08/01 - 09:23 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- Recuperação de um candidato sempre dá sabor a uma corrida eleitoral. Nesta terça-feira na eleição primária de New Hampshire, Hillary Clinton gostaria de ser a "comeback girl", repetindo o feito do marido Bill, que com o segundo lugar no mesmo estado na campanha presidencial em 1992 ganhou a fama de "comeback kid".
Há 16 anos, ser vice foi uma vitória para um Clinton. Mas desta vez a história da volta por cima de um garoto acontece com o setentão John McCain na corrida republicana. Com o garotão Barack Obama com a corda toda entre os democratas, a recuperação de Hillary poderá ser em uma clínica de reabilitação.
Na já remota votação em Iowa, na quinta-feira passada o grande personagem da história republicana era Mike Huckabee, o campeão da direita religiosa. Em New Hampshire, a saga é sobre McCain. Há quatro meses, acontecera o colapso de sua campanha. McCcain ficou sem dinheiro e perdeu assessores. Mas McCain voltou a ser McCain, o político iconoclasta, desbocado e assumindo posições que deixam os marqueteiros aterrorizados. Tal postura, porém, tem seus atrativos em um estado como New Hampshire, com seus eleitores independentes e iconoclastas.
Existe um contraste escandaloso entre McCain e Mitt Romney, o ex-governador de Massachussetts, com o qual ele disputa a vitória nas primárias republicanas nesta terça-feira. Romney é oportunista e ajusta suas posições de acordo com a ocasião. O azar de McCcain é que muitos eleitores independentes em New Hampshire que lhe deram a vitória nas primárias há oito anos contra George W. Bush agora gravitam para a órbita de Barack Obama, especialmente aqueles que são contra a guerra do Iraque.
McCain é politicamente incorreto. Há oito anos, sua jornada presidencial não foi além do triunfo em New Hampshire (18 pontos de vantagem). Na primária da Carolina do Sul, a campanha negativa e caluniosa de Bush foi devastadora. Foi fatal, pois McCain não deu o devido troco. Entre os candidatos de hoje, McCain é o mais ardoroso a apoiar a guerra de Bush no Iraque. Ele também é politicamente incorreto na medida em que se insurgiu contra a pequenez do seu partido que passou a tratar imigrantes ilegais como demônios.
McCain está de volta e os americanos redescobriram sua camaradagem com o político. Nem todos concordam com suas posições e conservadorismo, mas ele é muito respeitado. E a tal história das convicções. Sim, ele é velho (71 anos), mas aí velho é um adjetivo. McCain é o velho guerreiro (vítima de torturas pelos comunistas quando aprisionado na guerra do Vietnã), calejado e cheio de princípios. Em New Hampshire, uma pesquisa mostra que 2/3 dos eleitores democratas têm uma imagem favorável de McCain.
Mesmo que ele vença nesta terça-feira, o caminho continuará acidentado para McCain. As primárias republicanas têm contornos imprevistos, mas um duelo entre ele e Barack Obama (46 anos) nas eleições de novembro será fascinante. Além da disputa partidária, será um conflito de gerações. O mais velho e o mais jovem entre os candidatos, porém, têm algo em comum: ambos estão suficientemente próximos da realidade para parecerem autênticos.
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