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O grande derrotado

12/10 - 17:21 - Alberto Dines

“O poder é transitório”, declamou o protagonista do melodrama suburbano e saiu de cena. Horas depois, na manhã desta sexta-feira, seu colega Aloísio Mercadante escreveu o epílogo: “Ele perdeu as condições de voltar a presidir o Senado”.

Renan Calheiros está ferrado. E não apenas ele: seus asseclas,  gurus, comparsas, sequazes, aliados, visíveis ou disfarçados, saíram muito machucados desta refrega de cinco meses contra o país inteiro.

Apostaram todas as fichas na sobrevivência do coronel-cangaceiro, não perceberam que Renan Calheiros não representa apenas o político oportunista, servidor de muitos patrões, incapaz de separar o interesse público do privado. Como Paulo Maluf há dez anos, o senador alagoano converteu-se em símbolo de coisa ruim. É o Nefasto II.

Prejudicou o grande PAC e os paquinhos,  colocou em risco a prorrogação da CPMF e  forçou o governo a ficar do lado errado – a corrupção – em plena temporada de indiciamento dos mensaleiros. Mercadante dixit e Mercadante, quando está longe dos aloprados, sabe o que diz.

O ostracismo vai ultrapassar os 45 dias, o todo-poderoso agora tornou-se imprestável. A solução é a cicuta: para defender-se,  Renan contará apenas com a compaixão de alguns pares e a compaixão não chega a ser um sentimento eficaz, é dúbia.

Renan deixou de ser o problema-mor, mas escancarou uma sucessão de chagas que precisam ser lancetadas com urgência, caso contrário infectarão o sucessor, o senador Tião Viana, presidente em exercício do Senado. O desempenho de Francisco Escórcio, assessor especial de Renan Calheiros, não pode ser esquecido. Sua disposição de espionar os senadores que contestavam Renan para serem posteriormente chantageados remete a Mesa do Senado aos tempos da ditadura.

Suplente profissional (deputado e senador sem receber um único voto), autêntico cabide de empregos, foi subordinado de Waldomiro Diniz na Casa Civil quando estourou o primeiro escândalo no primeiro mandato do presidente Lula. Rico, influente, vive oferecendo aos jornalistas dossiês sobre inimigos do senador José Sarney cujo gabinete freqüenta assiduamente. O Senado pode livrar-se facilmente deste Escórcio e da escória dos servidores parlamentares à serviço do tiranete de plantão, basta um ato administrativo.

A imperiosa necessidade de punir Escórcio, além de funcionar como desintoxicação institucional, serve para lembrar o lamentável desempenho de José Sarney como artífice da sobrevivência de Renan Calheiros ao longo de quase um semestre. Homem forte do governo, conselheiro privilegiado do presidente da República e confidente do presidente do Senado licenciado,  Sarney foi o responsável pelo alongamento de uma crise que poderia ter sido atalhada em Maio.

A obstinação de Renan ao aferrar-se ao cargo custou-lhe o cargo. Sarney soprou-lhe a opção errada, o mestre da manha e da malandragem, acreditou que o arsenal de poderes à disposição do chefe do Legislativo, seria suficiente para garantir a sua sobrevida.

Renan obedeceu à cartilha de Sarney sem dar-se conta que estava superada: o Brasil de 2002 (quando estourou o escândalo Lunus envolvendo a filha e genro do ex-presidente da República), era diferente do Brasil de hoje.

Em apenas cinco anos a República maturou, tornou-se mais vigilante, as consciências acordaram, os brios foram tirados das gavetas. O orgulho de optar pela decência impôs-se à resignação com a bandalheira. E, para isso, muito contribuiu o próprio caso Renan esticado e magnificado por aqueles que apostam na continuidade da impostura e da hipocrisia.

Além de transitório, o poder exige criatividade, invenção. O mestre  ofereceu inércia ao pupilo. Sarney é  o grande derrotado.





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