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Qual dos dois filhos de Lula precisa mais do pai?

18/01 - 12:29 - Franklin Martins



É muito pouco provável que o deputado tucano Gustavo Fruet, cuja candidatura será confirmada pelo PSDB na próxima terça-feira, ganhe força bastante a ponto de disputar efetivamente a presidência da Câmara. Arlindo Chinaglia, do PT, continua franco favorito e, se a eleição for para segundo turno, seu adversário será Aldo Rebelo, do PCdoB.

Ou seja, qualquer que seja o desfecho do confronto, o próximo presidente da Câmara será um parlamentar da base governista. No entanto, Lula não tem motivos para soltar foguetes. Afinal, desde o início do processo, estava claro que a oposição não teria cacife para impedir a vitória de um aliado do governo e que eram nulas as chances de um azarão, como Severino Cavalcanti, atropelar por fora e vencer a corrida. Com Lula revigorado por uma expressiva vitória nas urnas e com a entrada do PMDB para o governo, o Palácio do Planalto estava com a faca e o queijo nas mãos.

Assim, a vitória governista já estava escrita nas estrelas. O que estava em jogo é se a eleição para a presidência constituiria um momento de afirmação da coalizão governista, reforçando-a para batalhas posteriores, ou se, ao contrário, ela esgarçaria a aliança, debilitando sua capacidade de ação. Está claro que prevaleceu a segunda hipótese.

Basta ler as declarações dos principais dirigentes do PCdoB e do PSB para se dar conta de que o ressentimento dos dois partidos é fortíssimo. Aldo Rebelo é um pote até aqui de mágoa. Com ou sem razão, ele acha que Lula não foi correto com ele. Estimulou-o a disputar a presidência da Câmara, disse que o apoiaria, deu a entender que faria Chinaglia desistir, mas, depois, não mexeu um dedo. Ao contrário, lavou as mãos. Na prática, tirou a escada, deixando Aldo pendurado na brocha.   Resultado: socialistas e comunistas sentem-se desprestigiados pelo presidente e atropelados pela aliança entre o PT e o PMDB. 

É claro que petistas e pemedebistas têm outra apreciação dos fatos. Para eles, Aldo foi arrogante no processo. Confiante de que o apoio do presidente liquidaria a parada, atropelou o PT, não se preocupando em construir junto com ele uma candidatura única. E, em seguida, atropelou também o PMDB, ao fechar um entendimento com o PFL antes de ter esgotado as negociações dentro da base governista. 

Seja como for, a coalizão governista sairá dividida da disputa e atravessada por ressentimentos. É o tipo de caldo de cultura em que se cozinham as crises políticas. Teria sido muito melhor se Lula e os articuladores políticos do governo tivessem costurado um amplo processo de entendimento dentro da coalizão que cimentasse o surgimento de uma candidatura única. Ainda que houvesse descontentamentos, a disputa não teria ido tão longe e seria mais fácil lamber as feridas. 

Lula, porém, mais uma vez, acreditou que o tempo resolveria o problema que era dele, Lula. Não resolveu, apenas agravou-o. Agora é tarde. Como disse com propriedade o presidente do PCdoB, Renato Rabelo, o gênio já saiu da garrafa. O estrago da divisão está feito. 

Diante disso, não basta o presidente dizer que Aldo e Chinaglia são como dois filhos e que aposta na conciliação. Não se trata de conciliação. Essa fase já ficou para trás. O fato é que um dos filhos caminha para a vitória e o outro para uma derrota em que se julga, certo ou errado, abandonado pelo pai. Esse tipo de amargura costuma envenenar as melhores famílias. Daqui a duas semanas, um dos dois filhos estará cercado por amigos na vitória. O outro se sentirá um órfão na derrota. É evidente que um deles precisará mais do pai do que o outro. 

Lula e Aldo precisam ter uma conversa franca antes que seja tarde demais.     

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