05/10 - 07:50 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- Eu confesso que quando estou na fila do caixa do supermercado prefiro ler as manchetes das revistas de celebridades (por que a Angelina está tão magra? Será que ela vai se divorciar do Brad?) do que folhear "Foreign Affairs" ou "Le Monde Diplomatique". O problema é que os dramas de Angelina e as travessuras de Britney se tornaram uma obsessão não apenas quando os americanos estão na fila no supermercado. Existe um sério caso de dependência noticiosa das celebridades.
Como definir notícia? O conceito de redes de televisão que cobrem noticiário 24 horas por dia está cada vez mais para uma jornada interminável de cobertura de celebridades. Jake Halpern tem uma história bem ilustrativa. Ele acaba de lançar seu livro "Fame Junkies" (Viciados na Fama), sobre a obsessão dos americanos com as celebridades e ramificações mais sérias a respeito desta mania. No começo da semana, Halpern foi convidado pela rede CNN para aparecer no ar e discutir seu livro. Ele foi para o estúdio e no último momento sua entrevista foi cancelada. Havia "breaking news", as notícias extraordinárias. Britney Spears tinha acabado de perder a custódia dos filhos.
O futuro dos filhos de Britney é mais do que uma notícia extraordinária. É uma extravagância jornalística, comparável a guerras, grandes atentados terroristas ou um furacão dantesco. Uma análise das transcrições da CNN naquela última segunda-feira da notícia da custódia das crianças mostra que o assunto mereceu o triplo da cobertura a respeito da guerra do Iraque. Indo mais fundo, Britney vale 37 vezes mais do que o conflito em Darfur, na África, definido pelas Nações Unidas como a maior crise humanitária dos tempos modernos.
A obsessão vai além das televisões por assinatura. O Tyndall Report informa que há duas semanas no noticiário nobre das três grandes redes de televisão (ABC, CBS e NBC) a bizarra prisão de O.J. Simpson em Las Vegas rendeu mais do que, combinadas, as três supostamente grandes notícias do dia: o novo plano de saúde da candidata presidencial Hillary Clinton, uma manifestação anti-racista no estado da Lousiana ou a aguardada decisão do Banco Central americano sobre redução dos juros.
Não sei se Jack Halpern terá seus minutinhos de fama para falar na CNN, mas caso ele não apareça, tem um recado importante. O problema não é a cobertura de celebridades em veículos que vivem despudoramente deste nicho, mas quando notícias genuínas se curvam a Britney Spears e Paris Hilton. É sempre mais cômodo culpar o consumidor ou o viciado. Chega de conversa mole. Afinal, qual é o peso da Angelina Jolie?

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