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    <title>Último Segundo :: Alberto Dines</title>
    <link>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/</link>
    <description>Alberto Dines</description>
    <language>pt-br</language>
    <pubDate>Fri, 20 Nov 2009 18:31:17 -0300</pubDate>
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      <title><![CDATA[Último Segundo :: Alberto Dines]]></title>
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      <title><![CDATA[Lembrando o fascismo]]></title>
      <link>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/2009/11/20/lembrando+o+fascismo+9136906.html</link>
      <description>Como se não bastasse o emaranhado produzido pela decisão do STF sobre Cesare Battisti, entra em cena o ministro da Justiça, Tarso Genro, armado com a sua proverbial capacidade de confundir para afirmar que a tendência do governo é negar a extradição porque a Itália está dominada por um &#x93;fascismo galopante&#x94;. Bravo, bravíssimo! Há muito que a esquerda brasileira não se manifesta de forma tão categórica sobre o fascismo, certamente receosa de ferir as suscetibilidades de lideranças latino-americanas assemelhadas ao movimento criado por Benito Mussolini no século passado. &#xD;
&lt;P&gt;&lt;/P&gt;Na verdade, Tarso Genro inicia a ofensiva retórica destinada a contornar a decisão do STF que considerou indevido o refúgio político oferecido pelo próprio ministro, razão pela qual deveria ser extraditado para a Itália. Como a douta e arrevesada decisão da suprema corte delega ao presidente Lula a decisão final sobre a extradição, Tarso Genro recebe a espinhosa missão de preparar o terreno para um desfecho que novamente deixará o Brasil do lado errado repetindo o triste episódio do sequestro dos boxeadores cubanos que pretendiam deixar a delegação do seu país nos Jogos Pan-Americanos no Rio.&#xD;
&lt;P&gt;&lt;/P&gt;O apalhaçado Sílvio Berlusconi é reacionário, autoritário, repressor, corrupto, indecente, imoral. Embora apoiado pelos neofascistas da Liga Norte e pelos velhos fascistas do resto da Itália, o premiê italiano não preside um Estado fascista. &#xD;
&lt;P&gt;&lt;/P&gt;A despeito da degradação produzida pela presença de Berlusconi na cena política, a Itália é um país fundamentalmente democrático. Em termos institucionais está muito mais próxima do Estado de Direito do que nós. A preocupação &#x93;humanitária&#x94; do ministro Genro é injustificada. Battisti corre perigo aqui, num Estado incapaz de oferecer garantias à cidadania e enfrentar as pequenas e grandes delinquências.&#xD;
&lt;P&gt;&lt;/P&gt;No entanto, a afirmação do ministro da Justiça é extremamente oportuna. Serve para lembrar que - ao contrário do nazismo &#x96; o fascismo não foi liquidado pela derrota do Eixo, em Maio de 1945. A ascensão de Juan Perón na Argentina, começou exatamente quando a vitória dos Aliados parecia inevitável e, ao longo das décadas seguintes ficaram muito claras as convergências entre o &#x93;socialismo&#x94; fascista e os movimentos de massa nacionalistas que sacudiram a América do Sul.&#xD;
&lt;P&gt;&lt;/P&gt;O nacional-socialismo de Hitler circunscreveu-se basicamente ao mundo germânico enquanto o fascismo engendrado pelo jornalista e mestre escola Mussolini espalhou-se pelo mundo latino nos dois lados do Atlântico. A oposição de esquerda na Venezuela considera Hugo Chávez mais próximo do fascismo do que do marxismo. &#xD;
&lt;P&gt;&lt;/P&gt;O curriculum político de Cesare Battisti não exibe militâncias anti-fascistas. No seu passado, ações ou textos inexistem elementos capazes de levar os fascistas italianos a pretender eliminá-lo. Os Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), tal como as Brigadas Vermelhas, assumiam-se como vanguardas revolucionárias esquerdistas porém serviam mais aos interesses do entranhado conservadorismo italiano do que ao seu histórico Partido Comunista.&#xD;
&lt;P&gt;&lt;/P&gt;O caso Battisti foi &#x93;aparelhado&#x94; por áreas próximas ao PT desde o momento em que o militante foi preso no Brasil em 2007. Foi um tremendo erro, fruto de uma nostalgia postiça e indevida. O PT nada tem a ver com ações subversivas nem com atentados terroristas, sua intransigente defesa dos trabalhadores jamais o levou a endossar qualquer violência política. Seus fundadores sempre estiveram comprometidos com as liberdades democráticas.&#xD;
&lt;P&gt;&lt;/P&gt;Ao enredar-se antes e depois da decisão do STF na defesa de um desastrado e controverso militante, o governo brasileiro desperdiça suas valiosas conquistas no cenário internacional.&#xD;
&lt;P&gt;&lt;/P&gt;O único perigo que Battisti corre na Itália é ser considerado como uma múmia, jurrássico exemplar dos delirantes pseudo-esquerdismos fascitóides produzidos pela Guerra Fria. </description>
      <pubDate>Fri, 20 Nov 2009 18:22:35 -0300</pubDate>
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    </item>
    <item>
      <title><![CDATA[Tensões pré-eleitorais]]></title>
      <link>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/2009/11/13/tensoes+pre+eleitorais+9088952.html</link>
      <description>O apagão&amp;nbsp;desta&amp;nbsp;terça-feira pode tirar votos da quase-candidata do governo? A substituição do neologismo &#x93;apagão&#x94; pelo anglicismo &#x93;black-out&#x94; muda alguma coisa na imagem da ministra-chefe da Casa Civil? Todas as eleições são essencialmente plebiscitárias, queiram ou não queiram os marqueteiros. Em alta voltagem podem produzir curtos-circuitos.&lt;P&gt;O ato de escolher, selecionar ou votar equivale à manifestação de uma preferência por pessoas, ideias, posturas. Na primitiva democracia romana, os senadores preparavam leis para serem submetidos ao povo (plebis, plebe + scitum, decreto). &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Na democracia moderna, representativa, escolhem-se partidos ou pessoas que teoricamente encarnam programas e produzirão os estatutos a serem votados pelos legislativos. Em determinadas circunstâncias, os regimes representativos admitem votações diretas, específicas (presidencialismo versus parlamentarismo, porte de armas, aborto, laicismo, etc.).&lt;BR&gt;&lt;BR&gt;Na era da comunicação de massa os plebiscitos são contínuos, velozes, extremamente intensos. Tudo serve para alavancar comparações - aparência, gestos, palavras, entonação, humores, bocejo, esgares, a covinha no rosto, a olheira. Não há como fugir do escrutínio total. A dramatização torna-se inevitável e ela costuma ser péssima não apenas para os contendores mas para o processo político e as instituições: as irrelevâncias são magnificadas e as simplificações incontroláveis. &lt;BR&gt;&lt;BR&gt;O governo apostou num clima eletrizante para compensar a relativa obscuridade da sua candidata. Tinha as cartas na mão para um plano de voo menos turbulento, mais seguro e eficaz, no entanto optou pela perigosa estratégia do estresse. Pegou uma oposição sem postulações, fragmentada por duas candidaturas, esmagada pela maioria situacionista, já afônica faltando um longo ano até o pleito, mas desobrigada de frequentar a ribalta com tanta assiduidade.&lt;BR&gt;&lt;BR&gt;E esta pode ser uma enorme vantagem. Os operadores palacianos esqueceram que holofotes, refletores, câmeras e microfones permanentemente acesos e ligados são impiedosos. No sentido figurado, óbvio. A ministra Dilma Roussef passa uma imagem confiável, quando quer faz o seu charme, (ficou uma gracinha ao colocar a esferográfica entre os dentes como uma estudante no vestibular), mas os riscos de um desgaste político são inegáveis.&lt;BR&gt;&lt;BR&gt;Cada frase pode ser uma armadilha, cada evento &#x96; mesmo favorável &#x96; pode se transformar em bumerangue. A exposição contínua pode criar demandas insuportáveis sobretudo no decorrer do festival de inaugurações que ocorrerá no próximo ano. Cada projeto contém um apagão em potencial já que a estrutura em cima da qual serão pendurados tantas e tão diferentes empreitadas do PAC tem insondáveis fragilidades. Como aquela que produziu o blecaute de terça-feira.&lt;BR&gt;&lt;BR&gt;O xadrez eleitoral seria fascinante se não estivesse sendo jogado no tabuleiro latino-americano. Tal como na história do aprendiz de feiticeiro, Hugo Chávez elevou demasiadamente a temperatura política e agora não consegue ou não sabe como baixá-la para colher alguns dividendos da radicalização que promoveu.&lt;BR&gt;&lt;BR&gt;A excitação externa, além disso, adiciona elementos imponderáveis ao clima plebiscitário doméstico. O esforço da nossa diplomacia em colocar o país como interlocutor confiável em diversos conflitos internacionais pode ser fulminado por alguma delirante aventura engendrada pelo caudilho vizinho.&lt;BR&gt;&lt;BR&gt;O desenvolvimento econômico exige um fortíssimo contrapeso de caráter político e institucional. A sucessão presidencial não pode ser envolvida pelo frenesi de final de campeonato. O processo democrático é necessariamente movimentado e ágil. Conviria que o plebiscito fosse menos tenso.&lt;BR&gt;&lt;/P&gt;</description>
      <pubDate>Fri, 13 Nov 2009 17:37:31 -0300</pubDate>
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    </item>
    <item>
      <title><![CDATA[Antes do Muro]]></title>
      <link>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/2009/11/09/antes+do+muro+9053080.html</link>
      <description>A entusiasmada rememoração da queda do Muro de Berlim ora em curso contrasta visivelmente com a parcimônia, quase penúria, das lembranças sobre o início da 2ª Guerra Mundial. Separados por um intervalo de meio século, o início da maior catástrofe dos últimos 500 anos (1939) e o desabamento do Muro de Berlim (1989) fazem parte do mesmo processo.&lt;P&gt;Diferentes e igualmente sanguinárias &#x96; uma quente, incandescente, a outra erroneamente chamada de &#x93;fria&#x94; &#x96; as duas guerras que compõem o Século das Ideologias, o abreviaram decisivamente: no lugar de cem anos, apenas 73. A centúria começou atrasada, em 1918, quando acabou a 1ª Grande Guerra e terminou em 1991 quando depois do Muro, ruiu toda a Cortina de Ferro.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Neste panorama contínuo, ininterrupto e extraordinariamente dinâmico, não fazem sentido festejos parciais para valorizar momentos ou porções. Envolvida ainda pela brutalidade e pelo luto, a 2ª Guerra Mundial em geral é mantida como um impreciso pano de fundo. Não consegue sequer funcionar como advertência de que o nazi-fascismo está morto mas não enterrado. Mais recente, a Queda do Muro está na lembrança de muita gente, foi um evento, tem o seu folclore, virou &#x93;cult&#x94;.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Daí os retumbantes equívocos que produziu. Nestes dias é imperioso lembrar o tropeço do pensador norte-americano Francis Fukuyama que, tomado pela euforia com os acontecimentos em Berlim, proclamou o Fim da História. Para ele, a derrota do socialismo e o triunfo da dupla capitalismo-democracia burguesa, significavam o início de um período harmonioso, sem conflitos, reprise da Dourada Era de Segurança (expressão usada por Stefan Zweig para designar&amp;nbsp;o &lt;EM&gt;fin-de-siècle&lt;/EM&gt; 19).&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;O fim do Muro de Berlim representou o lance final da disputa entre os dois vencedores da 2ª Guerra Mundial (os aliados ocidentais e o império soviético), mas neste confronto não deve ser minimizada a tenacidade do povo alemão em purgar os seus pecados, assumir as suas culpas e assegurar a extinção do nacional-socialismo.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Hitler foi, de certa forma, o pai da Guerra Fria: sua carreira política começou logo depois da 1ª Guerra quando participou de um curso no exército alemão para a formação de líderes antibolcheviques. Entrou para o Partido dos Trabalhadores Alemães, de direita, com a missão de mostrar que o comunismo era uma invenção judaica para dominar o mundo. Juntou as duas paranóias (antisemita e anticomunista) e com elas tomou conta da Alemanha, grande parte da Europa e tocou fogo no mundo.