado em uma entrevista sobre o legado de 68, ele disse que é positivo, mas seu primeiro exemplo foi, digamos, pequeno-burguês. Danny, o Vermelho, citou que 40 anos depois de tanto tumulto revolucionário uma mulher casada na França já pode abrir uma conta bancária sem a autorização do marido. Só isto? Claro que não, mas Cohn-Bendit novamente foi emblemático para mostrar como as barricadas ajudaram a desmontar hierarquias e trazer mais diversidade social.
No terceiro casamento, com sangue imigrante e judeu, o presidente conservador francês Nicolas Sarkozy diz abominar os excessos meia-oito, mas é inimaginável que estivesse hoje no poder sem as barricadas, os protestos e as farras daqueles dias. Com sua verve habitual, Cohn-Bendit lembra que Sarkozy incorporou para si o slogan "gozar sem freios", agora que está com Carla Bruni.
A anarquia e o individualismo da geração 68 prestaram um grande serviço à humanidade. Não foi apenas uma insurgência contra a ordem burguesa (ela vai bem, obrigado e graças a Deus). Muitos militantes aderiram às aterradoras tolices maoístas, mas os protestos daquela geração desmoralizaram os partidos comunistas e desmistificaram métodos leninistas de atuação política. Como disse Cohn-Bendit em uma de suas entrevistas por estes dias, a doença da direçao autoritária persiste, mas legados de 68 como um espírito de tolerância e a luta permanente pelos direitos humanos são inestimáveis.

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