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As manhas da hidra

06/06 - 16:57 - Alberto Dines

O figurino colombiano está desembarcando no Brasil. Aos poucos, disfarçado, porém decididamente. Por enquanto sem as Farc, em compensação com os cartéis do narcotráfico operando de forma cada vez mais sofisticada e as milícias das favelas vendendo segurança e entregando o terror. Como os paramilitares.


O seqüestro e tortura de uma equipe do jornal “O Dia” que investigava as conexões políticas das milícias na favela do Batan, zona oeste da Cidade Maravilhosa, escancaram uma situação que poucos têm a coragem de encarar.

O problema não é policial nem local. É nacional (na extensão), federal nas circunstâncias. Estamos diante de um flagrante de subversão da ordem e das instituições. Os paramilitares cariocas não estão apenas conectados ao aparelho de segurança como anulam as prerrogativas democráticas do Estado de Direito e confrontam abertamente a soberania do Estado brasileiro.

Quando o ministro Tarso Genro - de férias - ofereceu sua solidariedade aos jornalistas agredidos tentou colocar a questão no âmbito minimalista de atentado à liberdade de expressão para escapar de uma questão muito mais grave, maximalista, no âmbito da segurança nacional.

Os milicianos e paramilitares cariocas e fluminenses fazem parte de um projeto político que começa com a “inocente” venda de proteção aos comerciantes ilhados pelo narcotráfico e termina com a eleição de vereadores e deputados estaduais para infiltrar-se no Poder Público - eventualmente no judiciário - e inibir sua capacidade de reação. 

O Diário Oficial Legislativo do Estado do Rio revelou na quinta-feira um discurso do deputado Domingos Brazão (PMDB) onde cândida e maliciosamente sugeria uma diferenciação entre traficantes e milicianos. “Se esses jornalistas tivessem caído nas mãos de traficantes estariam mortos” alegou o parlamentar esquecido das catástrofes decorrentes da cínica “Doutrina dos Males, o Menor”, que desgraçou a humanidade no século XX. É o mesmo pragmatismo enganoso, hipócrita, que no Brasil há mais de um século separa a contravenção do crime, consagra a leniência e pereniza os territórios baldios às margens da lei.

No Rio um deputado estadual e um vereador já estão processados por envolvimento com os paramilitares. A prisão de um ex-Chefe de Polícia, Álvaro Lins, e as acusações do Ministério Público a dois ex-governadores (o casal Garotinho) por convivência com ilícitos, oferecem os contornos de uma conexão sabida porém nunca mapeada com precisão.

A hidra da corrupção não consegue confinar-se, necessita de espaço e ar, seus tentáculos se agarram a tudo o que é podre - da rede de lavagem de dinheiro ao crime organizado. Esta pegajosa elasticidade leva-a a expandir-se em todas as direções. No início desta década o  Espírito Santo teve suas milícias articuladas com a bandidagem local sem, contudo, dispor de condições para exportá-las.

Não é o caso do Rio de Janeiro onde as dimensões do “mercado”, a extrema porosidade da polícia, a imoralidade dos legislativos e, sobretudo, a topografia da cidade derrubam fronteiras e tornam obrigatória a convivência entre o espúrio e o legal.

O ataque da milícia aos jornalistas que investigavam seus projetos de expansão política oferece uma prova cabal da adoção do modelito colombiano onde os paramilitares conseguiram infiltrar-se em todos os escalões e regiões. Temendo uma devassa saíram da clandestinidade e cometeram um erro que poderá ser fatal desde que o governo federal deixe de fingir-se avestruz, tire a cabeça da areia e assuma o perigo. A hidra é um bicho ramificado, diversificado e plural.





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