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Benito Mussolini, mestre-escola e jornalista panfletário, era um inflamado socialista, de esquerda. A Itália nem de longe se comparava ao poderio alemão. Mas ainda nos anos 30 do século passado, o fascismo de Mussolini teve fortíssima penetração no mundo latino-europeu, latino-americano, eslavo e quase tomou conta da Áustria se Hitler não mandasse assassinar Engelbert Dollfuss.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;A derrubada do Muro de Berlim não acabou com o veneno que o gerou. Este é um dado que não deve ser esquecido: o fascismo tem uma incrível capacidade de mutação. Outro dado que não pode ser ignorado é aritmético: o idolatrado Fim da História durou apenas 12 anos.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Em 11/9 de 2001, sem pedir licença a Fukuyama nem a seus mentores na Casa Branca, introduziu-se no cenário mundial um poderoso e até agora imbatível protagonista: o terrorismo islâmico. Logo em seguida, no final de 2008, o sempiterno capitalismo exibiu toda a sua fragilidade quando uma das bolhas que periodicamente fabricava o arrastou para o brejo. De onde ainda não saiu, apesar do esforço dos estatísticos.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;O Muro de Berlim foi derrubado com martelos e picaretas - uma festa. Mas antes dele a humanidade entrou em colapso &#x96; um horror. Esta moeda, como todas, de qualquer valor, tem duas faces.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;A transmissão de informações e a capacidade de armazená-las constituem a mais preciosa faculdade da nossa espécie. A memória tem sido uma ferramenta fundamental para a sobrevivência do ser humano. Lembrar é vital. Lembrar fragmentos pode ser mortal.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;&amp;nbsp;&lt;/P&gt;</description>
      <pubDate>Mon, 09 Nov 2009 16:07:47 -0300</pubDate>
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    </item>
    <item>
      <title><![CDATA[Vestibular de democracia]]></title>
      <link>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/2009/10/30/vestibular+de+democracia+8984908.html</link>
      <description>O Senado está verificando a qualidade do regime venezuelano e, em função desta avaliação política, decidirá se o barulhento vizinho tem o direito de pleitear o ingresso no seleto clube dos democratas do Mercosul. No primeiro exame, diante da Comissão de Relações Exteriores, o país de Hugo Chávez saiu-se bem: foi aprovado por 11 a 5. Falta submeter-se ao plenário dos senadores, gente de grande probidade e notório saber.&lt;P&gt;A pergunta que primeiro ocorre nada tem a ver com a nação avaliada, mas com os seus avaliadores: o Brasil passaria num vestibular de democracia organizado, digamos, na universidade americana como Yale, Harvard ou Columbia, num Enem da União Europeia ou mesmo num exame simulado na Corte de Haia?&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Na última quinta, enquanto a Venezuela suava para passar no teste, a democracia brasileira sofria um espetacular revés quando se completaram 90 dias de censura prévia ao &#x93;O Estado de S. Paulo&#x94; para evitar que continuasse as revelações sobre o comércio de favores do clã do senador José Sarney.&amp;nbsp; Não se trata de mordaça imposta por policiais, militares ou um truculento coronel local. A aberração foi produzida numa alta instância do Judiciário para blindar o chefe do Legislativo considerado pelo presidente da República (e Chefe do Executivo), como garantidor da &#x93;segurança institucional&#x94;. O ato censóreo, portanto, não decorreu de erro ou má-fé de um magistrado, reveste-se dos ouropeis de uma decisão de Estado. Zero em matéria de liberdade de expressão.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Zero também em matéria de representação: o Senado da República perdeu a sua legitimidade&amp;nbsp; - ou deixou de existir - quando ficou comprovada a edição de 600 atos secretos produzidos por seus altos burocratas com o conhecimento da Mesa Diretora, aliás, presidida pelo mesmo senador Sarney. A desmoralização do Legislativo não se limita à Câmara Alta: a Câmara Baixa, baixíssima, deixou de funcionar a partir da eleição do seu presidente, Michel Temer, atento quase que exclusivamente à viabilização da sua candidatura como vice na chapa oficial encabeçada pela ministra Dilma Rousseff.&amp;nbsp; A dramática situação do Rio de Janeiro a mercê do narco-terrorismo encontra uma Câmara dos Deputados desnorteada, inoperante, abúlica, a serviço de perigosos lobbies&amp;nbsp; - como a &#x93;Bancada da Bala&#x94; - empenhada unicamente em desmontar o Estatuto do Desarmamento de modo a permitir que as armas fabricadas no Brasil sejam encaminhadas diretamente à bandidagem.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Zero em matéria de isonomia: não há igualdade de direitos nem de deveres. As leis valem para aqueles que não têm condições, treino ou recursos para driblá-las. O cidadão, o contribuinte, o usuário dos serviços públicos e o consumidor são párias silenciosos. Não há tempo para ouvir reclamações nem espaço para espernear, os incomodados que se danem. Bancos, planos de saúde, serviços de telefonia e banda larga são capitanias despóticas onde a ineficiência é mascarada pela proliferação de robôs. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Zero em matéria de transparência: o Brasil não é um país de todos, é de alguns, os &lt;EM&gt;aparelhados &lt;/EM&gt;pelas diferentes maquinas políticas. O último refúgio da autonomia individual - a liberdade de crer e descrer - foi derrubado através&amp;nbsp; da Concordata com o Vaticano mantida em segredo durante um semestre e depois enfiada pela goela dos eventuais descontentes com farta distribuição de concessões de radiodifusão e outros mimos.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;A manutenção de um calendário eleitoral regular não garante a plenitude democrática. O respeito à Constituição pressupõe um atitude verdadeiramente reverencial de respeito ao espírito das leis. O compromisso de promover a alternância no poder precisa ser inequívoco, orgânico, indubitável, anterior ao início da corrida dos candidatos.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;O diploma de democrata vale mais quando autenticado pelos oponentes. Hugo Chávez pode recebê-lo das mãos de Sarney, que sempre se manifestou contra a entrada da Venezuela no Mercosul. Mas Sarney, hoje, é apenas uma obsessão: continuar na presidência do Senado.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;&amp;nbsp;&lt;/P&gt;</description>
      <pubDate>Fri, 30 Oct 2009 18:39:54 -0300</pubDate>
      <guid>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/2009/10/30/vestibular+de+democracia+8984908.html</guid>
    </item>
    <item>
      <title><![CDATA[Pavor de fiscais]]></title>
      <link>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/2009/10/23/pavor+de+fiscais+8921047.html</link>
      <description>O presidente Lula disse ao repórter Kennedy Alencar da &#x93;Folha de S. Paulo&#x94; que a missão da imprensa não é fiscalizar, é informar. Justificou: para fiscalizar já basta o Tribunal de Contas da União e a Corregedoria-Geral da República.&lt;P&gt;No mesmo dia em que foi publicada a inacreditável adesão à autocracia, Lula foi atacado por um novo surto da &lt;EM&gt;fiscalafobia&lt;/EM&gt; e proclamou que o Brasil está travado pelo excesso de controle do mesmo TCU que pouco antes declarara suficiente para vigiar o Executivo. Desatento para a esquizofrênica contradição, o presidente de uma república que se apresenta como democrática denunciou a existência de uma poderosa máquina de fiscalização impedindo o trabalho de uma pequena máquina de execução. E foi mais longe: sugeriu a punição dos agentes da fiscalização quando ficar comprovado que suas suspeitas eram infundadas.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Em resumo: Lula não quer fiscais pt saudações - na imprensa, no TCU, na CGR, na Receita Federal e no Ministério Público. Lula só quer aplauso. Ele próprio confessou ao repórter Kennedy Alencar: &#x93;odeio intermediário com o povo. Esse negócio de gente falar por mim, eu não gosto. Por isso falo muito&#x94;.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Fala muito e, parece, pensa pouco: o chefe do Executivo tem a obrigação de saber o significado da peça básica que distingue o regime democrático de um sistema autoritário &#x96; o equilíbrio entre os poderes. Nenhum arroubo de eloquência pode servir de pretexto para ameaçar esta conquista do sistema representativo.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Se Sua Majestade está frustrado com o descomunal atraso das obras do PAC não pode, sob hipótese alguma, jogar a culpa nos fiscais e ameaçá-los com o &lt;EM&gt;paredon&lt;/EM&gt;. Este tipo de intimidação não se ajusta à imagem de um líder emergente, &#x93;o cara&#x94;, tão louvado nos quatro cantos do mundo como antítese de Chávez ou Ahmadinejad.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;O presidente Lula nomeou a maioria dos ministros do TCU, a Constituição de 1988 que ajudou a escrever e depois jurou respeitar, garante a autonomia necessária ao controle das despesas, antes e depois de serem efetuadas. A instituição foi criada no formato atual por Rui Barbosa quando era Ministro da Fazenda, em 1890, em seguida à proclamação da República e logo legitimada pela primeira Carta republicana. Dois anos depois, em 1893, durante o surto autoritário do marechal Floriano Peixoto, houve uma tentativa de cercear sua autonomia. O mesmo aconteceu quando a ditadura militar precisou exibir rapidamente os frutos do Milagre Brasileiro antes que aumentasse a pressão popular por mudanças.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Quem não gosta de controles, vigilância, fiscalização ou regulação são os bonapartistas, cesaristas, voluntaristas. E déspotas - assumidos ou distraídos. Os conservadores americanos e seus parceiros no Brasil estão detestando os controles impostos por Barack Obama para evitar novas debacles no sistema financeiro. Não querem perder o seu ilimitado poder de beneficiar-se em detrimento do interesse público.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;À esquerda ou à direita, o messianismo e a onipotência são desvios concomitantes na esfera emocional e política. Denotam uma impaciência basilar com qualquer forma de divergência. Acionam acessos de fúria diante de qualquer contrariedade ou contraditório. Criam uma perigosa sensação de infalibilidade que aliada à falsa retórica do senso comum&amp;nbsp; atropelam o bom senso.&amp;nbsp;Já vimos este filme nos anos 30 do Século 20 e as reprises são caricaturais.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Informar e fiscalizar são ações sequenciais, partes do mesmo processo. Ao informar, fiscaliza-se, ao fiscalizar informa-se. Proibir uma, liquida a outra. Falar não produz transparência. No Estado Novo, o D.I.P. era chamado de &#x93;O Fala Sozinho&#x94;. Caiu de podre.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;&amp;nbsp;&lt;/P&gt;</description>
      <pubDate>Fri, 23 Oct 2009 18:12:16 -0300</pubDate>
      <guid>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/2009/10/23/pavor+de+fiscais+8921047.html</guid>
    </item>
    <item>
      <title><![CDATA[A ONU em questão]]></title>
      <link>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/2009/10/16/a+onu+em+questao+8848998.html</link>
