04/10 - 07:41 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- Claro que o lançamento do Sputnik há exatamente 50 anos foi um grande salto para nossa confusa humanidade, assim como o pequeno passo de Neil Armstrong na Lua 12 anos mais tarde. O feito soviético em 4 de outubro de 1957 em um mundo imerso na Guerra Fria foi recebido com deslumbramento e apreensão. O bip-bip enviado para a Terra pelo primeiro satélite artificial era um sinal de progresso tecnológico, mas também da capacidade destrutiva do ser humano, este animal complicado e contraditório.
No ar, literalmente no ar, estava a ameaça de destruição em massa. O Sputnik era uma mensagem estridente do poderio soviético. Depois vieram outros golpes devastadores para a autoconfiança americana. Já em novembro de 1957, Laika foi ao espaço, mostrando a superioridade da cadela socialista. Em abril de 1961, foi a vez de Yuri Gagárin, agora era o homem socialista à frente dos porcos capitalistas.
Não havia medo americano da esfera de 58 centímetros de diâmetro e apenas 85 quilos, com uma superfície polida de alumínio, quatro antenas e dois rádios transmissores, embora a engenhoca representasse humilhação na corrida entre as superpotências.
Existia medo americano do imenso foguete no qual o Sputnik fora montado. Era o primeiro míssil balístico intercontinental do mundo. O projétil de 183 toneladas deu à antiga URSS a capacidade de destruir qualquer cidade na Terra minutos após o seu lançamento das estepes do Cazaquistão, décadas mais tarde fonte de inspiração inofensiva para Borat.
O coração dos EUA, um país de proporções continentais, estava pela primeira vez na história vulnerável a um ataque estrangeiro. Era o momento dos soviéticos, submetidos às frequentes exibições do poder de fogo americano, saborearem a glória. "Nós simplesmente trocamos a ogiva", bravateou o dirigente Nikita Khrushchev, referindo-se ao Sputnik.
O espaço e o chão firme eram cenários de competição entre dois blocos ideológicos. Dois anos depois do lançamento do Sputnik, em meio à escalada da Guerra Fria, foi a vez dos americanos se vangloriarem em uma frente mais prosaica de batalha. Foi no "debate na cozinha", em Moscou, entre Khrushchev e o vice-presidente dos EUA, Richard Nixon. O debate aconteceu na cozinha da casa modelo americana, com suas quinquilharias, em uma exibição na capital soviética e Nixon aproveitou para contar as vantagens da economia de mercado. O pingue-pongue foi gravado em video-teipe colorido, uma nova tecnologia americana e Nixon fez referência à proeza.
Os soviéticos foram primeiro ao espaço, mas os americanos venceram a Guerra Fria na cozinha e no resto.

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