27/06 - 18:32 - Alberto Dines
“Numa terra radiosa vive um povo triste”, assim começa um dos mais tocantes documentos sobre a alma brasileira, o “Retrato do Brasil” do aristocrata-caminhante, Paulo Prado. Povo triste, enganado e não por vãs promessas de prosperidade, mas por governantes que se recusam a encarar a melancolia, não gostam de vê-lo chorar, mesmo de emoção.
A nação inteira desabou quando se consumou a morte de Tancredo Neves em Abril de 1985 depois das cinco longuíssimas semanas de agonia. Forjou-se naquele momento uma percepção de tragédia - ainda que não verbalizada e certamente já esquecida - numa comunidade impedida pelos fados de festejar a posse do primeiro presidente civil depois de 21 anos de regime militar. Catarse incontrolável, por isto demorada. Purgações porque são purgações não podem ser breves, seriam enganosas.
A morte brusca de Dona Ruth Cardoso produziu uma dorzinha fina, penetrante, irremediável. A morte tirou-a da sombra, sua própria vida - discreta, digna, despojada e, não obstante, intensa - de início barrou as lágrimas.
Mas no velório, ao lado do seu caixão, aquele abraço longo e comovido de Lula e FHC, dois ex-companheiros de luta depois ferrenhos adversários, teve algo de sublime, majestático, superior. E não apenas porque se trata de dois presidentes da República (um deles sem a faixa), mas porque as copiosas lágrimas derrubaram distâncias, protocolos e, sobretudo, mostraram quão fortuitas, fúteis e devassáveis são as trincheiras.
A tristeza impôs-se, extravasou livre de constrangimentos e disfarces. O abraço dos príncipes naquela gelada tarde tornou irrelevantes os pactos, rivalidades e conveniências políticas. O luto pessoal, esse que lateja além dos decretos de luto oficial, é insubornável. Lembrou que sem humanidade os projetos, sonhos e obsessões perdem o sentido e validade.
Num dos inúmeros e sentidos textos sobre Ruth Cardoso – responsáveis pelo surpreendente circuito de solidariedade que logo se armou – dizia-se que a sua biografia encerrou-se envolta em grande emoção. Engano: biografias não se encerram, ultrapassam as lápides, não se submetem ao ponto final. Assim como a vida, não se extinguem, intermináveis.
Hora de rememorar, rever, reencontrar. Discrição - uma das virtudes de Ruth Cardoso mais mencionadas - não é tributo externo, formal, mero modo de apresentar-se. Nesta enorme maratona de loquacidades que organizamos e na qual vivemos, discrição significa um ordenamento interior, anterior às palavras que a antropóloga expressaria sempre de forma pertinente.
Esta terra radiosa e exuberante entrevista por Paulo Prado carece de silêncios compreensivos, carece de coerência e moderação. A imoderação reinante, longe de aplacar a velha e longa lista de anseios, suscita sucessivas ondas de frustração e mágoas. A tristeza que o ensaísta identificou com tanta acuidade e sensibilidade, só pode ser remediada com dignidade, respeito, decência e, obviamente, probidade.
Ruth Cardoso deixou uma dorzinha fina, penetrante e impenetrável. Legou-nos a sutil tarefa de entendê-la.

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