      <description>O presidente Lula é, entre tantos méritos, o grande pauteiro do debate nacional. Cada discurso, escrito ou improvisado - e eles são diários, incessantes - aciona uma salutar controvérsia mesmo quando motivada por impropriedades.&lt;P&gt;Nesta quinta-feira, em Floresta, sertão pernambucano, para onde se deslocou para inspecionar as obras de transposição das águas do rio S. Francisco, Lula pontificou sobre os organismos internacionais, a propósito da recondução do Brasil (pela décima vez) ao Conselho de Segurança da ONU. Ainda impelido pelo triunfo olímpico em Copenhague, o presidente proclamou que&amp;nbsp; &#x93;a ONU está superada&#x94; e que o Conselho é &#x93;como uma fruta madura&#x94;, prestes a&amp;nbsp;cair.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Ora, se a ONU está superada o Brasil não deveria fazer tanta força para conquistar uma vaga permanente no seu órgão emblemático. Menosprezar a ONU é contrariar o multilateralismo e as grandes &lt;EM&gt;ententes&lt;/EM&gt; reguladoras internacionais. Quem insistia na tese de que a antecessora da ONU, a Liga das Nações, estava superada, era Adolf Hitler que, assim, sentia-se à vontade para destroçar todas as suas convenções.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;O Conselho de Segurança continua ímpar, insubstituível, embora a sua composição esteja datada. Parou no tempo: quando a ONU foi criada, em 24 de Outubro de 1945, há 64 anos, o mundo foi partilhado entre os vencedores da 2ª Guerra Mundial: EUA, URSS (hoje Rússia), Reino Unido, França e China que constituíram o núcleo permanente do Conselho de Segurança e habilitados a usar o poder de veto.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;A derrubada do generalíssimo Chiang-Kai-Chek pelo revolucionário Mao Tse-Tung levou muito tempo&amp;nbsp; para ser assimilada até que o refúgio de Taiwan fosse formalmente substituído pela China continental. Outras imperiosas alterações no quadro institucional jamais foram implementadas, caso da exclusão dos gigantes econômicos Alemanha e Japão, derrotados na guerra e da emergência na Ásia, África e América Latina de novas potências como Índia, África do Sul e Brasil. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Apesar das flagrantes injustiças, o Conselho de Segurança continua como a instância permanente, insuperável, comprometido com a segurança coletiva e a manutenção da paz. Suas recomendações e resoluções são às vezes ostensivamente desconsideradas, mas quando isto acontece fica o registro e este registro pesa diante da possibilidade de sanções econômicas.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;A metáfora da fruta madura prestes a cair e apodrecer é de uma rara infelicidade. No momento em que o rodízio dos assentos temporários do CS favorece novamente o Brasil e torna-se evidente a necessidade de uma reengenharia, estas bravatas são rigorosamente impertinentes.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Vexame maior no âmbito da ONU foi oferecido pela antiga Comissão de Direitos Humanos, posteriormente transformada em Conselho de Direitos Humanos, e o nosso país jamais estrilou. Mesmo quando o antigo órgão foi&amp;nbsp; entregue ao Sudão, onde ocorria o genocídio de Darfur. A entidade substituta tem entre os seus 47 membros contumazes violadores como Líbia, China, Arábia Saudita, Cuba e Rússia e o presidente Lula não reclama. Entidades internacionais de direitos humanos têm denunciado o controle do novo Conselho de Direitos Humanos por um compacto bloco de nações cujas sensibilidades e compromissos estão a anos-luz da pauta humanitária. Lula não sabe, não viu.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Nosso presidente também erra ao considerar que o maior conflito no Oriente Médio é entre judeus e palestinos. Esta é uma colocação não apenas incorreta como perigosa. O conflito a que ele se referiu é entre israelenses e palestinos e decorre da sábia decisão adotada pela Assembleia Geral, presidida pelo brasileiro Osvaldo Aranha em novembro de 1947, de partilhar a Palestina em dois Estados, e aceita apenas por uma das partes.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;O magistrado sul-africano Richard Goldstone é judeu e o seu relatório sobre a Batalha de Gaza no fim de 2008 está provocando uma enorme controvérsia porque condena tanto o Hamas pelo uso intencional de foguetes contra populações civis em Israel como a desproporcional resposta de suas forças armadas.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Estas são frutas que o presidente Lula desconhecia talvez porque não foram cultivadas em seu pomar. Terá que prestar mais atenção a elas quando receber a visita do colega iraniano, Mahmud Ahmadinejad, que vem sendo seriamente advertido por diversas instâncias internacionais a permitir a fiscalização do seu secretíssimo e suspeito programa nuclear.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;A ONU ficará efetivamente &#x93;superada&#x94; quando os países-membros esquecerem as suas responsabilidades no intervalo entre uma Assembléia Geral e outra.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;&amp;nbsp;&lt;/P&gt;</description>
      <pubDate>Fri, 16 Oct 2009 17:40:49 -0300</pubDate>
      <guid>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/2009/10/16/a+onu+em+questao+8848998.html</guid>
    </item>
    <item>
      <title><![CDATA[Dois prêmios, uma escolha]]></title>
      <link>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/2009/10/09/dois+premios+uma+escolha+8787985.html</link>
      <description>Ele não conseguiu ganhar as Olimpíadas, porém uma semana depois, na mesma Escandinávia, foi empurrado para o Olimpo, como um dos campeões da paz. Barack Obama não é um sortudo, nem é engraçado, nem é &#x93;o cara&#x94;. É a quintessência da fé:&amp;nbsp; o visionário, o homem que acredita. Sonha e mostra que o sonho é possível.&lt;P&gt;Mal começou a sua jornada, ainda não completou um ano na Casa Branca,&amp;nbsp; mas os seus compromissos com o desarmamento nuclear, com a paz no Oriente Médio, com o policentrismo, a distensão e as instituições internacionais, estão na ordem do dia. Suas bandeiras foram desfraldadas por inteiro, tremulam inconfundíveis, transformadas em convocações para aquela parte da humanidade que não esqueceu os 70 anos do início da 2ª Guerra Mundial e não deseja repeti-la.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Desta vez, o Nobel da Paz está conectado ao Nobel da Literatura&amp;nbsp; anunciado um dia antes. A ficção e a biografia da romeno-alemã Herta Müller escancaram os dois totalitarismos que flagelaram o mundo - o nazifascismo e o stalinismo &#x96; e cujos herdeiros estão ativíssimos em todos os quadrantes e sob inúmeros disfarces.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;O pai de Herta foi soldado das temidas SS (&lt;EM&gt;Schutzstafell&lt;/EM&gt;, de Himmler), permaneceu na Romênia ocupada pelos soviéticos e sua mãe (da minoria romena de fala alemã), passou cinco anos num campo de trabalhos forçados na União Soviética. A própria escritora foi perseguida e censurada por recusar-se a colaborar com o regime do ditador Ceausescu, escapou com o marido para a Alemanha pouco antes da queda do Muro de Berlim. Herta é a 2ª Guerra e a Guerra Fria juntas e redivivas, simbiose do terror político que marcou grande parte do século XX.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Barack Hussein Obama é o símbolo do mundo liberado das algemas do rancor ideológico. Pós-racial, pós-capitalista, pós-socialista, negro, tem nome árabe, seus auxiliares mais próximos são judeus e representa como ninguém o sonho americano - isso explica a ferocidade da minoria direitista americana e dos seus vitriólicos blogueiros. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;O Comitê Nobel e a Real Academia Sueca desta vez anteciparam-se. Ao invés de consagrarem um saldo de façanhas já realizadas, preferiram sancionar intenções, fortificar promessas, reforçar esperanças e estabelecer uma ousada agenda mundial que poucos ousarão contestar. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Este Nobel da Paz&amp;nbsp; diferencia-se nitidamente dos 100 anteriores porque foi alçado da esfera do evento que se assiste passivamente para converter-se num movimento galvanizador do qual todos gostariam de participar. Ao menos como testemunhas. A Era da Globalização Econômica está sendo promovida à Era do Internacionalismo.&amp;nbsp; O sinal já foi dado, basta segui-lo.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Assim como reacende antigos preconceitos em seu país, Barack Obama estimula admirações no resto do mundo. E os seus conterrâneos, aparentemente, ainda não aprenderam a conviver com esta sua nova contribuição à humanidade. Em 12 de Outubro de 1492,&amp;nbsp; o genovês Cristóvão Colombo chegava a uma terra que não sabia onde ficava.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Barack Obama, 517 anos depois, tenta reavivar a noção de Novo Mundo com a decisiva ajuda do sueco Alfred Nobel. O inventor da dinamite, não poderia imaginar que o seu legado em algum momento conseguiria implodir com tamanho ímpeto as xenofobias e ressentimentos que alimentam as guerras. Inclusive as xenofobias e ressentimentos fomentados pelo fanatismo religioso.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;O Nobel é uma escolha, conjunto de círculos, espiral. Não é casual, pode ser causal.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;&amp;nbsp;&lt;/P&gt;</description>
      <pubDate>Fri, 09 Oct 2009 18:33:16 -0300</pubDate>
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    </item>
    <item>
      <title><![CDATA[Festa no País do futuro]]></title>
      <link>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/2009/10/02/festa+no+pais+do+futuro+8725082.html</link>
      <description>Enfim, está garantido o amanhã. Pelo menos até 2016. Mais uma vitória de Lula - ele é &#x93;o cara&#x94;. Bateu o casal Obama, os Reis de Espanha e o Imperador do Japão. Pela primeira vez uma cidade sul-americana vai abrigar os Jogos Olímpicos. &lt;P&gt;O Rio de Janeiro será nos próximos sete anos a nova Olympia. A estátua de Zeus (o rei dos deuses), infelizmente destruída há quase dois mil anos, já tem substituta &#x96; o Corcovado. A Rocinha troca de lugar com o Monte Olimpus.&amp;nbsp; &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Ninguém segura este País - a frase é velha, batida? Não há nada de novo sob o sol, o rei Salomão sabia das coisas. O que importa não é a euforia de ontem, mas a de hoje. Dos sofridos cariocas, principalmente. Até os paulistanos engoliram o habitual despeito, certos de que a vai sobrar para eles. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Vibraram também todos os lobistas, falsos consultores, atravessadores, intermediários e prevaricadores do País. Se as ações das milícias que controlam a segurança do Rio fossem cotadas na Bolsa de Valores teriam uma fenomenal valorização.&amp;nbsp;A delinqüência &#x96; pequena, média, grande e super-grande - está comemorando os sete anos de vacas gordas que vêm por ai. E com elas mais um empurrão em direção da prosperidade. A ilicitude distribui riquezas mais rapidamente do que a legalidade.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Gloriosa sexta-feira, porém o dia anterior foi nefasto. O vazamento das ultra-secretas provas do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem)&amp;nbsp; mostra como o País é vulnerável às infrações: o crime ganha todas as paradas.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Cerca de quatro milhões de estudantes foram lesados. O primeiro cronograma sério de suas vidas deverá ser refeito, o salto à frente que deveriam dar neste fim de semana foi adiado. O passo adiante, atrasado. A elite pensante, safra 2009, começa a sua existência em clima de ressaca, obrigada a encarar a dura realidade: a torpeza se impõe em todos os quadrantes &#x96; na mesa do Senado, no Tribunal de Justiça de Brasília, em cada contencioso onde se enfrentam a decência e a indecência, esta ganha de goleada. Inclusive nos esportes ditos olímpicos.