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Na ONU, Lula é coadjuvante e dono do show é Ahmadinejad

24/09 - 07:32 - Caio Blinder, de Nova York

NOVA YORK- Dar uma chegadinha em Nova York para a abertura da assembléia-geral das Nações Unidas é sempre um bom negócio para o presidente Lula. Como reza a tradição, presidente brasileiro é o primeiro orador e a ONU é um fórum sob medida para Lula e sua agenda global de inclusão social e de investimentos em fontes alternativas de energia. Pena que haja tanto desperdício de energia retórica e de papel dentro das Nações Unidas.

 

Lula também terá uma pilha de "bilaterais", entre elas com um presidente meio perdido em final de mandato chamado George Bush. E nada mal que antes de pousar no aeroporto Kennedy, Lula tenha chegado aos americanos em uma entrevista de destaque na edição dominical do "New York Times". Paciência que o jornalão tenha tratado o presidente como estadista-Teflon, na medida em que os escândalos não colam nele.

Pois bem, Lula tem etanol diplomático nestas viagens a Nova York, mas arranque para valer é o do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad. O homem sabe ganhar espaço e produzir controvérsia. Deu Lula no "New York Times"', mas Ahmadinejad foi entrevistado no domingo à noite no venerável programa de televisão 60 Minutos.

Há dias, Nova York fala (em geral, muito mal) do bizarro dirigente do regime xiita. Ahmadinejad, cujo governo é acusado pelos americanos de patrocinar terrorismo, pediu para colocar uma coroa de flores no Marco Zero, onde estavam as torres do World Trade Center destruídas nos atentados do 11 de setembro. Os candidatos presidenciais e Bush disseram que era um pedido indecoroso. A polícia de Nova York vetou a visita por razões de segurança. Por lei internacional e protocolo diplomático, quem aparece na ONU (território não americano) pode circular em Nova York até a 40 quilômetros da sede da instituição.

Ahmadinejad, no entanto, descolou uma conversa com professores e estudantes na Universidade de Columbia nesta segunda-feira à tarde. Os protestos estão em marcha. A direção da escola garantiu que haverá perguntas duras para um dirigente que nega o Holocausto e quer que o Estado de Israel seja varrido do mapa. É um risco trazer o homem, mas é preciso assumi-lo. Coisas da democracia.

Ahmadinejad diz que no seu discurso na ONU vai apresentar ao mundo o "modelo iraniano". Que modelo é este? O Irã desafia as próprias ordens da ONU e segue com seu programa de enriquecimento de urânio. O Irã confunde, pois o Ocidente em geral não sabe como lidar com o país. Negociar? Impor sanções mais duras? Ameaçar com a guerra?

Já Ahmadinejad sabe jogar. Para um público interno, ele peita o grande Satã americano e os pequenos europeus com seus delírios de hegemonia regional e ambições nucleares. Mas, em outras horas, Ahmadinejad soa razoável e disposto ao compromisso, em particular para uma audiência americana que não morre de amores por seu próprio presidente. Domingo à noite, na entrevista no 60 Minutos, ele disse que o Irã não quer armas nucleares e não caminha para a uma guerra contra os EUA.

Não dá para confiar em Ahmadinejad. O homem é radioativo. Mesmo assim, que venha debater em Columbia. Por mim, ele pode depositar uma coroa de flores no Marco Zero, desde que faça o mesmo no Museu do Holocausto pelos seis milhões de judeus e outras vítimas da barbárie nazista.

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