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O outono do patriarca africano Robert Mugabe

28/03 - 07:14 - Caio Blinder, de Nova York

NOVA YORK- O outono do patriarca Robert Mugabe certamente irá se estender além das eleições deste sábado no Zimbábue. Mugabe é a triste caricatura africana de bravos líderes latino-americanos que empreenderam revoluções e que no poder se converteram em déspotas megalomaníacos e paranóicos.

Com 84 anos, Mugabe é um tenaz autocrata que governa seu país há quase três décadas com mão de ferro, demagogia e um resquício de carisma. Ele é cada vez menos convincente com a retórica dos tempos da luta de libertação para atribuir as aflições nacionais aos colonizadores britânicos e ao regime racista branco de Ian Smith dos tempos em que o Zimbábue era a Rodésia. Mugabe preside um dos mais vertiginosos colapsos econômicos da história, com uma inflação de mais de 100 mil por cento.

    O reinado despótico trouxe ruína. Zimbábue já foi um dos países mais prósperos da África negra. Mugabe, no entanto, confiscou as terras dos fazendeiros brancos e as distribuiu entre os apaniguados. Uma economia famosa pela exportação de tabaco, açúcar e minerais hoje vive na penúria. Zimbábue agora exporta prostitutas para os países vizinhos. As escolas não têm professores e os hospitais se transformaram em morgues. Com 55 milhões de dólares zimbabuanos dá para comprar um mísero dólar. Isto é que é milagre econômico às avessas.

    E no entanto, o patriarca insiste em gastar e imprimir dinheiro para se manter no poder. Ele distribui tratores e gado para caciques rurais, aumenta salários dos funcionários publicos e das forças de segurança, mantém controle absoluto dos meios de comunicação e tem uma ferramenta chamada medo. Existem algumas luzes no fim do túnel. como a deserção do ex-ministro da Economia Simba Makoni, que concorre à presidência como independente, e o ressurgimento do líder da oposição Morgan Tsvangirai. Mas a curto prazo, a causa é quixotesca e ironicamente as forças antiMugabe estão divididas.

    A intimidação e a fraude eleitoral devem fazer com que Mugabe ganhe um sexto mandato. Nove milhões de cédulas eleitorais foram impressas, embora o país tenha 6 milhões de eleitores registrados. Mugabe adverte ser fora de cogitação que o partido governista, o Zanu-PF, perca a votação. Em um comício, o déspota afirmou que, "enquanto eu estiver vivo, o Movimento por Mudança Democrática (a oposição) não governará este país. Isto não irá acontecer". A bravata sinistra lembra algo dito pelo líder racista Ian Smith em 1971: "Nem em mil anos os negros irão governar a Rodésia". Em menos de dez anos, era o Zimbábue do governo negro de Robert Mugabe.

    Um dia a história irá se repetir. O outono do patriarca irá terminar e, seguramente, em menos de 10 anos.





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