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;O ministro da Educação, Fernando Haddad, é competente, sério, idealista, responsável, rigorosamente transparente. Suas preferências partidárias não interferem nas opções administrativas e técnicas. É, junto com o ministro da Saúde, uma exceção. Mas o que se vê por ai é uma desbragada orgia, o culto ao vale-tudo com as bênçãos de ideologias que até agora só produziram fiascos justamente porque menosprezaram a justiça e a legalidade. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Além do prejuízo aos estudantes, o País jogou pela janela R$ 35 milhões. Com o mesmo descaso com que compra submarinos e aviões de combate pelo dobro do preço. O contribuinte não vai para a rua reclamar porque ele sonega o quanto pode. A recente crise na Receita Federal mostra como são comprometidos pela política os nossos sistemas de controle. O atual confronto entre o Tribunal de Contas da União e os gerenciadores do PAC desnuda a fúria eleitoreira que comanda o processo decisório brasiliense e, por extensão, o brasileiro.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;O vazamento das provas do Enem ainda não foi devidamente explicado. Espera-se que não caia no esquecimento e os seus responsáveis não sejam premiados com sinecuras no exterior. Por enquanto sabe-se que foi obra de amadores. Amadores que conseguem anular um elaborado sistema de sigilo, certos de que embolsariam meio bilhão de reais em troca da desmoralização do governo. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;O comentarista Luiz Weis designou-os como &#x93;aloprados&#x94; numa alusão aos que há três anos inventaram um dossiê para incriminar a oposição às vésperas do pleito presidencial.&amp;nbsp; Em 2006, o semanário &#x93;IstoÉ&#x94; foi na onda daqueles malucos. Os de agora imaginaram que o &#x93;Estado de S. Paulo&#x94; faria o jogo sujo e, se recusasse a primícia, a ofereceriam a uma rede de TV.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;A imprensa saiu-se bem neste episódio. Espera-se que saiba resistir à vibração patriótica acionada a partir de Copenhagen. Sediar a Copa do Mundo e, logo em seguida, as Olimpíadas são maravilhosas oportunidades para estimular nossa capacidade gerencial. Convém não perder de vista os vazamentos, a imoralidade e a hipocrisia.&lt;/P&gt;</description>
      <pubDate>Fri, 02 Oct 2009 17:35:43 -0300</pubDate>
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    </item>
    <item>
      <title><![CDATA[Honduras, funduras]]></title>
      <link>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/2009/09/25/honduras+funduras+8653985.html</link>
      <description>O nome viria das águas profundas da costa caribenha ou, mais provavelmente, do sistema de vales e montanhas onde o país se derrama. De qualquer forma, &lt;EM&gt;hondura&lt;/EM&gt; em espanhol é profundidade, fundura, e no dicionário diplomático interamericano corre o risco de converter-se em sinônimo de um grande buraco.&lt;P&gt;A mais recente evidência deste perigoso poço onde podem despencar prestígios e tradições é o pedido do governo brasileiro à Espanha para intermediar a crise iniciada com o refúgio do presidente deposto, Manuel Zelaya, na embaixada brasileira de Tegucigalpa.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;O Brasil entrega, assim, a honrosa posição de possível árbitro entre o governo &lt;EM&gt;de facto&lt;/EM&gt; e o governo &lt;EM&gt;de jure&lt;/EM&gt; que dividem Honduras, para tornar-se uma das partes do conflito. Há dias era cortejado pelos adversários, agora inapelavelmente envolvido,&amp;nbsp; é obrigado a apelar à ONU para que a sua embaixada e, portanto, a sua soberania sejam respeitadas pela truculência dos gorilas que se abancaram no poder.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Nosso status no episódio mudou para pior. E, mais uma vez, por artes deste incansável estróina e trapalhão chamado Hugo Chávez, cuja compulsão de vangloriar-se o levou a assumir publicamente a responsabilidade pela transferência do presidente deposto para o seu país. Zelaya, por sua vez,&amp;nbsp; contagiado pelo parceiro ou também vocacionado para a fanfarronice, admitiu que a busca de abrigo em nossa embaixada na capital hondurenha era do conhecimento do&amp;nbsp; governo Lula.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;O Brasil consolidava-se como uma alternativa responsável à parlapatice chavista e agora entra na história como parceiro de mais um fiasco do dirigente venezuelano.&amp;nbsp; Novamente a pressa, outra vez a afobação. Esta ansiedade para agarrar todas as oportunidades denota antes de tudo a ausência de um &lt;EM&gt;master-plan&lt;/EM&gt;, fragilidade estratégica. Todos querem chutar em gol, mas a bola é uma só. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;O veemente apelo para o fim do embargo a Cuba no privilegiado pódio da Assembleia Geral da ONU em Nova York, dias depois, ficou prejudicado pela esdrúxula e inconfortável reversão em nossa posição. Agora, somos nós a angariar simpatias e apoios em causa própria. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Como observou o analista Caio Blinder, agora &#x93;o cara&#x94; é Obama. Não será o presidente Sarkozy quem poderá obrigar Roberto Micheletti, presidente em exercício de Honduras, a interromper o cerco à embaixada brasileira.&amp;nbsp;Nem José Luiz Zapatero, presidente do conselho da Espanha, a quem apelamos para mediar a crise. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;O presidente Lula embarcou para os EUA preparado para colher triunfos e pode regressar de mãos abanando. Ou, pior, obrigado a agradecer a solidariedade norte-americana e o apoio recebido pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Acossado por seus demônios íntimos e pelos que continuamente desperta à sua volta, o presidente&amp;nbsp; Hugo Chávez não pode parar, necessita manter-se nas manchetes. Acrobata &#x96; apesar do peso &#x96; não consegue reprimir-se diante de um trapézio. Sente-se obrigado a dar o salto mortal. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;O presidente Lula, ao contrário, é um hábil sobrevivente. Sempre soube&amp;nbsp; preservar-se, expert em evitar desafios inúteis. Não havia motivos para esta aceleração. Tudo o favorecia tanto no plano econômico &#x96; crucial &#x96; como de prestígio internacional. As dificuldades preliminares na corrida eleitoral seriam facilmente contornadas se a equipe palaciana não abrisse tantas frentes simultâneas e acionasse tantos alarmes emergenciais. Agora, novas pressões serão inevitáveis. Lula será cobrado e Lula não gosta de ser cobrado.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;A pequena e distante Honduras, quem diria, vai entrar em nossa história.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;&amp;nbsp;&lt;/P&gt;</description>
      <pubDate>Fri, 25 Sep 2009 17:34:48 -0300</pubDate>
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    </item>
    <item>
      <title><![CDATA[Bingo!]]></title>
      <link>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/2009/09/18/bingo+8522918.html</link>
      <description>Três fileiras de cinco números, ao primeiro que completa a cartela&lt;BR&gt;permite-se um grito de triunfo: acertei! Logo recomeça o sorteio. &lt;BR&gt;Quando a beatíssima dona Santinha (Carmela Dutra) convenceu &lt;BR&gt;o marido, o presidente Eurico Gaspar Dutra, a proibir os jogos de azar no país, chamava-se loto, víspora. Familiar, rigorosamente inofensiva, até recomendada para crianças com dificuldades de relacionamento, estimulava a convivência. O prêmio era em doces, no máximo uma prenda. &lt;P&gt;O ministério estava reunido no palácio do Catete  na manhã do dia 30 de Abril de 1946 para discutir um plano de repressão ao comunismo. Embora eleito com o apoio de Getúlio Vargas, o marechal Dutra era um consumado reacionário, pró-germânico que engoliu a adesão do Brasil na luta contra o Eixo nazi-fascista. Enquanto não  cassou o Partido Comunista atendia a todos os desejos do Cardeal D. Jaime Câmara.&lt;/P&gt; &lt;P&gt;Os vespertinos deram a notícia com letras garrafais, em algumas igrejas da antiga capital os sinos badalaram com mais entusiasmo. No dia seguinte fechavam-se os grandes e luxuosos cassinos das estâncias hidrominerais,  balneárias e turísticas. Dias depois entravam em funcionamento em todo o País dezenas de cassinos clandestinos numa gangorra de complacência e repressão que se estende há mais de seis décadas.&lt;/P&gt; &lt;P&gt;Mas os bingos beneficentes - inclusive em apoio a obras religiosas - jamais foram proibidos, tornaram-se eventos regulares nas paróquias do interior. E na falta de cassinos, prosperaram as casas de loto, agora chamadas de bingo por influência americana. Não atraíam o jogador inveterado, aquele que aposta pesado e não sabe parar. Hoje, nos grandes cassinos de Las Vegas, as salas de bingo estão saindo de moda, restaram os bingos de máquina, tipo caça-níqueis.&lt;/P&gt; &lt;P&gt;A aprovação nesta quarta-feira pela Comissão de Constituição e Justiça  da Câmara da reabertura das casas de bingo cria um fato político. Teve apoio ostensivo da base aliada (daí a expressiva votação de 40 a 7) e nos remete ao primeiro escândalo da Era Lula: no início de 2004, Waldomiro Diniz, então funcionário da Casa Civil da Presidência da República, homem de confiança de José Dirceu, foi flagrado negociando uma propina do empresário Carlinhos Cachoeira para promover  o retorno em grande estilo da antiga loto. Primeiro escândalo, primeira grande pizza, até hoje insuficientemente esclarecida e punida.&lt;/P&gt; &lt;P&gt;As justificativas para a reabilitação dos bingos começam com as alegações da CUT de que servirá para combater o desemprego e chega ao pessoal da Receita Federal, ávida para aumentar a arrecadação de impostos, atingida pela &#x93;marolinha&#x94; da recessão. Envolve os teóricos da matéria  que  não consideram o bingo como jogo de azar  já que o apostador não joga contra um cassino ou banqueiro (que eventualmente pode trapacear). O prêmio vem das apostas dos demais frequentadores, descontadas as despesas de manutenção da casa.&lt;/P&gt; &lt;P&gt;O problema reside justamente nestas &#x93;despesas operacionais&#x94; que envolvem segurança (isto é, polícia) e espalham-se perigosamente por diversas áreas afins. O problema do bingo não  é o jogo em si, é o formidável estimulo à corrupção que representa.&lt;/P&gt; &lt;P&gt;O crime organizado não teria alcançado tamanho poder no Brasil sem a ajuda da complacência universal com os pequenos delitos e a soma dos pequenos delitos produz a grande delinquência. Sem a incontrolável vocação para eufemismos e disfarces morais (onde um conceito claro como suborno converte-se em algo inofensivo como favor), não teríamos criado uma sociedade tão permissiva e degradada. O Senado é o exemplo supremo desta hipocrisia federal.&lt;/P&gt; &lt;P&gt;A víspora  é inofensiva, fascinar-se com as cartelas não é pecado, a reabilitação das casas de loto não ameaça a República. O que precisa ser urgentemente estancada é esta avassaladora indulgência com a imoralidade. Bingo!&lt;/P&gt; &lt;P&gt; &lt;/P&gt; </description>
      <pubDate>Fri, 18 Sep 2009 16:11:02 -0300</pubDate>
      <guid>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/2009/09/18/bingo+8522918.html</guid>
    </item>
    <item>
      <title><![CDATA[A maldição da pressa]]></title>
      <link>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/2009/09/11/a+maldicao+da+pressa++8390927.html</link>
