02/05 - 16:56 - Alberto Dines
Eufórico com a notícia de que o Brasil foi, enfim, promovido a grau de investimento pela Standard & Poor’s, o presidente Lula declarou na quarta-feira que “o país vive um momento mágico que já deveria ter ocorrido há mais tempo”.
Justificável, o arroubo. As falas presidenciais, antes mesmo de Lula, funcionam como um grande relato para costurar os acontecimentos. Chefes de Estado são narradores, tal como a princesa Scheerazade das “Mil e uma noites” e, como ela, precisam contar uma história capaz de fascinar o sultão antes de dormir, caso contrário será decapitada.
O presidente tem razão quando diz que o galardão de uma das três agências internacionais de risco deveria ter sido concedido há mais tempo. O Brasil apresenta desde 1994 uma invejável continuidade em matéria econômica só agora reconhecida. Já o “momento mágico” é uma hipérbole que contradiz o sentido do restante da frase. Algo merecido e esperado não pode ser colocado na esfera da magia e no âmbito do fantástico.
Magos operam no reino do imponderável, ao contrário do que acontece com um processo econômico regular, coerente, continuado, fundamentado. Magia sugere truque, ilusão, aparência de realidade. O sonhado investment grade é concreto, seus benefícios são palpáveis e mensuráveis. Também os malefícios: a possível enxurrada de dólares dos grandes fundos de investimento americanos vai dificultar ainda mais a vida daqueles que dependem da exportação. Nossa economia não pode depender exclusivamente do mercado interno, a não ser que nos resignemos à condição de exportadores de produtos primários, sobretudo alimentícios, repentinamente valorizados pela escassez e pela especulação.
Scheerazade, e todos os narradores competentes que a sucederam, sabem que uma história não se sustenta com apenas um personagem e único ingrediente. O ouvinte quer diversidade, mutações, contrastes e conflitos - suspense. O diploma de uma agência de risco internacional, além de não ser definitivo, não exime o país de aflições em matéria de inflação, juros e, principalmente, de desordem administrativa.
A credibilidade conquistada depois de tanto esforço no campo da economia não pode conviver com o desapreço pelos valores morais. São eles que dão sentido e substância aos avanços materiais. Progresso não rima com impudência. As portas da maturidade que acabamos de cruzar exigem um lastro de compostura, especialmente no tocante ao erário.
Os sucessivos elogios e provas de solidariedade oferecidas pelo presidente da República a figuras públicas no mínimo controversas são incompatíveis com o novo status alcançado pelo povo brasileiro no mercado internacional. Está evidente que o presidente tem especial prazer em troçar da imprensa e a defesa que fez do governador Cid Gomes foi uma explícita gozação na mídia brasileira, alvoroçada pelos desatinos aéreos do político cearense.
Mesmo no país da piada pronta, não se goza o Quarto Poder com tanta sem cerimônia. Repúblicas como a Índia, Chile, México e Portugal - melhor colocadas no ranking de investimentos – exibem invejável sobriedade em matéria institucional.
Scheerazade precisa reinventar-se constantemente, suas histórias precisam fascinar todos os públicos. Repetitivas, podem dar sono antes do desfecho. A fadiga do material também é perigosa na arte da narração.

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