16/04 - 07:52 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- Com uma certa amargura, eu lamento informar que meu príncipe Barack Obama pisou na bola. E muitos que depositaram suas esperanças na sua mensagem de mudança, transcendência partidária e reconciliação nacional podem pagar caro pela folia retórica do candidato democrata. Obama ficou conhecido por sua eloquência. Para a rival Hillary Clinton, é oratória vazia, mas Obama foi atingido em cheio por suas próprias palavras.
Obama falou o que não deveria num evento de arrecadação de fundos em San Francisco, alegando que muitos interioranos ficaram amargos e canalizaram suas frustrações econômicas indo para a igreja ou se apegando a armas. Esta plebe, de acordo com o príncipe, também ficou ressentida com imigrantes e a globalização. Alguns chamam esta ladainha de elitismo e outros de criptomarxismo chulé do gênero religião-é-o-ópio-do-povo. Foi uma gafe, na definição clássica do jornalista Michael Kinsley. Para ele, gafe é quando um político diz o que realmente pensa.
Antes de tudo, Obama já deveria ter aprendido que nesta era do YouTube não existe declaração off-the-record. Falou, está registrado, disseminado e cobrado.. O "timing" foi simplesmente desastroso. Obama está caçando votos de gente crente que caça patos e veados no Estado da Pensilvânia (primárias em 22 de abril). Sim, religião pode ser ópio do povo e existem montes de idiotas rurais (ou urbanos), mas gente com ansiedade econômica pode acreditar em Deus porque acredita e não por escapismo ou amargura. Estas sutilezas, que estavam inseridas na falação de Obama, se perderam porque o ritmo de uma campanha eleitoral é vertiginoso e avesso a nuances.
Este eleitorado interiorano é branco. Aí ficou mais fácil para HIllary Clinton e o republicano John McCain se esbaldarem com a gafe de Barack Obama sem o perigo de parecerem racistas. É verdade que parte deste eleitorado branco também está aflito com a ascensão de um político negro, mas a gafe de Obama não foi tão longe. No seu discurso "off-the-record" em San Francisco, ele não acusou a caipirada por este preconceito.
Ironicamente, Barack Obama (de mãe branca americana e pai negro da África) veio de baixo. Foi criado pela família materna, de gente interiorana e sem dinheiro. Estudou em Harvard, mas militou como ativista comunitário em Chicago. Esta gafe reforçou sua imagem de sujeito condescendente, incapaz de se afinar com as aflições do americano comum. Claro que Hillary Clinton está forçando a barra, como se ela fosse uma típica americana. Agora a ex-primeira-dama está entornando caneca de cerveja, virando copinho de uísque e diz que já caçou patos. Ora! Como Obama e John McCain, ela pertence à elite americana.
Mas o alvo aqui deve ser Barack Obama. Ele já se safou de outras crises na campanha, como seu relacionamento com o reverendo negro (e racista) Jeremy Wright. Agora o preço é mais alto e responsabilidade direta do candidato. Mesmo com a gafe, ainda será muito difícil para HIllary reverter a vantagem de Obama entre os delegados democratas na corrida das primárias. Um fiasco espetacular de Obama na Pensilvânia e nas disputas restantes é improvável. No entanto, caso aconteça, poderá reforçar as dúvidas entre os superdelegados (que no final das contas decidiráo as coisas) se ele é o democrata ideal contra o republicano John McCain em novembro. Hillary Clinton continua persistente no papel de debilitar Obama para o grande combate do final do ano. Claro que algumas feridas do príncipe são autoinflingidas.
A situação complicou, mas não é desesperadora para Obama. Pesquisas de opinião pública esta semana não mostram que a gafe tenha causado um grande impacto. Em todo caso, na amargura, Obama não precisa sair por aí atirando em patos, mas quem sabe poderia entrar em uma igreja da Pensilvânia para pedir uma ajuda divina. Em ópio, nem pensar.

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