      <description>As análises políticas costumam descartar fatores psicológicos ou emocionais. Como se a política fosse exercida por super-homens desprovidos de sentimentos, subjetividades ou fragilidades. Como se a disputa pelo poder &#x96; objetivo prioritário da competição partidária &#x96; fosse dominada exclusivamente pela racionalidade, pela coerência programática e pelo desprendimento pessoal.&lt;P&gt;Não é, nunca foi. Principalmente em ambientes e sociedades onde o confronto de ideias e as próprias ideias são permeadas por paixões, contradições, reversões e improvisações &#x96;&amp;nbsp; caso brasileiro. Nossa política raramente tem alguma lógica, dominada pela ilógica, pelos espasmos, estalos e voluntarismos. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Uma avaliação psicanalítica dos grandes momentos da nossa vida política &#x96; sobretudo em tempos sobre os quais temos informações mais precisas &#x96; ofereceria um fascinante repertório de neuroses, delírios, depressões, ciclotimias, vacilações e até covardias. A um ano das eleições presidenciais, quando o tabuleiro de xadrez já deveria estar arrumado e minimamente ordenado, o ambiente psicológico parece ainda tumultuado e precário. Protagonistas agem como coadjuvantes e estes mal cabem em seus papeis. Sequer completaram o ciclo de ensaios. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Impera a pressa. A afobação é péssima conselheira e, não obstante, comanda o espetáculo. O problema, na verdade, está no próprio espetáculo, concebido por obrigação, sem criatividade, com jeito de reprise, falta de inspiração. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;O dono da bola, senhor absoluto da situação, neste exato momento parece a reboque dela. O presidente Lula iniciou o ano empunhando a batuta e abancado no pódio. Sua partitura parecia perfeita, minuciosamente arranjada, tudo previsto, ponderado. Galantemente rejeitara a ideia do terceiro mandato e, em compensação, esmerou-se em reunir um formidável arsenal de armas para fazer o seu sucessor, ou sucessora. Tinha uma bandeira (o PAC, Programa de Aceleração do Crescimento), uma imbatível base política (o PMDB), gozava de uma privilegiada situação econômica (num mundo assolado por uma das piores crises dos últimos 100 anos), era dono de um tesouro submarino (as reservas petrolíferas do pré-sal) e gozava de uma extraordinária popularidade. Inclusive no âmbito internacional. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Lula era indiscutivelmente &#x93;o cara&#x94;. Moedas, porém, são instáveis, quem era cara agora é coroa. O script desandou: na pressa perdeu as sutilezas e sem sutilezas passou a ser executado na base de simplificações. Visível e previsível. O exercício político reclama algum mistério e discrição, magia. Ilusionistas e prestidigitadores adoram aplausos, mas não podem ceder à vaidade, é proibido expor os truques enquanto são executados. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;A sedução pelo PMDB foi tão alardeada ao longo da Crise Sarney que pareceu fingida e suspeita. A base aliada deveria ser cimentada em torno do PT, o partido do governo, mas o PT hoje é menos festejado do que o PRB ou o PP.&amp;nbsp; A idéia do crescimento acelerado foi convertida numa difusa tabela de obras sem nexo e bandeiras. O prometido canteiro de obras empolga por enquanto apenas os convidados para as inaugurações das placas. Sua façanha maior foi a de atropelar a ala dos ambientalistas chefiada por Marina Silva. Ninguém lamentou a perda, ser governo ensinou ao Partido dos Trabalhadores a dolorosa técnica de engolir o choro e desfazer-se em silêncio dos seus ativos morais mais valiosos.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Tudo sai pela culatra, parece até combinado. A tão ansiada compra da&amp;nbsp; frota de supersônicos que merecia ser apresentada como opção de um Estado maduro, moderno e responsável acabou convertida numa quermesse de trabucos, atabalhoada e capipira. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Culpa do roteiro ambicioso, culpa de um calendário de repente encurtado, culpa do excesso de palpiteiros, culpa do divã. Ou melhor, culpa da falta de um divã onde as almas abrasadas pela pressa e pela onipotência possam ser submetidas a algum tipo de descompressão. Para ajudar o PAC conviria adotar o PDE, Programa de Desaceleração dos Espíritos. Em altas velocidades, a fadiga dos materiais é mais evidente.&lt;/P&gt;</description>
      <pubDate>Fri, 11 Sep 2009 13:45:05 -0300</pubDate>
      <guid>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/2009/09/11/a+maldicao+da+pressa++8390927.html</guid>
    </item>
    <item>
      <title><![CDATA[Atenção para agosto]]></title>
      <link>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/2009/08/07/atencao+para+agosto+7752903.html</link>
      <description>Como se não bastasse a exibição de truculência dos comparsas de José Sarney no Senado, como se não bastasse a reaparição despudorada&amp;nbsp; de figuras banidas como Collor de Mello e Renan Calheiros no cenáculo do sistema representativo, como se não bastasse a consagração do cinismo e da mentira numa República empurrada pela &lt;EM&gt;real-politik&lt;/EM&gt; para a beira do abismo, como se não bastasse o retorno&amp;nbsp; vexatório dos senadores biônicos criados pelo regime militar, como se não bastasse o clima de ruptura no início do agourento mês das bruxas, tivemos nesta sexta feira mais uma fanfarronada proferida por aquele que deveria ser o mais sensato, o mais discreto e o mais judicioso dos nossos expoentes.&lt;P&gt;Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, afirmou que a proibição imposta ao jornal &#x93;O Estado de S. Paulo&#x94; de revelar informações sobre a operação da Polícia Federal que investiga o clã Sarney não constitui censura, &#x93;é decisão judicial, não é política&#x94;. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Vitorioso em duas recentes polêmicas que colocaram a liberdade de expressão como cláusula pétrea do nosso ordenamento jurídico (a extinção integral da Lei de Imprensa e o fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo), o&amp;nbsp;Meritíssimo reconheceu que &#x93;é possível fazer restrições à liberdade de expressão&#x94; e confessou que não conhecia suficientemente o caso da punição ao &#x93;Estadão&#x94;.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Se Gilmar Mendes não conhece a questão sobre a qual se manifestou deveria calar-se. Uma autoridade que se pronuncia sobre algo que ignora corre o risco de ser considerada leviana ou irresponsável.&amp;nbsp; Um magistrado só fala com base nos autos e se o ministro Mendes não teve acesso aos autos e, mesmo assim, proferiu um juízo prematuro, está oferecendo um lamentável exemplo a todos os magistrados do país, já que além presidir o Judiciário, também preside o Conselho Nacional de Justiça.&amp;nbsp;E se admite que é possível fazer restrições à liberdade de imprensa está admitindo publicamente que os seus votos anteriores partiram de premissas erradas e, portanto, estão basicamente errados.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Gilmar Mendes confunde tudo: o cerceamento da&amp;nbsp;liberdade de informar&amp;nbsp; do &#x93;Estadão&#x94;&amp;nbsp;pelo desembargador Dácio Vieira pode não ter motivação política, porém continua valendo como um inequívoco ato censório.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;É autoritário e antidemocrático. E embora classificada como &#x93;decisão judicial&#x94; pode estar errada, seja sob o ponto de vista técnico como moral. Convém não esquecer que o desembargador tem notórias ligações com o clã Sarney e seus apaniguados.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Certamente levado pelas melhores intenções, o ministro Gilmar Mendes, tenta envolver as decisões judiciais com uma aura de infalibilidade, divina, porém insuficiente para conferir à instituição que preside a necessária confiabilidade.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;O desembargador Dácio Vieira não quis punir o &#x93;Estadão&#x94; por ter vazado informações de um inquérito protegido pelo segredo de justiça, o que poderia ter algum cabimento. Inclusive no âmbito da deontologia jornalística. Sua sentença não se refere a uma ação passada, a intenção dos advogados da família Sarney era preventiva: proibia a divulgação de revelações futuras. Este tipo de recurso tem nome: censura prévia. Inspirada em compadrio ou interesse político, é um flagrante atentado à liberdade de informar. Não é censura fardada, é censura togada.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Não contente com a barafunda que armou no campo da liberdade de expressão, o supremo magistrado enveredou temerariamente pela crise política desencadeada pela eleição de José Sarney para a presidência do Senado. Como cidadão, é legítima a sua preocupação com os sucessivos escândalos no Senado e também a sua angústia cívica diante da continua interrupção dos mandatos dos presidentes da Casa. Na condição de chefe do Poder Judiciário, porém,&amp;nbsp;sua manifestação é impertinente e extemporânea. Não pacifica, exacerba.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Em nosso país, combinam-se as fúrias, a prepotência, as ambições desmedidas e a hipocrisia de diversas formas e nas mais variadas circunstâncias. Nesta quadra do ano, o pernicioso coquetel já produziu desfechos que ficaram conhecidos como agosteiros.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Plenos de desgostos. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;&lt;EM&gt;* O colunista lamenta ausentar-se neste momento, mas promete retornar dentro de quatro semanas.&lt;/EM&gt;&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;&amp;nbsp;&lt;/P&gt;</description>
      <pubDate>Fri, 07 Aug 2009 17:51:02 -0300</pubDate>
      <guid>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/2009/08/07/atencao+para+agosto+7752903.html</guid>
    </item>
    <item>
      <title><![CDATA[Vácuo, falação e eleição]]></title>
      <link>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/2009/07/31/vacuo+falacao+e+eleicao+7618944.html</link>
      <description>Não é o recesso de inverno, o vácuo em que nos encontramos tem outro responsável: o pleito de outubro de 2010. O palanque eleitoral foi armado em fevereiro, vinte meses antes do dia de votar, impossível resistir à tentação de usá-lo para atender sua função precípua - perorar. &lt;P&gt;O País transformou-se numa gigantesca charge política, autêntica Sucupira, onde impera a verborréia. Fala-se muito e mal, nossa oralidade está comprometida pela ausência de novos paradigmas de eloquência. Ruy Barbosa já era. Como escreveu José Saramago, o twitter nos aproximou decisivamente do grunhido. &lt;/P&gt; &lt;P&gt;Nesta pandemia de declaracionite aguda perderam-se as noções de governabilidade e governança. Os projetos de governo há tempos  saíram de moda e os projetos de poder que os substituíram são movimentados pela loquacidade. Os administradores deixaram de utilizar as mesas interessados apenas em microfones e alto-falantes. Aministra-se o caos ou, na melhor das hipóteses, os vácuos produzidos nos intervalos da discursaria. &lt;/P&gt; &lt;P&gt;A desastrada e desastrosa escolha de José Sarney para presidir o Senado ameaça acabar com a Câmara Alta e já infectou a Câmara Baixa - baixíssima, aliás. O Executivo interfere abertamente no Legislativo há seis meses consecutivos e quando percebeu o estrago auto-infligido tentou escapar de forma canhestra e amadora: &#x93;Não é problema meu, não votei no Sarney&#x94;, proclamou o presidente Lula nesta quinta-feira. Não votou, mandou votar e, pior,  num passe de mágica transformou o calejado coronel num fantasma imprestável.&lt;/P&gt; &lt;P&gt;Imaginava-se um Judiciário imune ao destempero, leviandades e, de repente, a suprema corte vira um botequim togado, palco de bate-bocas e imprudências. Imune à demagogia e à falta de decoro, o cenáculo do Judiciário, no entanto, deixa-se levar pela insensatez. As duas decisões sobre imprensa e exercício do jornalismo tomadas em abril e junho pelo STF são exemplos de insensatez, beiram a irresponsabilidade, deixaram perigosas brechas no processo de informação - espinha dorsal da democracia - que demandarão anos para serem sanadas e revertidas.