publicidade
14/06 - 08:54 - Fausto Sposito, repórter Último Segundo em Manaus
SÃO GABRIEL DA CACHOEIRA (AM) – Com uma área equivalente à de Portugal, o município amazonense de São Gabriel da Cachoeira está entre os cinco maiores do mundo. Localizado junto às fronteiras da Colômbia e da Venezuela, São Gabriel possui um dos menores índices de densidade demográfica do planeta. As Forças Armadas brasileiras, narcotraficantes, organizações não-governamentais e mais de 22 etnias indígenas compartilham este território isolado, em uma tensa dinâmica de coexistência.
O distrito central de São Gabriel da Cachoeira é um dos aglomerados urbanos mais isolados do País. Partindo de Manaus, é possível chegar à cidade em um vôo de cerca de 2h30 sobre a floresta amazônica ou em cerca de três dias de viagem pelo Rio Negro em uma embarcação apropriada. Neste afluente do Rio Amazonas, a cidade representa o limite de navegação para barcos de grande calado e funciona como ponto de partida para os que desejam atingir os 3.014 m de altitude do ponto mais alto do Brasil, o Pico da Neblina.
População indígena
Quase 85% dos cerca de 35 mil habitantes do município é de origem indígena. Esta população se divide em pelo menos 22 etnias distintas catalogadas pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e representados pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN).
Três grupos indígenas predominam entre os moradores do distrito central de São Gabriel: baniwa, baré e tukano.
A lei municipal nº 145 confirmou esta vocação exótica da cidade e instituiu as línguas baniwa, tukano e nheegantu como idiomas oficiais, além do português. Desta maneira, o município tornou-se o único do País com quatro idiomas oficialmente reconhecidos.
De acordo com o texto aprovado em 2002 pela Câmara de Vereadores de São Gabriel da Cachoeira, todos os estabelecimentos públicos da cidade são obrigados a prestar atendimento nos quatro idiomas. Com isso, os concursos públicos também passaram a exigir proficiência em pelo menos uma das línguas indígenas oficiais. As escolas de São Gabriel foram obrigadas a se adaptar à nova lei e grande parte do material didático já se apresenta traduzido para estes idiomas.
Forças Armadas
Por se localizar em uma complexa região fronteiriça, a cidade de São Gabriel da Cachoeira está em uma área de intensa atividade militar. A forte presença das Forças Armadas é a principal referência do Estado brasileiro para os moradores do local. Com um efetivo de quase 2.000 homens, o Exército é uma das instituições mais ativas da cidade e grande parte da economia formal gira em torno dos oficiais que residem na região.
Para o General Antônio Martins Mourão, da 2ª Brigada de Infantaria de Selva, a forte presença das Forças Armadas se justifica pelas zonas de conflito existentes nos países vizinhos e pelo tráfico de drogas. O Brasil possui cerca de 900 km de fronteira com a Colômbia e 600 km com a Venezuela e, de acordo com o general, o Exército mantém quase 500 homens distribuídos em sete pelotões de fronteira nesta região. Mourão ainda demonstrou preocupação com o que ele chamou de “dominação indireta da Amazônia”. Ele considera que as atividades das organizações internacionais que atuam na área devem ser investigadas.
“As FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) não entram (no Brasil) como força organizada, mas como indivíduos”, afirmou ele. Para Mourão, São Gabriel da Cachoeira é, “sem dúvida, uma rota de tráfico”.
Segundo o general, a região funciona como um “gargalo de entrada no País”. Ele disse que o Exército já planeja a construção de mais dois batalhões na região da chamada “Cabeça do Cachorro’, no norte do Estado do Amazonas.
Narcotráfico
Embora o Exército realize constantes patrulhas fluviais e mantenha postos avançados na zona de fronteira, é comum o trânsito de narcotraficantes na região.
De acordo como o próprio General Mourão, as FARC utilizam a cidade de São Gabriel para trocar as drogas por armamento, comida, e outros artigos. Segundo ele, essa droga que entra no País segue para Manaus em pequenas canoas de pescadores.
Mourão afirmou que, em 2006, o Exército chegou a entrar em confronto direto com traficantes no interior de selva. Ele explicou que com a aprovação da chamada Lei do Abate, “o tráfico buscou novas rotas terrestres”.
Organizações não-governamentais
A forte presença de organizações não-governamentais financiadas com capital estrangeiro também gera muita polêmica no Estado do Amazonas.
Atuando há mais de dez anos na região, o Instituto Sócioambiental (ISA) é uma organização que trabalha com comunidades indígenas espalhadas pela região do Alto Rio Negro, no Amazonas, e Médio Xingu, no Mato Grosso.
De acordo com um relatório publicado no aniversário de 10 anos do instituto, a ONG foi “fundada para propor soluções integradas para questões sociais e ambientais”. Entre os objetivos do ISA estão “a proteção dos bens públicos e direitos coletivos relacionados ao meio ambiente, herança cultural, direitos humanos e direitos das pessoas”. Organizações religiosas européias prestam suporte institucional ao ISA, que desenvolve na cidade de São Gabriel um projeto de inclusão digital da população.
(À convite da Universidade Anhembi Morumbi, Fausto Spósito integra a Expedição Brasil-Amazônia, promovida pela Rede Record)
Leia também:
Publicidade