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Na crise, ninguém é anjo, mas Chávez é o mais endiabrado

07/03 - 08:44 - Caio Blinder, de Nova York

NOVA YORK-O primeiro-ministro de Israel Ehud Olmert não é nenhum anjo. Tampouco o presidente da Colômbia Álvaro Uribe, mas vamos falar do demônio Hugo Chávez. Tal linguajar é compatível com a retórica do presidente da Venezuela. Em uma de suas fuzilarias verbais neste crise sul-americana capaz de gerar muito estupidez, Chávez esbravejou que a Colômbia é a Israel da América Latina. Ele quis desferir um insulto, colocando no mesmo saco dois países, que na sua visão, são fantoches dos EUA, aquela nação imperialista governada pelo "diablo" George W. Bush.

 

Mas vamos fazer o insulto sair pela culatra. De fato há algum em comum entre os dois "fantoches": Israel enfrenta os terroristas do Hamas e do Hezbollah e os colombianos também têm seus inimigos terroristas, as Farc. O número 2 do grupo, Raúl Reyes, morto no ataque colombiano no Equador, era terrorista e ponto final. Nada da lenga- lenga de Hugo Chávez de defini-lo como um "bom revolucionário" ou tratar os dinossauros das Farc como uma versão moderna, mas ainda romântica, da turma de Robin Hood. São bandoleiros que achacam ricos e pobres. As Farc atacam militares e civis. Em nome de uma falida causa ideológica antioligárquica, despencaram na vala do terrorismo e do tráfico de drogas.

Nunca é fácil decifrar a mente agitada de Hugo Chávez, mas no geral uma crise externa sempre cai sob medida quando um país está assolado por uma crise interna. Na incursão colombiana no Equador, parece até que a soberania da Venezuela foi violada ou parece que é complexo de culpa, pois o país também é santuário do terror colombiano. Na sequência de sua derrota no referendo de dezembro, que permitiria sua reeleição por tempo indeterminado, Chávez intensificou sua guerra verbal contra a Colômbia. Vamos esperar que fique no verbo, nas bravatas, na mobilização de tropas e nas retaliações comerciais e diplomáticas.

Da parte de Uribe, algumas das suas acusações, supostamente extraídas do laptop de Raúl Reyes, parecem inspiradas em roteiro de filme B de Hollywood (os US$ 300 milhões de Chávez para as Farc e os planos dos rebeldes para a compra de 50 quilos de urânio com o objetivo de fabricar uma bomba suja. Uribe sempre teve a habilidade de jogar  com a paranóia americana na guerra contra o terror. O bando das Farc não é uma filial andina da Al Qaeda. A sua barbárie é nativa.

A Colômbia está tendo sucessos na guerra contra o terror (o que deveria ser saudado por todos na América Latina), mas fracassa na retumbante guerra às drogas empreendida pelos EUA. Algo como 90% da cocaína nas ruas americanas vêm da Colômbia (isto sim é um puro tratado de livre comércio). Nos últimos oito anos, os EUA  deram mais de US$ 4 bilhões aos colombianos para treinamento militar, equipamento e inteligência para caçar os traficantes e erradicar as plantações de coca. Estes investimentos lembram a fortuna dada ao Paquistão do general Pervez  Musharraf , que se mostrou dúbio naquela outra guerra, contra o terror.

Bem, já que estamos disparando contra todos neste comentários, não vamos poupar o israelense Ehud Olmert.  É fantasia ou enrolação o seu jogo de fazer guerra contra os terroristas do Hamas, em Gaza, e tentar, ao mesmo tempo, a paz com o impotente presidente palestino Mahmoud Abbas, na Cisjordânia.

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