&lt;/P&gt; &lt;P&gt;Contaminado pela loquacidade e pela arrogância que a fabrica, o presidente do STF interfere, opina e palpita sobre tudo e sobre todos, geralmente fora da pauta da sua corte. Na mesma aziaga quinta-feira conclamou a sociedade a promover uma imediata reforma do Estado para debelar a crise política sem perceber que suas frementes acusações são parte da crise que diagnosticou com tanta acuidade. &lt;/P&gt; &lt;P&gt;O Estado brasileiro será modificado a partir do momento em que deixar de alimentar a fogueira das vaidades para tornar-se objeto de uma ação cotidiana, pertinaz e, sobretudo, coletiva. Antes da reforma do Estado é indispensável uma consciência verdadeiramente reformista e, ao lado dela, uma devoção à causa pública, sem grandiloquências, com humildade e sacrifício.&lt;/P&gt; &lt;P&gt;O vácuo no qual fomos jogados é fruto de uma perigosa conjunção de ambiguidade e miopia: os culpados são sempre os outros, os erros são sempre daqueles que não fazem parte da patota. E, de patota em patota, substituímos o Estado de Direito pelo Estado do Compadrio.&lt;BR&gt;Quarenta dias depois de desregulamentar e extinguir a bi-milenar profissão de jornalista, o Estado brasileiro cria e já regulamenta a profissão de mototaxista sem que o Ministério Público se apoquente com a perspectiva de um aumento brutal no número de mortes e mutilações em acidentes urbanos.&lt;/P&gt; &lt;P&gt;Este inverno está fazendo muito mal ao País. A gripe suína associou-se à gripe sazonal e os sobreviventes estão condenados a ensurdecer numa gigantesca e insidiosa  Torre de Babel.&lt;/P&gt; </description>
      <pubDate>Fri, 31 Jul 2009 18:25:29 -0300</pubDate>
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    </item>
    <item>
      <title><![CDATA[Eloquência e delinquência]]></title>
      <link>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/2009/07/24/+eloquencia+e+delinquencia+7486974.html</link>
      <description>A loquacidade do presidente Lula não é para ser levada a sério. O próprio presidente sabe disso, por isso contraria os assessores mais prudentes e solta o verbo. Suas improvisações retóricas não se destinam à posteridade,&amp;nbsp;servem para uso imediato &#x96; no máximo as manchetes do dia seguinte. &lt;P&gt;Ao contrário de Churchill, não pretende legar uma coletânea de peças retóricas definitivas, tampouco um livrinho de máximas como aquele de Mao Tsé-tung. O presidente não quer esclarecer, quer confundir, desarmar. Surpreender. Com isso ganha tempo: enquanto os exegetas perdem precioso tempo interpretando os significados do que acabaram de ouvir, o presidente preencheu todos os espaços vazios, criou novos fatos políticos e mantém-se no comando do processo.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Na última semana deitou falação sobre biografismo sem se importar que matava Plutarco pela segunda vez. Na cerimônia de posse do novo Procurador Geral da República pretendeu dar um peteleco nos investigadores preocupados tão-somente em abrilhantar suas biografias, desatentos à biografia dos investigados, mas acabou por armar&amp;nbsp;uma tremenda confusão entre currículo funcional e folha-corrida criminal. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Richard Nixon mudou&amp;nbsp;o desenho geopolítico mundial e, apesar da façanha, foi obrigado a renunciar porque mentiu e trapaceou. Seu algoz, o ex-diretor do FBI, Mark Felt, não estava interessado em brilhar e manteve em segredo sua identidade durante 30 anos.&amp;nbsp;Para evitar que as proclamações do Chefe da Nação sejam tão facilmente contestadas, seria necessária uma reciclagem do seu repertório metafórico. Há sinais evidentes de fadiga do material.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Novo surto oratório no dia seguinte inspirou-se em Cesare Beccaria, o jurista do iluminismo que soube distinguir entre pecado e crime e, principalmente, soube armar uma proporcionalidade entre delitos e penas: &#x93;é preciso saber o tamanho do crime. Uma coisa é roubar, matar, outra é pedir emprego e [praticar] o tráfico de influência, o lobby. O que não se pode é vender tudo como crime de pena de morte&#x94; disse o presidente.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Irretorquível, impecável, à primeira vista uma aula de filosofia do direito com amigável entonação de conversa de botequim. A comparação entre o que foi dito e a realidade cotidiana desvenda uma perigosíssima complacência diante da dinâmica da ilicitude. Atrás do tapume pichado por farra&amp;nbsp;geralmente esconde-se crime maior, às vezes hediondo. A delinquência se autoalimenta, degradação contínua, crescente. Também a impunidade: começa microscópica, acaba telescópica.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;O presidente é o supremo magistrado, sua jurisprudência, embora baseada no senso comum, não pode conflitar com os estatutos penais em vigor sob pena de degradar o conceito de lei e desnortear a cidadania no tocante ao que é certo e errado, decente e indecente.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Ao providenciar um inocente emprego para o namorado da neta querida, o&amp;nbsp;senador José Sarney cometia uma clara infração - traficava influência &#x96; porém ninguém pediu a pena de morte para o generoso avô. O clamor público que domina o país há seis meses&amp;nbsp;não pretende levar o aliado de Lula ao paredón. O que se pretende apenas &#x96; inclusive no âmbito do PT &#x96; é preservar a lisura da República e recuperar a dignidade da sua mais alta casa legislativa. O suplente do suplente Paulo Duque não tem currículo e não tem biografia para ser o fiscal da ética e do decoro. Tem apenas folha corrida.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Nesta nova fornada de transcrições de telefonemas do clã Sarney, além de empreguinhos e verbinhas que, como no mensalão, são pecadilhos triviais, há uma escancarada inconstitucionalidade: Sarney pai e Sarney filho comemoravam a concessão de uma nova repetidora de TV para o conglomerado de TV da família. Um parlamentar que teoricamente fiscaliza as concessões de serviço público não pode simultaneamente ser concessionário de um serviço público.&amp;nbsp;Tal delito tem nome: prevaricação. E o prevaricador, mesmo com passado impoluto &#x96; o que não é o caso -, não pode escapar da punição devida.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Cada vida deve ser continuamente lustrada, não existem biografias definitivas. A do presidente Lula, no auge da sua carreira política, não pode ser maculada com a suspeita de favorecer a impunidade. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;&amp;nbsp;&lt;/P&gt;</description>
      <pubDate>Fri, 24 Jul 2009 17:49:35 -0300</pubDate>
      <guid>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/2009/07/24/+eloquencia+e+delinquencia+7486974.html</guid>
    </item>
    <item>
      <title><![CDATA[Sêneca e Sarney]]></title>
      <link>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/2009/07/17/seneca+e+sarney++7358914.html</link>
      <description>Ao encerrar diante de um plenário vazio o semestre mais horroroso da história do Senado Federal, o senador pelo Amapá, dono do Maranhão e vice-rei do Brasil, José Sarney, fez a apologia de Lúcio Aneu Sêneca, conhecido como o Moço, o Estóico e, em rodas mais exigentes, como o Pulha. &lt;P&gt;Sarney finge agilidade, mas é antes de tudo um leviano: não pensa, embroma; não escreve, enrola; não discursa, engrola. Queria uma figura da antiguidade para espelhar-se, de preferência um senador romano e com o nome começando por um &#x93;s&#x94;. Na pressa, o dedo podre parou em Sêneca.&lt;/P&gt; &lt;P&gt;Ferrou-se: o estoicismo do espanhol de Córdoba era, aparentemente, de fancaria: envolveu-se com a sobrinha do imperador Cláudio que por isso o desterrou, mais tarde engraçou-se com a imperatriz Agripina que fez dele o preceptor do seu filho Nero. Agradecido, ao tornar-se imperador, converteu o mestre no principal conselheiro.&lt;/P&gt; &lt;P&gt;Sêneca foi extremamente complacente com a  tirania de Nero e chegou a escrever uma hedionda e hipócrita justificativa ao senado romano justificando o assassinato da velha amiga Agripina. Sua tibieza diante do despotismo e a obsessiva acumulação de riquezas foram denunciadas pelos contemporâneos que viam nelas a negação da pregação estóica. Quando o povo começou a reclamar contra Nero, aderiu à conspiração de Pisão. Descoberto, foi obrigado a suicidar-se.&lt;BR&gt;&lt;BR&gt;Símbolo das contradições de Sêneca é uma de suas mais famosas tiradas: &#x93;Eu elogio a vida, não a que levo, mas aquela que deve ser vivida&#x94;. Por isso não encontrava qualquer contradição entre o seu pretenso  estoicismo e a fortuna material que acumulou. Alegava que o sábio não precisa ser pobre desde que o seu dinheiro seja ganho de forma decente. Sarney deve à legião de admiradores algumas explicações a respeito desta controversa proposição.&lt;BR&gt;&lt;BR&gt;Solidário com o guru romano, na derradeira catilinária semestral Sarney investiu pesadamente contra a mídia e, sobretudo, contra o &#x93;Estadão&#x94; que iniciou a série de denúncias contra os atos secretos. Ingrato, deixou mal o jornal que o acolhe às sextas-feiras, a &#x93;Folha de S. Paulo&#x94;, que tanto se esforça para acompanhar o competidor.  Sêneca inspirou-o também neste aspecto ao designar o único medium da época, as &#x93;Actas Diurnas&#x94;, como &#x93;folhas linguarudas&#x94;.&lt;BR&gt;&lt;BR&gt;Sarney, porém, é espécime único, fora de série, incomparável. As circunstâncias que o produziram resultam de uma raríssima combinação de  ingredientes, aliás todos diminutivos: malandrinho, cinicozinho, oportunistazinho.&lt;BR&gt;&lt;BR&gt;Fazia parte da &#x93;banda de música&#x94; da velha UDN e, ao contrário dos camaradas, avalizou em 1964, sem pestanejar,  todos os arbítrios da Redentora. Serviu-a fielmente e quando a ditadura começou a soçobrar passou-se para o grupo oposto. Tancredo o escolheu como vice não pelos atributos, mas pela mediocridade.&lt;BR&gt;&lt;BR&gt;As façanhas posteriores têm sido muito lembradas ultimamente, porém poucos recordam a despudorada adesão à candidatura de Lula em Agosto de  2002 quando deixou escapar esta pérola  de pragmatismo: já que um dia será preciso engolir um triunfo do PT, melhor que fosse logo e acabasse depressa. Sêneca seria mais gracioso e retórico, diria a mesma coisa de forma a converter-se em inspiração aos pósteros.&lt;BR&gt;&lt;BR&gt;Agradecido, o então candidato Lula não viu qualquer perversidade na manifestação do ex-adversário e novo aliado. No berreiro dos palanques é impossível reparar em sutilezas ou examinar a decência das claques. Agora, no recesso parlamentar, talvez consiga o distanciamento para perceber o emaranhado de equívocos nos quais se envolveu a partir do momento em que colocou o sub-Sêneca como figura central do jogo político do próximo ano.&lt;BR&gt;&lt;BR&gt;É sabido que Sarney nunca foi uma individualidade, agora ficou visível que, na realidade, é uma patota. Patota na qual militam soberanamente dois enxotados da vida pública: Fernando Collor de Melo e Renan Calheiros. E não contente,  escolheu como guarda-costas e fiscal do decoro senatorial, um suplente do suplente de um senador fluminense que estreou dizendo que &#x93;não existe independência na política&#x94;.&lt;BR&gt; &lt;BR&gt;Sêneca não merecia ser enxovalhado desta maneira.&lt;BR&gt;&lt;BR&gt;&lt;/P&gt; </description>
      <pubDate>Fri, 17 Jul 2009 18:37:00 -0300</pubDate>
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    </item>
    <item>
      <title><![CDATA[Uma grande família]]></title>
