04/04 - 17:00 - Alberto Dines
O susto do governo foi grande. E o pior, visível. A ministra Matilde Ribeiro foi sacrificada duas semanas depois das primeiras revelações sobre gastos com cartões corporativos. A ministra poderia ter sido advertida ou obrigada a ressarcir gastos indevidos e o assunto seria encerrado como erro administrativo ou inexperiência.
Preferiram aplicar-lhe a pena capital, o abafador, com medo de que eventuais fagulhas atingissem áreas mais sensíveis nos andares de cima. Sobressalto idêntico transpareceu na preparação do dossiê (ou base de dados) na Casa Civil. As proporções e alvos deste ataque preventivo demonstram a real dimensão do susto. Se a intenção era mostrar que abusos com cartões corporativos eram congênitos e anteriores ao atual governo, o lógico seria liberar dados sobre gastos no mesmo nível da ministra Matilde, isto é, na Esplanada dos Ministérios ou anexos palacianos.
A planilha-míssil mostrada ao senador Álvaro Dias (PSDB-PR) e depois veiculada por “Veja” estava claramente apontada para o presidente FHC e a primeira-dama, Ruth Cardoso. Não era chumbinho miúdo, mas canhoneio dissuasório. Contra-ataque de grandes proporções. Proporcional ao tamanho da paúra e mesmo nível hierárquico.
O pecado original do governo foi o que em inglês se chama de over-reaction, reação desmedida. Este tipo de resposta não é casual, é fruto da inexperiência ou incompetência dos gerenciadores de crises. A sucessão de explicações contraditórias e pueris em seguida à divulgação do “dossiê” tem a mesma origem. O esquema de defesa no Palácio do Planalto está atrapalhado, retesado, movido por impulsos. Funciona a longo prazo, caso do veto presidencial à fiscalização dos sindicatos pelo TCU (jogada de grande alcance para transformar a gigantesca máquina sindical numa fábrica de militantes).
No corpo-a-corpo político do dia-a-dia, esta tensão defensiva, impulsiva e insegura, só produz mal-entendidos. Exemplo desta tensão pré-eleitoral foi a sugestão do vice, José Alencar, para que o presidente Lula fique mais tempo no poder, anunciada em meio aos nervosos desdobramentos do dossiê. Não foi balão de ensaio, nem fruto de uma súbita paixão por seu companheiro de chapa. José Alencar faz o que lhe pedem, lembrou-se dos seus tempos como ministro da Defesa e fez uma salva de advertência. Queria apenas dizer: “não repitam o mensalão”.
A oposição empenha-se em soprar as brasas, é organicamente inconformada e intensa. Seu papel é provocar e instigar o ceticismo e o senso crítico da sociedade. O governo, porém, não pode perder o controle da situação: gestos bruscos, intempestivos, intranqüilizam os espíritos, acionam reações em cadeia e podem provocar traumas fatais.
Convém não confundir governo com partido político. Governo é a representação do Estado. Autoridades não podem agir como apparatchiks, são servidores públicos, agentes republicanos. Além de compostura e urbanidade, recomenda-se um mínimo de bom-senso. Para preservar o atual presidente e a sua família, optou-se pela disparatada tentativa de enlamear o antecessor e sua família. Dedo no gatilho sempre faz mal ao dedo e, às vezes, produz tiros no pé.

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