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Lembrando o fascismo

20/11 - 18:22 - Alberto Dines

Como se não bastasse o emaranhado produzido pela decisão do STF sobre Cesare Battisti, entra em cena o ministro da Justiça, Tarso Genro, armado com a sua proverbial capacidade de confundir para afirmar que a tendência do governo é negar a extradição porque a Itália está dominada por um “fascismo galopante”.

Bravo, bravíssimo! Há muito que a esquerda brasileira não se manifesta de forma tão categórica sobre o fascismo, certamente receosa de ferir as suscetibilidades de lideranças latino-americanas assemelhadas ao movimento criado por Benito Mussolini no século passado.

Na verdade, Tarso Genro inicia a ofensiva retórica destinada a contornar a decisão do STF que considerou indevido o refúgio político oferecido pelo próprio ministro, razão pela qual deveria ser extraditado para a Itália. Como a douta e arrevesada decisão da suprema corte delega ao presidente Lula a decisão final sobre a extradição, Tarso Genro recebe a espinhosa missão de preparar o terreno para um desfecho que novamente deixará o Brasil do lado errado repetindo o triste episódio do sequestro dos boxeadores cubanos que pretendiam deixar a delegação do seu país nos Jogos Pan-Americanos no Rio.

O apalhaçado Sílvio Berlusconi é reacionário, autoritário, repressor, corrupto, indecente, imoral. Embora apoiado pelos neofascistas da Liga Norte e pelos velhos fascistas do resto da Itália, o premiê italiano não preside um Estado fascista.

A despeito da degradação produzida pela presença de Berlusconi na cena política, a Itália é um país fundamentalmente democrático. Em termos institucionais está muito mais próxima do Estado de Direito do que nós. A preocupação “humanitária” do ministro Genro é injustificada. Battisti corre perigo aqui, num Estado incapaz de oferecer garantias à cidadania e enfrentar as pequenas e grandes delinquências.

No entanto, a afirmação do ministro da Justiça é extremamente oportuna. Serve para lembrar que - ao contrário do nazismo – o fascismo não foi liquidado pela derrota do Eixo, em Maio de 1945. A ascensão de Juan Perón na Argentina, começou exatamente quando a vitória dos Aliados parecia inevitável e, ao longo das décadas seguintes ficaram muito claras as convergências entre o “socialismo” fascista e os movimentos de massa nacionalistas que sacudiram a América do Sul.

O nacional-socialismo de Hitler circunscreveu-se basicamente ao mundo germânico enquanto o fascismo engendrado pelo jornalista e mestre escola Mussolini espalhou-se pelo mundo latino nos dois lados do Atlântico. A oposição de esquerda na Venezuela considera Hugo Chávez mais próximo do fascismo do que do marxismo.

O curriculum político de Cesare Battisti não exibe militâncias anti-fascistas. No seu passado, ações ou textos inexistem elementos capazes de levar os fascistas italianos a pretender eliminá-lo. Os Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), tal como as Brigadas Vermelhas, assumiam-se como vanguardas revolucionárias esquerdistas porém serviam mais aos interesses do entranhado conservadorismo italiano do que ao seu histórico Partido Comunista.

O caso Battisti foi “aparelhado” por áreas próximas ao PT desde o momento em que o militante foi preso no Brasil em 2007. Foi um tremendo erro, fruto de uma nostalgia postiça e indevida. O PT nada tem a ver com ações subversivas nem com atentados terroristas, sua intransigente defesa dos trabalhadores jamais o levou a endossar qualquer violência política. Seus fundadores sempre estiveram comprometidos com as liberdades democráticas.

Ao enredar-se antes e depois da decisão do STF na defesa de um desastrado e controverso militante, o governo brasileiro desperdiça suas valiosas conquistas no cenário internacional.

O único perigo que Battisti corre na Itália é ser considerado como uma múmia, jurrássico exemplar dos delirantes pseudo-esquerdismos fascitóides produzidos pela Guerra Fria.




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