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A fina truculência do camarada Vladimir

08/06 - 07:33 - Caio Blinder

Vladimir Putin não é de tirar o sapato e começar a batê-lo na mesa ao estilo Nikita Khrushchev, mas o presidente russo, ex-agente da KGB, é um camarada truculento. Ele também é capaz de exibir finesse diplomática. Na quinta-feira, Putin surpreendeu George W. Bush na reunião bilateral à margem da cúpula do G-8 na Alemanha com uma oferta para que os americanos transfiram parte de um planejado sistema de defesa antimísseis na Europa Oriental para uma antiga base soviética no Azerbaijão, um daqueles países da Ásia Central que inspiram filme com o Borat.

O presidente americano precisou responder que se tratava de uma "proposta interessante" e deverá continuar a conversa com Putin no começo de julho na casa de veraneio da família Bush no estado de Maine. George adora bater papo com aquele que chama de "amigo Vladimir, mas desde o início da amizade mostrou não ter uma visão estratégica no relacionamento. Bush apostou que o "amigo Vladimir" seria um reformista modernizante pró-Ocidente e não um autocrata com mania de grandeza. 

Não se sabe se a oferta é começo de negociação ou foi feita pelos russos para ser recusada pelos americanos. Esta crise dos mísseis acontece em meio ao momento mais quente no relacionamento entre os dois países desde o final da Guerra Fria, embora tenha amainado desde quinta-feira. Bush diz que o sistema antimísseis é para proteger a Europa (e a Rússia) de disparos de países deliquentes como o Irã, mas Putin não engoliu a história e ameaçou redirecionar mísseis para a Europa Ocidental. Muy amigo.     

Putin não tirou o sapato, mas de certa maneira bateu na mesa. O plano de defesa antimísseis foi pretexto para seu ataque. Com a economia movida a petróleo em recuperação, ele foi tomado por uma nostalgia dos velhos tempos do império soviético. Acha que a nova Rússia tem sido humilhada pelo Ocidente com lances como a expansão da Otan no antigo quintal soviético da Europa Oriental, a intervenção em Kosovo e as críticas à democracia à moda russa. Com o plano antimísseis, Bush superestimou o amigo Vladimir e subestimou o presidente da Rússia. 

O desafio para Putin é não subestimar os europeus. Ele quer explorar divisões no continente sobre este plano de defesa antimísseis. Mas hoje importantes países europeus como a Alemanha e França têm dirigentes (Angela Merkel e Nicolas Sarkozy) menos hostis aos EUA do que seus antecessores. Ainda por cima, eles consideram repelente a nostalgia de Putin pela velha ordem soviética. Se Putin não tiver finesse diplomática, ele poderá unir a Europa contra a Rússia e aproximá-la dos americanos, como nos velhos tempos da Guerra Fria.





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