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Fidel, fiel

22/02 - 17:47 - Alberto Dines

Renunciar é uma opção que não cabe na alma do ser político. O verbo mantém-se no vocabulário, ajuda na retórica, reaparece em emergências, serve como ameaça, mas na natureza do voluntarismo – é disso que se trata quando examinamos a política como filosofia - não cabe este gesto extremo.

Monarcas abdicam (quase sempre em favor de alguém), executivos demitem-se de cargos (para obter outros), representantes eleitos abrem mão dos mandatos (para logo tentar recuperá-los), crentes podem renegar suas crenças (inclusive para sobreviver, como acontecia na Inquisição), mas a renúncia é opção terminal, precursora do suicídio. Getúlio Vargas renunciou e matou-se, não havia meio termo, a transição entre um gesto e outro deve ter durado minutos.

Fidel Castro não renunciou: apenas trocou o título de comandante-em-chefe pelo de companheiro. Continua como guia, suas reflexões – embora permeadas de rememorações – funcionam como referência para o futuro. “Cuba mudou [em 1959] e seguirá seu rumo dialético" escreveu no “Granma” nesta sexta-feira.

Ficou evidente que o “renunciante” não abre mão da sua vocação missionária e, apesar da alegada fragilidade física tem energia para convocar não apenas seus leitores, mas o seu povo e seus dirigentes para continuar a caminhada iniciada há quase meio século.

Filósofos e cientistas políticos deverão ocupar-se nas próximas semanas com um novo game: qual é o matiz da dialética anunciada por Fidel – platônica, aristotélica, hegeliana ou marxista? Mas o que importa neste momento é compreender a dialética desta “renúncia”: Fidel Castro saiu de cena e roubou a cena.

A questão cubana arrombou a agenda eleitoral americana. O grito de guerra mudancista proclamado por Barack Obama e a aura de experiência exibida por Hillary Clinton não poderão passar ao largo da desumanidade do embargo econômico norte-americano contra Cuba. O bom-mocismo de McCain, agora ligeiramente empanado pelas relações com uma lobista, será obrigatoriamente testado pela inesperada rentrée da questão cubana no debate político americano.

A guerra no Iraque, de certa forma, homogeneizou as postulações dos três mais fortes candidatos à Casa Branca: nenhum deles consegue ser suficientemente diferenciado e afirmativo nesta matéria. Mas a “renúncia” de Fidel lançou a questão cubana na direção dos palanques e dos debates televisivos. Um dos candidatos, talvez o mais desesperado, poderá agarrar a bandeira do fim do embargo e os estrategistas eleitorais até agora ocupados com a imagem decadente do país, a crise imobiliária, a guerra contra o terror, as pesquisas genéticas, aborto, casamento gay e assistência médica, de repente terão que lidar com esta batata quente, quentíssima, que não interessa apenas aos exilados cubanos da Flórida, mas à comunidade latina dos EUA.

Apesar da encenação de renúncia, Fidel será doravante o avalista dos sucessores, a esta altura já escolhidos. O cronograma foi bem pensado e precisamente executado. Revigorado e, de certa forma, restabelecido (contudo limitado pela perda de algumas funções fisiológicas), o ex-comandante-agora-companheiro está perfeitamente apto a supervisionar a transição. Nenhum dos ditadores modernos conseguiu preparar sua sucessão, exceto Fidel.

Nenhum líder mundial contemporâneo conseguiu fazer um percurso tão surpreendente. O guerrilheiro incendiou uma geração, melancolizou outra e agora prepara-se para humanizá-las através de reflexões e textos. Em Sierra Maestra, os jovens idealistas faziam leituras coletivas de clássicos literários, agora o encanecido comandante oferece uma retribuição.

Em busca de metáforas, alguns comparam o líder cubano com D. Quixote, o sonhador alquebrado. Outros com El Cid, o Campeador (ferido e amarrado ao cavalo, ajudou a vencer os mouros no início da Reconquista da Espanha).

Fidel é fiel, nada mais do que isso.





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