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Nos EUA, pedir sacrifícios não é slogan eleitoral

28/04 - 08:29 - Caio Blinder, de Nova York

NOVA YORK- Entre suas proezas históricas, George W. Bush é um presidente que levou os americanos à guerra no Iraque sem aumentar os impostos. Ele, na verdade, baixou os impostos para os mais ricos, sem exigir grandes sacrifícios da sociedade em geral. A conta da proeza está aí: a dívida nacional inchou de US$ 5.6 trilhões em 2001 para US$ 9.1 trilhões.

Em uma reportagem de capa na edição de domingo, o "New York Times" detalha as propostas econômicas dos três candidados presidenciais na parada (os democratas Barack Obama e HIllary Clinton e o republicano John McCain) para concluir que, apesar das abordagens diferentes sobre gastos e tributação, o resultado fiscal das propostas da trinca será semelhante: aprofundar de forma significativa o déficite orçamentário e aumentar em trilhões de dólares a dívida nacional.

Pobres candidatos. É ingrato pedir sacrifícios da nação durante a temporada eleitoral. Melhor uma inflação de promessas, quando 3/4 dos americanos dizem que o país está no caminho errado. O Haiti não é aqui, mas os americanos também estão sofrendo com a inflação alimentar e a alta dos preços dos combustíveis, em escala global. Fica duro pedir uma cota de sacrífícios ou apresentar propostas corajosas. A opção é fazer o possível para que os consumidores não alterem seus hábitos perdulários.

Política econômica do governo pode ser dirigida para cortar a demanda, quando o preço do barril de petróleo está na casa dos 120 dólares. Desencorajar o consumo com um imposto mais alto sobre gasolina seria uma saída em um país em que os motoristas não sofrem tanto como em outras sociedades ricas. No entanto, McCain e Clinton cerram fileiras para sugerir justamente o contraprodutivo: a suspensão no verão (a partir de junho) do imposto federal sobre combustíveis (18 centavos de dólar sobre o galão de gasolina).

Obama até que é corajoso para não embarcar nesta, advertindo que a receita deste imposto é necessária para obras de infraestrutura de transportes. Em contrapartida, ele defende os subsídios para o etanol americano de milho, assim como HIllary Clinton. Aqui é a vez de McCain ser um pouco corajoso, na oposição a este protecionismo (ele já é doutrinariamente o mais aberto dos três em questões de comércio).

Políticos americanos adoram falar em independência energética, mas está aí esta dependência de vários lobbies do setor (como das indústrias de petróleo e do etanol do milho). A tarifa de 54 centavos de dólar sobre o galão de etanol a base de cana de açúcar importado do Brasil claro que é escandalosa. Mais do que isto, a combinação de crise alimentar e de espiral de precos do petróleo deveria ser o sinal definitivo sobre a inviabilidade desta política protecionista. Vamos repetir que biocombustíveis como o etanol não são a única (e nem a principal) razão da alta dos preços alimentares.

E, ironicamente, cortar a produção de biocombustíveis pode até agravar a inflação alimentar ao elevar os preços do petróleo e assim os custos de fertilizantes e transporte. A tecnologia para uma produção em larga em escala do estanol de segunda geração (celulose) ainda não esta aí. Nestes termos, no fim de semana, o influente jornal "Financial Times" lembrou que uma solução razoável e imediata seria os EUA e Europa (também muito protecionista) abrirem seus mercados para mais etanol brasileiro a base de cana de açúcar que é mais limpo e causa menos impacto na produção de alimentos do que o etanol a base de milho.

Existe a ladainha que proteger a indústria doméstica é vital para a segurança nacional. Com esta miopia, sofrem tanto a economia mundial, como os consumidores americanos. Por que não pedir mais sacríficios para o poderoso lobby agrícola americano?





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