28/08 - 08:55 , atualizada às 09:55 28/08 - Caio Blinder, de Nova York
NOVA YORK- Justiça seja feita. Até que Alberto Gonzales aguentou o tranco por um bom tempo. Meses a fio, o ministro da Justiça demissionário foi torturado (justamente ele que definiu as convenções de Genebra contra a tortura como anacrônicas) por congressistas exasperados com sua incompetência, falta de espinha dorsal e controvérsias envolvendo a demissão de procuradores públicos federais e elasticidade legal na guerra contra o terror. E de pensar que Bush pensou em tornar Gonzales o primeiro latino na Suprema Corte. Dios mio.
Mas não deu mais. Gonzales pediu demissão e George W. Bush deixou partir seu fiel servidor e compadre do Texas. O anúncio na segunda-feira foi um alívio até para gente do alto escalão da Casa Branca. Gonzales era um vexame permanente. Existe uma debandada de quadros no governo Bush. Em breve, o presidente precisará baixar uma ordem executiva instruindo quem será encarregado de apagar as luzes (talvez o soturno vice-presidente Dick Cheney), mas esta debandada se tornou irrefreável.
Com relutância, Bush permitiu que partissem Gonzales e, há duas semanas, Karl Rove, seu principal assessor politico e arquiteto de vitórias eleitorais. Ambos eram carga pesada, devido a passionais colisões com expressivas parcelas do Legislativo, quando o presidente precisa de agilidade para travar batalhas cruciais contra o Congresso de maioria democrata, a partir de setembro, com o fim do recesso parlamentar. A maior delas sobre o futuro da empreitada iraquiana, a crise que irá determinar o legado do presidente.
Bush agora está sem a turma de texanos que armou sua improvável ascensão ao poder. É um fato significativo para um presidente que dependeu desta oligarquia em seis anos e meio de governo, mas demonstra sua ausência de cartas e a necessidade de se curvar a uma nova realidade. Com a proeminente exceção do vice Cheney, Bush agora está cercado de assessores mais flexiveis, mais acostumados aos conchavos políticos de Washington do que os caubóis texanos.
Lideranças republicanas lamentam que Bush não tenha empreendido mudanças expressivas no modo de governar após sua reeleição em novembro de 2004. O presidente disse na ocasião que tinha capital politico e iria gastá-lo. Foi um desperdício. Subalternos como Alberto Gonzales já vão tarde, mas parece ser muito tarde para uma ação de resgate de Bush do seu lamaçal.

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