20/02 - 08:35 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- Atenção! O Messias não vem aí. Barack Obama vem apenas com a missão mais mundana de tentar conquistar a presidência do país mais poderoso do mundo. Ainda falta a vitória definitiva nas primárias democratas, mas já é bom ver o eloquente senador por Illinois descer (ou ser puxado) das alturas e ser tratado como um mero mortal pela imprensa.
A cada vez mais desesperada rival democrata Hillary Clinton e o republicano John McCain, que será coroado candidato partidário, há semanas têm batido na tecla da inexperiência de Obama ou do excesso de vapor que emana da sua discurseira. O veterano senador e herói de guerra disse terça-feira à noite que "lutará para que os americanos não sejam enganados por um eloquente mas falso chamado de esperança". A ex-primeira-dama agora até acusa o rival democrata de plágio retórico por ter usado em comício frases de um aliado, o governador de Massachussetts, Deval Patrick.
Para a imprensa, o ponto de virada foram as vitórias de Obama nas primárias de Virginia, Maryland e a capital Washington, em 12 de fevereiro. Na semana passada, ele atingiu o status de líder na corrida democrata (as vitórias desta última terça-feira em Wisconsin e Havaí foram apenas uma preliminar para o grande jogo, talvez final, contra Hillary Clinton em 4 de março no Texas e Ohio). A liderança, porém, significou o fim de um certo favoritismo de Obama na mídia.
O tom está mais crítico e a cobrança mais rigorosa. Basta ver que editoriais dos dois principais jornais, "The New York Times" e "The Washington Post", tomaram satisfação com o príncipe que posa de mais coerente do que o resto da plebe política. Os editoriais lembraram da sua promessa de que aceitaria apenas fundos públicos (e não privados) nas eleições gerais de novembro se o mesmo compromisso fosse assumido pelos republicanos.
Espertamente, John Mccain topou o desafio e exige coerência de Barack Obama, que montou uma fabulosa máquina de arrecadação de fundos privados, em especial de pequenos doadores (US$ 30 milhões por mês). A promessa do príncipe agora soa vacilante.
Obama promete mundos e fundos. E quando chegar lá? Se chegar. Como ele irá cicatrizar as feridas nacionais? Onde está o terreno comum em um país tão dividido nas suas guerras culturais? Só para citar um exemplo: aborto. Obama tem uma frase engenhosa. Ele diz que terá mais cuidado para retirar as tropas do Iraque em contraste à leviandade que foi despachá-las. O próprio candidato, porém, reconhece que houve ganhos táticos com o reforço de tropas.
Para rebater as acusações de carência de planos concretos e inflação de inspiração, Obama faz agora longos discursos em que recheia a eloquência com detalhes do seu programa de governo. Ele apresentou um pacote de US$ 140 bilhões anuais, que inclui a reforma abrangente do sistema de saúde, subsídios para energia alternativa, investimentos em infraestrutura e corte de impostos para os menos ricos. Ele garante que amarrando tudo isto com o fim da mamata do corte dos impostos para os mais ricos, além de algumas tributações adicionais, dá para acertar as contas. Um dia, quem sabe em janeiro de 2009, Obama será chamado para assumir o papel de pagador de promessas.
É verdade que o presidente americano tem capital: ele é um forjador de opinião, um construtor de consenso e um arquiteto de acordos. Obama tem talentos para as tarefas. Mas qual será o alcance? Ele se propõe a ser um agente de mudança e um conciliador. Como conciliar as duas metas? Obama vem aí, não o Messias.

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