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Espetáculo sem heróis

23/05 - 17:20 - Alberto Dines

Na sessão de CPI dos Cartões na última terça-feira (20/5) encenou-se um dos espetáculos mais lamentáveis já produzidos em Brasília. A sessão não foi secreta nem clandestina, ao contrário, escancarada através das transmissões ao vivo pelas emissoras noticiosas de rádio e TV.

Não houve votação, não se decidiu coisa alguma: o governo saiu com a convicção de que o depoimento do ex-secretário de Controle Interno da Casa Civil José Aparecido Nunes Pires foi positivo para a ministra-Chefe, Dilma Roussef, enquanto que a oposição convenceu-se de que aumentou o cerco à sua principal auxiliar, Erenice Guerra.

Oito horas de mal-estar diante da horrorosa exibição das entranhas do poder. Não foi um empolgante julgamento ou ferrenho debate político, foi uma tomografia da mediocridade, exibição realista da promiscuidade reinante nos porões da capital da República.

O longo convívio entre coadjuvantes do governo e oposição, o trânsito inter, intra ou suprapartidário, os conflitos de interesses, a rede de intrigas e favores colocam em segundo plano a utilização abusiva dos cartões corporativos nas altas esferas e a imoral fabricação de documentos incriminatórios com as mais esdrúxulas denominações.

Merval Pereira, colunista de "O Globo", no dia seguinte classificou o vexame como um filme B (produção sem categoria, para enganar as platéias). Os protagonistas eram coadjuvantes e os parlamentares designados para estrelar o espetáculo, figurantes esfarrapados.

José Aparecido Nunes Pires exercia sua função na Casa Civil (indicado por José Dirceu) até que a Polícia Federal o denunciou como autor do vazamento do dossiê-pasta-planilha com os dados sobre os gastos da presidência no mandato de FHC.

André Fernandes, ex-petista, atual assessor do senador tucano Álvaro Dias, recebeu o dossiê-pasta-planilha do velho amigo Aparecido a quem chegou a oferecer-se para um cargo no atual governo, mas agora com ele agastado.

De alguma forma, os dados que Aparecido mantinha em seu computador foram parar no computador do amigo-inimigo. De alguma forma, estes dados foram levados à revista "Veja" que os publicou bombasticamente a pretexto de provar que o governo pretendia chantagear a oposição.

Tudo dúbio e suspeito: Aparecido não revelou quem preparou o dossiê mas não conseguiu esconder que originou-se na Casa Civil e que por descuido foi parar na caixa postal de André Fernandes. Este garante que o recebeu como "intimidação à oposição". Pergunta-se: pode ele considerar-se parte da oposição? Este leva-e-traz pode ser levado a sério?

Quem levou o dossiê-pasta-planilha para a revista não se sabe, mas é certo, certíssimo que o senador Álvaro Dias recebeu as informações do assessor que, aliás, se não o tivesse feito, seria hoje ex-assessor. Por que razão não subiu à tribuna do Senado para denunciar a existência do dossiê-pasta-planilha contra o seu partido não chega a ser um mistério: em algumas redações brasilienses nota-se certa receptividade para materiais ditos "secretos", de alto teor explosivo. Vazar e publicar sem apuração são ações concomitantes, absolutamente normais. O senador preferiu ficar à sombra, protegido pelo sigilo que se concede às fontes do que botar a boca no trombone e assumir a denuncia da chantagem.

Neste enredo cinza, mesquinho, altamente relativizado, entraram em cena na quarta-feira os canastrões designados para tumultuar o andamento da CPI. Sherlocks de terceira categoria como o próprio relator, o deputado Luis Sérgio, e seus colegas Sílvio Costa e Carlos William, todos empenhados em exibir com galhardia as suas deficiências. Quanto mais pífio o espetáculo, melhor para tirá-lo de cartaz.

Uma coisa é certa: estamos diante de um episódio vergonhoso que em outros países ou outras circunstâncias já teria sido devidamente esclarecido e seus responsáveis punidos. Neste caso assistimos a um conluio de inércias: ninguém quer ser herói, todos preferem as sombras. Mesmo que neste lusco-fusco todos pareçam vilões.





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