      <link>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/2009/07/10/uma+grande+familia+7228997.html</link>
      <description>O Estado não é a continuação da Família, afirma peremptório Sérgio Buarque de Holanda na primeira linha do capítulo sobre o homem cordial do seu clássico &#x93;Raízes do Brasil&#x94;. &lt;BR&gt;&lt;P&gt;Há 73 anos, em Outubro de 1936, o &#x93;pai do Chico&#x94; (como modestamente se apresentava nos últimos anos), identificou a marca diferenciadora da sociedade brasileira. A transferência&amp;nbsp; dos valores e procedimentos da vida privada, doméstica, para a esfera pública foi, segundo ele, a responsável pelas distorções e disfunções que impedem o desenvolvimento de um Estado moderno, anti-familiar, impessoal, isonômico, democrático. E republicano. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;A cordialidade que Buarque de Holanda diagnosticou não se situa no âmbito afetivo, sentimental. Não equivale à bonomia e ao bom-mocismo, ao contrário, é tenaz e autoritária, clara transgressão às normas que devem imperar numa organização social sem privilégios. A falaciosa cordialidade contida no postulado&amp;nbsp; &#x93;aos amigos, tudo&#x94; é elitista, opressora, preconceituosa, além de nepotista, patrimonialista e, basicamente, corrupta. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Informalidade não é prova de avanço ou modernidade, é atraso. Preceitos, regras e leis são formalidades adotadas de comum acordo pela maioria dos cidadãos para garantir o seu bem-estar. &lt;BR&gt;O que nos leva à constatação de que nos últimos dias essa incontrolável vocação para a informalidade e para o desapego aos ritos nos levou a uma irregularidade institucional: José Alencar, o presidente em exercício esteve durante muitas horas incapacitado para exercer a sua função. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;O país ficou sem presidente da República essa é a verdade.&amp;nbsp; A ninguém ocorreu a idéia de transferir o poder para o presidente da Câmara Federal, Michel Temer (como o previsto no artigo 80 da Cara Magna) embora a opção pela nova cirurgia já estivesse cogitada desde o momento em que José Alencar deixou Brasília para internar-se no Hospital Sírio-Libanês, em S. Paulo. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;A solidariedade e a simpatia pelo estado de saúde do vice-presidente, somadas talvez a algumas pitadas de superstição, impediram que se cumprisse uma formalidade comezinha, porém indispensável diante do imponderável e das exigências de um Estado organizado. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;A cirurgia levou quase seis horas, depois da anestesia o paciente foi conduzido à sala de reanimação e em seguida à UTI onde deve ficar dois dias. Embora o primeiro boletim médico emitido nesta sexta-feira tenha garantido que o presidente em exercício estivesse &#x93;bem disposto e acordado&#x94;, é certo que esteve inconsciente e/ou incapacitado para tomar decisões durante um dia.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;O regresso do presidente Lula ao território nacional restabelece a normalidade, mas não invalida as preocupações pelo descuido. Sobretudo porque o seu substituto deverá ficar internado dez dias e, além disso, poderá necessitar de novas intervenções já que nem todos os tumores foram retirados.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Não cabe à junta médica que assiste a José Alencar determinar se o seu paciente estava capacitado ou não para exercer a presidência da República. Muito menos ao gabinete do presidente Lula. A Constituição prevê a sucessão do primeiro mandatário, mas não estabelece critérios para avaliar as condições físicas ou mentais do Chefe da Nação em exercício. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Num Estado não-familiar, efetivamente funcional e institucionalizado, caberia aos chefes do Legislativo e do Judiciário antecipar-se a uma eventual fissura legal, sobretudo porque o presidente em exercício já estivera internado dias antes no mesmo hospital.&amp;nbsp; Mas o chefe do Legislativo, José Sarney, é um morto-vivo e o sucessor de Alencar finge-se de morto para não ser envolvido na onda de escândalos.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Neste abençoado pedaço do mundo prevalece a informalidade e a cordialidade. Todos são amigos, todos são compreensivos, tolerantes, adversários de ritos, protocolos e códigos. Esta é uma Grande Família comandada por dois bordões - &#x93;Deus nos livre!&#x94; e &#x93;Dá-se um jeito&#x94;.&lt;/P&gt;</description>
      <pubDate>Fri, 10 Jul 2009 17:37:03 -0300</pubDate>
      <guid>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/2009/07/10/uma+grande+familia+7228997.html</guid>
    </item>
    <item>
      <title><![CDATA[Distração fatal]]></title>
      <link>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/2009/07/03/distracao+fatal+7106934.html</link>
      <description>Chamado &#x93;jogo dos reis&#x94;, o xadrez é na realidade, o jogo da vida e da morte: aberturas brilhantes, avanços arrasadores, cercos tenazes podem ser inutilizados por um lance mínimo, desastrado e desastroso. Tal como na aventura existencial, o xeque-mate não representa o triunfo do ganhador, mas a asneira do perdedor. A história das guerras e a própria polemologia comprovam, a falibilidade dos eleitos pelo destino e, não, a sua infalibilidade.&lt;P&gt;O presidente Lula - tal como Getúlio Vargas no início de 1945 &#x96; parecia imbatível. Tudo conspirava a seu favor: soube manter os fundamentos econômicos do antecessor, aproveitou brilhantemente as oportunidades conjunturais, converteu os altos índices de popularidade em ativos eleitorais, deixou a oposição consumir-se nas incertezas, conseguiu passar incólume e lampeiro ao largo da maior onda de escândalos desde o fim do regime militar, contrabalançou a vocação&amp;nbsp; populista com algumas jogadas sérias&amp;nbsp; no âmbito mundial, reprimiu as tentações continuistas e parecia pronto para coroar com a ajuda do PMDB, em 1 de Janeiro de 2011, uma sucessora preparada com esmero.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Quando tudo corre maravilhosamente bem, a pequena falha pode ser fatal. No início da reta final, quando começa a aceleração, é que a lata de lixo torna-se mais necessária. Nestes breves e cruciais momentos é preciso distinguir o que é indispensável do que pode ser abandonado.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;O presidente Lula imaginou que o PT seria facilmente controlado quando no início do ano escolheu Sarney para novamente presidir o Senado. Imaginou que os embates entre a guerrilha do derrotado Tião Viana (PT-AC) e a tropa de choque de Sarney (PMDB-AP) seriam facilmente superados. Não foram: o funcionalismo do Senado dividiu-se irremediavelmente e a onda de denúncias contra Sarney ganhou dimensões incontroláveis. Lá dos confins do Cazaquistão o presidente Lula tentou ajudar o aliado colocando a imprensa como culpada. O gesto galante era esperado, &lt;EM&gt;noblesse oblige&lt;/EM&gt;, ao parceiro cumpre oferecer algum salva-vidas.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Inesperada e impensada foi a overdose de solidariedade. Em seguida, no início desta semana e novamente no exterior, agora abraçado ao &#x93;irmão&#x94; líbio, Muamar Kadafi&amp;nbsp; - o déspota mais cínico do planeta -, o presidente Lula pisoteou as posições assumidas publicamente pelos senadores petistas liderados por Aloísio Mercadante e determinou apoio irrestrito à permanência de José Sarney na chefia do Senado e do Legislativo. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;No mesmo momento em que Mercadante afirmava na TV que os senadores petistas tinham compromissos com seus eleitores e com a sociedade (dando a entender que se juntariam aos demais partidos para exigir o afastamento de Sarney),&amp;nbsp; o chefão determinava o contrário. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Em Setembro de 2006, antes da reeleição, o presidente Lula incluiu indiretamente o senador Mercadante no bloco dos &#x93;aloprados&#x94; que prepararam o Dossiê Vedoin. Quase três anos depois, numa confortável &lt;EM&gt;pole position&lt;/EM&gt;, o próprio Lula parece desatinado ao desfazer-se do petismo e sua bagagem reformista e ética para, em seu lugar, lançar no mercado partidário o lulismo, mix de oportunismo, &lt;EM&gt;real politik&lt;/EM&gt; e inconsequência.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Esta aposta cega na invencibilidade do partido de Sarney denota uma leitura simplista do quadro político. O PMDB nunca foi e jamais poderá ser considerado como uma força política coesa. Criatura do regime militar, é exemplo clássico de entulho autoritário, hoje convertido no partido dos sem-partido, federação de apetites. Michel Temer, seu presidente, só consegue eleger-se deputado, Sarney, vice-rei do Brasil, domina um Maranhão fatalmente dividido: obtém unanimidade apenas no Amapá, onde jamais residiu e operou. O PMDB só existe na hora do butim para encher a pança e os bolsos dos coronéis.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Ao agarrar-se ao destroçado Sarney e desvencilhar-se do PT histórico, o político Lula da Silva cometeu a tal distração fatal. Condenou-se a passar as próximas semanas e meses esgoelando-se diariamente nos palanques em defesa de um político irremediavelmente desmoralizado e o que lhe resta de sinceridade logo estará confundida com desfaçatez e hipocrisia. Sua candidata terá que pelejar sozinha, a não ser que prefira aventurar-se pelo lodaçal.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;O jogo dos reis, como todos, é imponderável. Auxiliar imprescindível é a noção clara, constante, de que pode ser perdido a qualquer momento. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;&amp;nbsp;&lt;/P&gt;</description>
      <pubDate>Fri, 03 Jul 2009 18:01:10 -0300</pubDate>
      <guid>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/2009/07/03/distracao+fatal+7106934.html</guid>
    </item>
    <item>
      <title><![CDATA[Outra pandemia: culpar a mídia]]></title>
      <link>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/2009/06/26/outra+pandemia+culpar+a+midia+6986902.html</link>
