24/03 - 07:41 - Caio Blinder
O dom da oratória de Barack Obama é tão poderoso que ele mesmo é vítima de suas palavras. Ainda repercute o discurso sobre raça que o candidato presidencial democrata fez na semana passada em Filadélfia. A idéia (ingênua) de Obama, de pai negro e mãe branca, era se colocar como um político pós-racial. Sua íntima relação com o controvertido pastor Jeremiah Wright e as revelações sobre o seu racismo negro forçaram Obama a tratar abertamente do assunto.
E o candidato foi mais fundo do que se esperava. Ele foi para os subterrâneos da identidade racial americana. Não se tratava apenas de se distanciar da retórica do pastor (algo óbvio e com urgência política). Ao seu estilo deliberativo, a perigosa opção de Obama foi tratar os americanos como adultos e fazer reflexões sobre o papel da raça na história e na sociedade dos EUA. O pastor negro e mentor espiritual é tão família de Obama como sua avó branca.
De ambas as partes, manifestações de racismo. De um lado, a raiva negra com a pesada carga histórica da discriminação. Do outro, o ressentimento branco com a longa cobrança da dívida histórica. Nada fácil e, com seu discurso, Barack Obama não facilitou a conversa.
O candidato pode ser vítima porque em campanha eleitoral o caminho "politicamente correto" é dar respostas simplistas e demagógicas. Mas Obama prefere tratar assuntos complexos com a complexidade que eles merecem. Ao agir desta maneira, ele desafia o eleitor. Para gente mais cínica, a oratória não passa de um artificio para se evadir de posturas mais efetivas.
A eloquência de Obama, porém, tem substância. O problema é sua ambição para refazer as regras do jogo. Esta ambição também cria uma armadilha: a arrogância ingênua de Obama de se colocar acima das picuinhas de uma guerra eleitoral. A realidade e as pressões da campanha já removeram o candidato principesco de seu pedestal. Com o discurso da semana passada, Obama mostrou sua teimosia, ao tentar recolocar a conversa nos seus termos.
Novamente, trata-se de um gesto audacioso. As próximas semanas indicarão o impacto mais eleitoral do discurso sobre raça. A rigor, a repercussão será mais profunda, além da corrida contra Hillary Clinton. Caso Obama vença as primárias democratas, seu estilo político será colocado a uma prova mais cruel no duelo direto contra os republicanos, que irão questionar as ambiguidades e as nuances de Barack Obama. Mas a razão de ser do candidato é justamente esta mensagem mista e sua identidade birracial.
Com uma dose de pretensão, é possível dizer que Barack Obama é um político adiante do seu tempo. Sua proposta de confrontar os problemas com candidez e bom tom se choca com a habitual selvageria eleitoral. No jogo cru não há muito espaço para sutilezas. É é claro que o próprio candidato nem sempre é coerente. Como qualquer candidato, ele pode ser evasivo ou simplesmente fazer média. Em campanha, em estados marcados pela decadência industrial, como Ohio, faltou coragem para dizer que acordos de livre comércio não tiveram impacto substancial na perda de empregos. Falta também peito para assumir que não há como terminar a guerra do Iraque em 16 meses.
A pergunta extremamente pretensiosa é a seguinte: quem é mais inexperiente? Obama ou o eleitor?

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