06/09 - 08:32 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- A escola Michael Moore de documentários não está à vista em "No End in Sight, o filme de Charles Ferguson sobre o início da ocupação americana do Iraque. Para mostrar que não existe um fim à vista, o estreante Ferguson foi para o começo do desastre. Com 35 entrevistas e imagens jornalisticas, o documentário lúcido, sóbrio, conciso e com narração neutra prova que uma mensagem não precisa ser sarcástica ou bombástica para ser incendiária.
Sem a irritante exuberância satírica de Michael Moore, Ferguson é uma figura interessante. De formação acadêmica, ele fez fortuna nos tempos da bolha da Internet dos anos 90 (vendeu sua empresa de software para a Microsoft) e bancou do próprio bolso os US$ 2 milhões necessários para o documentário. Ferguson apoiou a invasão em si e não se concentra nos seus motivos. Seu interesse clínico (e não cínico) é mostrar como e porque as coisas não funcionaram na ocupação.
"No End in Sight" focaliza sua atenção em maio de 2003, depois que o presidente Bush, com jaqueta de aviador, fez o famoso e patético discurso "missão cumprida", mas antes da plena implementação dos planos para pacificar e reconstruir o Iraque. Que plano? Os americanos levaram dois anos para planejar a reconstrução da Alemanha depois da Segunda Guerra. Levaram menos de 60 dias no caso do Iraque, num projeto a cargo de pessoas que não conheciam a língua e a cultura do país. Apaniguados do governo Bush foram encarregados de implementar fiascos como a desmobilização do Exército de Saddam Hussein, um típico manual de como não fazer amigos e gerar rebeldes e terroristas. Foi a pior de tantas decisões erradas.
O documentário argumenta que a insurgência e a escalada de violência poderiam ter sido suavizadas ou contidas se gente com experiência tivesse influenciado os eventos. Não sabemos. Quem não se afinou com a arrogância, ignorância e inépcia do vice-presidente Dick Cheney ou do ex-secretário de Defesa Donald Rumsfeld foi afastado ou colocado na geladeira. No seu relato, Robert Hutchings, que dirigia o Conselho Nacional de Inteligência, diz estar convencido que Bush sequer leu o sumário de uma página do seu comitê sobre a deterioração da situação.
Residentes importantes da torre de marfim de Washington se recusaram a conversar com Ferguson e o único que defende a estupidez oficial, Walter Slocombe, o ex-assessor de segurança na adminstração provisória de ocupação, expressa suas opiniões com serenidade e convicção. Não é à toa que um tom de perplexidade perpassa o documentário em relação à negligência criminosa do governo Bush.

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