      <description>Veloz, solerte, letal. Cometido o delito, antes mesmo de esboçar uma estratégia de defesa, os denunciados e encurralados estão aprendendo a servir-se de um recurso mais moderno do que a velha máscara da inocência: acusam a imprensa. &lt;P&gt;Consideram mais eficaz desqualificar os meios de comunicação num mundo cada vez mais dependente deles do que rebater acusações. O bode expiatório anti-midiático está sendo utilizado neste momento em diferentes quadrantes e a mesma intensidade: no Brasil o agente viral é o senador José Sarney e seu dileto advogado de defesa, o presidente Lula, ambos empenhados em minimizar o turbilhão de escândalos que envolve há cinco meses a figura do ex-presidente da República e tri-presidente da Câmara Alta. &lt;BR&gt;&lt;BR&gt;No Irã, são os aiatolás que não reconhecem a fraude a favor do seu candidato, Mahmud Ahmadinejad e culpam a imprensa internacional pela rebelião popular que tomou conta das ruas de Teerã. Na Itália, flagrado numa bacanal, o primeiro-ministro Silvio Berlusconi acusa a mídia européia de esquerdista e conspirar para derrubá-lo.&lt;BR&gt;&lt;BR&gt;Desgastado pelo fracasso do socialismo bolivariano, o venezuelano Hugo Chávez tenta liquidar o que restou da imprensa livre no seu país, especialmente a emissora &#x93;Globovisión&#x94;. E na Argentina, assustada com um possível avanço da oposição nas eleições legislativas do próximo domingo, a dupla presidencial Kirchner ameaça enviar ao Congresso o projeto de uma nova lei de audiovisual.&lt;BR&gt;&lt;BR&gt;Os afetados pela pandemia exibem sintomas comuns &#x96; abominam a alternância no poder, só gostam da democracia quando as urnas lhes são simpáticas, só lêem jornais que os elogiam. As diferenças não são apenas geográficas. Algumas vítimas do furor anti-mídia são eles próprios barões da mídia. Caso de Berlusconi que além de controlar os canais estatais da Itália, é dono de um poderoso conglomerado multimídia que o torna virtual senhor da opinião pública.&lt;BR&gt;&lt;BR&gt;Quando se sentiu obrigado a defender-se publicamente, Sarney foi à tribuna do Senado para atacar &#x93;grupos econômicos e a mídia radical&#x94;. A precária acusação não faz justiça ao notório saber do político maranhense. Grupos econômicos jamais se aliariam à mídia radical. Quem o fustiga, mais encarniçado, é o &#x93;Estado de S. Paulo&#x94;, seguido do &#x93;Globo&#x94;, ambos mais conservadores do que extremados. Mesmo a &#x93;Folha de S. Paulo&#x94; (onde o imortal romancista publica há duas décadas suas platitudes semanais), não cabe no figurino do irredentismo. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Sarney goza de um poderoso salvo-conduto midiático: quando envergou a faixa presidencial, depois da tragédia que se abateu sobre Tancredo Neves, tentou obsessivamente acrescentar mais um ano ao seu mandato. Para isso, encarregou o ministro das Comunicações, ACM (Antônio Carlos Magalhães) de fazer uma farta distribuição de mimos aos congressistas. Assim nasceu a aberração que desqualifica tanto o Congresso como nossa mídia eletrônica ao converter quase duas centenas de parlamentares em concessionários de canais de rádio e TV. Seriam eles os radicais que o atazanam? &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Dono de um conglomerado de mídia no seu estado, além de colunista da &#x93;Folha&#x94;, Sarney já tentou usar o jornalismo para alavancar a carreira política. Em 1962, algum radical descobriu a manobra e demitiu-o do cargo de correspondente do &#x93;Jornal do Brasil&#x94; em S. Luiz. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Imperioso reconhecer que a mídia contemporânea enfrenta em diferentes esferas sérios problemas existenciais que a fragilizam e a tornam vulnerável aos surtos viróticos. A pandemia anti-midiática não grassa em ambientes arejados, pluralistas, onde o jornalismo, além de profissão é também encarado como missão. Vacina infalível para qualquer pandemia autoritária. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;&amp;nbsp;&lt;/P&gt;</description>
      <pubDate>Fri, 26 Jun 2009 21:21:13 -0300</pubDate>
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    </item>
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      <title><![CDATA[Ode ao homem comum]]></title>
      <link>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/2009/06/19/ode+ao+homem+comum++6837938.html</link>
      <description>O gatilho mais rápido do hemisfério sul: dos inúmeros atributos do presidente Lula começa a evidenciar-se uma temerária capacidade de atirar antes de perguntar &#x93;quem vem lá?&#x94;. O ajuizado político, o &#x93;cara&#x94; que possui o senso da oportunidade e da prudência, de repente&amp;nbsp; deixou-se dominar pelo instinto de defesa, assustado com a própria sombra. &lt;P&gt;A intempestiva intromissão nos assuntos internos do Irã proclamando a correção do pleito que deu a vitória a Mahmud Ahmadinejad colocou o Brasil na contramão do movimento reformista que tomou conta das ruas de Teerã. Lula entregou a imagem de progressista que construiu com tanta habilidade e, em troca, ganhou a faixa de repressor e anti-libertário. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Foi ultrapassado pelo próprio núcleo conservador do Irã que decidiu rever os resultados do pleito, sobretudo a extraordinária velocidade com que foi apurado. Mirou naqueles que contestam a surpreendente maioria&amp;nbsp; obtida por Ahmadinejad imaginando que assim desestimularia aqueles que no Brasil poderão animar-se a reclamar contra o uso da máquina estatal em benefício da sua candidata. Errou: o bom atirador não revela os próximos passos e, principalmente, os seus receios.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Não contente com a estrepolia internacional saiu em socorro do aliado José Sarney atirando em todas as direções, inclusive com peças grosso calibre. Para salvar o presidente do Senado da desmoralização integral conviria algo mais sofisticado do que a destemperada diatribe contra o denuncismo da imprensa. Conseguiu o milagre de incomodar a própria bancada do seu partido que defende uma ação mais efetiva e rigorosa no saneamento da Câmara Alta. &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Ao proclamar que um ex-presidente da República não é uma pessoa comum, por isso merece tratamento especial, Lula obriga-se a estender a mesma deferência a todos os antecessores. E não apenas isso: declara-se fervoroso adepto da tradição elitista brasileira que confere aos coronéis e aos poderosos privilégios que os verdadeiramente comuns jamais sonhariam.&lt;BR&gt;&amp;nbsp;&lt;BR&gt;O popularíssimo Lula, protagonista do sonho brasileiro,&amp;nbsp; protótipo do homem comum que alçou-se às mais altas esferas coloca-se frontalmente contra a isonomia, contra a igualdade de direitos e deveres, contra os princípios da igualdade e a democracia.&amp;nbsp; &lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;José Sarney pode subverter a ordem, a moral, pode implantar a clandestinidade e o secretismo no poder da República mais comprometido com a transparência. O generoso atestado de idoneidade que lhe foi conferido poderá dar alguma sobrevida ao vice-rei do Brasil com a vantagem de, eventualmente, no futuro, ser usado em benefício próprio.&lt;BR&gt;&lt;BR&gt;Armado com uma metralhadora portátil o presidente Lula esquece a sua função de árbitro, abdica da função moderadora, prefere ser o agente provocador. Não se poupa,&amp;nbsp; convidado ou não se mete em todas as rixas, esquecido do imponderável processo de desgaste e da inevitável fadiga dos materiais.&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;Vai entrar para a história o patético discurso de Sarney nesta terça-feira no plenário do Senado que preside. A peça representa o momento culminante do cinismo, paroxismo da hipocrisia nacional. Nunca neste País viu-se tanto despudor, tamanho descaramento.&lt;BR&gt;&lt;BR&gt;Lá no Cazaquistão, quase antípoda, envergando um deslumbrante traje azul bordado com ouro típico dos cazaques, o&amp;nbsp; presidente Lula entendeu-o de forma equivocada. Até então aquele tiroteio no Senado &#x96; iniciado em fevereiro por Tião Viana, companheiro de partido --&amp;nbsp; não atingia o presidente, apenas o preocupava.&amp;nbsp; Para o homem comum, esse que silenciosamente constrói nações e potências, Lula esqueceu-o. Agora é fiador de uma prevaricação que se torna visível mesmo dos remotos grotões do País.&lt;BR&gt;&lt;BR&gt;&lt;BR&gt;Leia mais sobre: &lt;A href="http://busca.igbusca.com.br/app/search?o=ULTIMOSEGUNDO&amp;amp;q=Senado" target=_top&gt;Senado&lt;/A&gt; - &lt;A href="http://busca.igbusca.com.br/app/search?s=us_content&amp;amp;o=ULTIMOSEGUNDO&amp;amp;first_o=ULTIMOSEGUNDO&amp;amp;q=Lula" target=_top&gt;Lula&lt;/A&gt;&lt;/P&gt;&#xD;
&lt;P&gt;&amp;nbsp;&lt;/P&gt;</description>
      <pubDate>Fri, 19 Jun 2009 19:30:52 -0300</pubDate>
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    </item>
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      <title><![CDATA[Haraquiri no Senado]]></title>
      <link>http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/alberto_dines/2009/06/12/haraquiri+no+senado++6699971.html</link>
      <description>O Brasil é surpreendente, nem mesmo o presidente Lula que se gaba com tanta frequência de conhecê-lo tão bem,&amp;nbsp; percebe suas nuances e domina suas sutilezas. O país desafia, desmente e ilude todos os estadistas, poetas, cientistas e filósofos que se apresentam como seus interpretes. Não é uma nação é uma pessoa, um ser nacional autônomo, tem vida, desígnios e traços próprios. &lt;P&gt;É mais esperto do que a soma das espertezas individuais. A melhor prova desta astúcia orgânica está sendo escancarada através do noticiário político. Enquanto os políticos fingem que retomam a velha discussão sobre a reforma política e admitem até eliminar a função do suplente de senador como primeiro passo para acabar com o sistema bicameral eis que o próprio Senado se adianta e se auto-dissolve num inédito suicídio institucional.&lt;/P&gt; &lt;P&gt;As revelações, quarta-feira, dos repórteres Rosa Costa e Leandro Colon, do &#x93;Estado  de S. Paulo&#x94; sobre os 300 atos secretos do Senado e ampliadas nesta sexta-feira por Gerson Camarotti do &#x93;Globo&#x94; para 500 bandalheiras sigilosas configuram uma improbidade de proporções calamitosas. Com o agravante da duração: a ilegalidade está funcionando há 10 anos e tem servido para nomear parentes, criar cargos, aumentar vencimentos e pagar horas extras ao funcionalismo.&lt;/P&gt; &lt;P&gt;As ilicitudes foram praticadas conjuntamente pelos beneficiários, pelos agentes beneficiadores diretos (membros da Mesa Diretora e diretores administrativos da casa) e também pelos agentes indiretos - todos os senadores que conviveram com esta aberração por tanto tempo.&lt;/P&gt; &lt;P&gt;Previsto no artigo 37 da Constituição onde se determina a obrigação de dar publicidade a todos os atos, de todos os poderes, de todas as instâncias em todo o território nacional, o crime se agiganta quando transcende o aspecto moral e se configura  como verdadeiro atentado político. É uma autêntica ação subversiva contra o Estado, contra o regime e contra a República.&lt;/P&gt; &lt;P&gt;Seguindo a inércia dos processos de marginalização, o Senado foi cometendo suas pequenas e irrisórias infrações até colocar-se integralmente fora da lei. A Câmara Alta e suas 500 malandragens foi convertida  num distrito clandestino, algo semelhante à milícia mercenária, cosa nostra protegida pela rigorosa omertá.&lt;BR&gt; &lt;BR&gt;Como sempre acontece, a imoralidade criou uma burocracia altamente sofisticada: como os atos eram sigilosos e não poderiam ser noticiados no Diário Oficial, eram registrados no boletim administrativo, Diário Oficial Não-Oficial, um D.O do B., amplamente manuseado pelo funcionalismo senatorial. A socialização do butim  fez-se à custa do silêncio e do pacto de lealdade. Todos se regalavam, ninguém estrilava.&lt;/P&gt; &lt;P&gt;O senador José Sarney que presidiu a Câmara Alta duas vezes ao longo do período, não poderia estar alheio ao novo veio de escândalos, conviva obrigatório: um neto de 22, sequer formado, chegou a ganhar cerca de oito mil reais e uma nora transitória também transitou pelos porões desta república clandestina.&lt;/P&gt; &lt;P&gt;Sarney não é o culpado. Com sua infinita elasticidade espiritual e inquebrantável devoção ao relativismo, o atual presidente do Senado é apenas o símbolo da decadência de uma estrutura política à qual serviu em todas as circunstâncias - de líder civil da ditadura militar a vice-rei de uma república popular.&lt;/P&gt; &lt;P&gt;O Ministério Público e o Tribunal de Contas da União já foram convocados: todos prometem agir, punir, demitir, exigir a devolução do dinheiro recebido indevidamente.  &lt;BR&gt;O mal está feito, a república brasileira está ferida: a parte mais vistosa de um dos seus poderes, desencaminhou-se, tem códigos e costumes diferenciados e outra noção de decoro. É parte daquele país inesperado, rebelde, que fez-nos o grande favor de antecipar a reforma política e mostrar a inutilidade de uma de suas câmaras. &lt;BR&gt; &lt;BR&gt;O senado romano foi cenário do assassinato de um imperador. O Senado brasileiro é palco de um haraquiri coletivo.&lt;/P&gt; &lt;P&gt; &lt;/P&gt; </description>
      <pubDate>Fri, 12 Jun 2009 18:23:53 -0300</pubDate>
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