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Com Che é preciso endurecer, sem ter ternura, jamais

09/10 - 07:41 - Caio Blinder, de Nova York

NOVA YORK- Quisera eu ter material para fundar o MR-9, o Movimento Revisionista 9 de outubro, e falar alguma coisa original, a favor ou contra, neste quadragésimo aniversário da morte de Che Guevara. Ele vive como santo ou demônio. Em todo caso, ainda impressiona esta peregrinação para o buraco dos Andes, em La Higuera, onde o médico argentino, megalomaníaco e idealista peripatético foi executado por tropas bolivianas, assistidas pela CIA. Os americanos ainda não mostraram a mesma eficiência na caçada de Osama bin Laden.

 

Che fracassou na exportação da revolução cubana, mas hoje a Bolívia de Evo Morales importa médicos e professores de Havana. Che, que não entendia nada de economia (e por esta razão foi presidente do Banco Central cubano), iria coçar a barba se estivesse vivo e testemunhasse que os petrodólares de Hugo Chávez são mais efetivos contra os ianques do que sua sandice foquista. Ele tampouco entendia de revolução.

É preciso ser ortodoxo e endurecer com Che sem ter ternura, jamais. Não dá para enaltecer o beato dos Diários da Motocicleta. Che era um diarista compulsivo e sempre impressiona sua frieza (eu falei frieza e não tenacidade revolucionária) nos relatos sobre as execuções nos primeiros tempos da revolução cubana. Ele era Deus à frente de uma "comissão purificadora", encarregado de ritos sumários. Sobre uma das execuções, Che escreveu que "não é possível tolerar nem mesmo a suspeita de traição".

Apesar das convicções (equivocadas), Che era capaz de ficar em cima do muro. Não se trata de metáfora política. Era lá em cima do "paredón", conforme a versão de um ex-companheiro de guerrilha, Dariel Jiménez Alarcón. Che subia para dar apoio moral aos integrantes do pelotão de fuzilamento. Deitado de costas, fumando o charuto, ele observava as execuções. Daria uma foto icônica, digna de Alberto Korda.

Pena que não seja possível esperar até o cinquentenário da morte para falar outra vez de Che. No ano que vem, será preciso comentar o filme de Steven Soderbergh, com Benicio del Toro no papel de Che, sem contar os 80 anos do nascimento do revolucionário equivocado. Mas, ao menos, 2008 será o ano do quadragésimo aniversário das mortes de Martin Luther King e Bob Kennedy, heróis imperfeitos, mas mais nobres do que aquele médico argentino.





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