25/04 - 16:52 - Alberto Dines
“A crise dos alimentos é curta, não é coisa perigosa” disse o presidente Lula na manhã desta sexta-feira em Campinas em nova etapa do périplo inauguratório por conta do PAC. O presidente cumpria sua obrigação de “narrador otimista”, a fala do trono – ou dos palanques - é desde sempre obrigatoriamente risonha e empolgante.
O presidente não tem culpa, o Brasil não tem culpa, mas a crise dos alimentos não será curta nem passageira. Gesta-se há alguns anos (pelo menos desde 2005 quando se iniciou o programa intensivo contra o aquecimento global). Quando uma publicação como o “Economist” informa que a escassez mundial de alimentos pegou todo mundo de surpresa (edição de 19 de Abril, p.32), está apenas esquentando uma notícia ou desculpando-se pela desatenção anterior para um fenômeno desta magnitude.
Os preços do trigo subiram no ano passado 77% e o arroz subiu 16%, um dos maiores disparos nos últimos tempos (segundo a mesma publicação). Quando no início de março - auge da crise do mercado financeiro - os preços das commodities atingiram patamares astronômicos, ficou evidente que os investidores desesperados com as perdas com papeis hipotecários, para compensar-se apostaram no mercado futuro de mercadorias agrícolas.
Ótima aposta sob o ponto de vista financeiro individual, desastrosa se atentarmos para a sua repercussão na economia mundial. Será difícil reverter a tendência, independente das boas intenções e sonhos do presidente Lula. Amparados pelos fortes subsídios governamentais, os agricultores europeus e americanos sentem-se garantidos. China e Índia, coom índices de crescimento próximos dos dois dígitos, precisam alimentar as massas recém-saídas da miséria. Por outro lado, a sede por biocombustíveis criou miragens “verdes” em cima do milho americano (a mais desastrosa alternativa dita renovável ao petróleo) e da beterraba européia.
O governo sabe que a trama que produziu a atual alta nos gêneros alimentícios será muito difícil de desfazer a curto ou médio prazo. A vertiginosa subida nas cotações do milho levou o México (onde é a base da dieta nacional) à beira de uma revolução social. A pressão da União Européia para rapidamente diminuir a participação dos derivados de petróleo na mistura que movimenta sua gigantesca frota automotiva não estimula os agricultores do Velho Mundo ao cultivo de cereais. A Europa como celeiro do mundo é coisa do passado.
A humanidade avança e recua, progride e regride. Ao mesmo tempo, atropeladamente. Esse é o problema. Os múltiplos e contraditórios movimentos dentro dos ciclos sócio-econômicos não admitem diagnósticos simplistas ou receituários tópicos. A idéia “libertária” da globalização como resposta ao confinamento dos mercados gerou tamanha complexidade que somente programas holísticos comandados por organismos multilaterais eficazes poderão resolver.
A solução do álcool-combustível produzido a partir da cana de açúcar (iniciada há mais de 30 anos) resolve o nosso problema. Devidamente controlada, não ameaçará a produção de alimentos. Mas pode ser adotada apenas em regiões com iguais características climáticas.
Para avaliar a gravidade da situação é imperioso levar em conta que o fantasma da fome mundial foi criado pelo fantasma da catástrofe ambiental. Difícil colocá-los no armário.

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