OLIMPÍADAS ANTERIORES

ATENAS

Cidade do México-1968 |
de 12 a 27 de outubro

  • Países participantes:112
  • Atletas masculinos:4735
  • Atletas femininos:781
  • Total de atletas participantes:5516
  • Modalidades disputadas:20

1968, a Olimpíada que nem começou

Numa época em que os livros de Geografia ainda separavam a Humanidade em três mundos sem risco de soarem politicamente incorretos, os dois de cima precisaram, incoerentemente, subir 2300 metros para descobrir o que havia lá embaixo, no Terceiro Mundo. Quando os Jogos Olímpicos foram à América Latina pela primeira vez – e até hoje única -, foi como se muita gente desembarcasse em outro planeta. Não bastassem as diferenças sociais, ainda havia mais o que estranhar: nunca a Olimpíada havia sido disputada num lugar tão acima do nível do mar como a Cidade do México.

Com 30% menos de oxigênio na atmosfera, as conseqüências eram extremas: de um lado, quem percorria longas distâncias morria de cansaço. Do outro, as provas que dependiam de velocidade foram uma festança de recordes mundiais: o atletismo masculino melhorou suas marcas em todas as corridas de até 400m, incluindo revezamentos, e nos saltos em distância e triplo.

Mas, honestamente, quem se importava com os recordes mundiais que eram ou não batidos no México? Não que os Jogos não tenham dado outro passo adiante em termos de repercussão: foram 45 horas de transmissão ao vivo e em cores para mais de 400 milhões de pessoas no mundo todo. Só que 1968 tinha razões melhores para se preocupar – e para se tornar “o ano que não terminou”.

A Guerra do Vietnã estava no auge, e a China, pululando com a Revolução Cultural. Enquanto os checos levavam chumbo em sua Primavera de Praga, Paris apontava para greve geral e começo de revolução em seu maio mais famoso. Martin Luther King Jr. foi assassinado nos EUA, e até no México, dez dias antes da cerimônia de abertura, uma manifestação terminou no Massacre de Tlateloco. Enfim, não estava fácil para alienado nenhum colocar o esporte acima de qualquer coisa.

No Brasil, a maior contribuição para a interminabilidade do ano ainda estava por vir: foi na sexta-feira, 13 de dezembro, que o General Costa e Silva liberou geral e deu cara, nome e sigla para nossa ditadura. Também nós estávamos ocupados demais alcagüetando subversivos ou escondendo comunistas no porão para celebrar nossas três medalhas: a prata de Nelson Prudêncio no salto triplo e os bronzes do pugilista peso mosca Servílio de Oliveira e dos iatistas Reinald Conrad e Bukhard Cordes, na classe flying dutchman.

A Olimpíada mal sabia, mas os conflitos políticos estavam apenas começando a eclipsar completamente o que acontecia no âmbito esportivo.


  • Classificação Final
  • Medalha de Ouro
  • Medalha de Prata
  • Medalha de Bronze
  • TOTAL
  • 1Estados Unidos
  • 45
  • 28
  • 34
  • 107
  • 2URSS
  • 29
  • 32
  • 30
  • 91
  • 3Japão
  • 11
  • 7
  • 7
  • 25
  • 4Hungria
  • 10
  • 10
  • 12
  • 32
  • 5Alemanha Oriental
  • 9
  • 9
  • 7
  • 25
  • 6França
  • 7
  • 3
  • 5
  • 15
  • 7Checoslováquia
  • 7
  • 2
  • 4
  • 13
  • 8Alemanha Ocidental
  • 5
  • 11
  • 10
  • 26
  • 9Austrália
  • 5
  • 7
  • 5
  • 17
  • 10Grã-Bretanha
  • 5
  • 5
  • 3
  • 13

Veja o quadro geral de todas as Olimpíadas


Fogo na pira! | 10 fatos que marcaram aqueles Jogos
  • 01
  • Com a altitude impulsionando, a disputa do salto triplo foi uma das mais emocionantes da história. O recorde mundial foi quebrado cinco vezes, por três atletas diferentes: o russo Viktor Saneyev, o italiano Giuseppe Gentile e nosso Nelson Prudêncio, cujos 17,27m só foram superados pelos 17,39m de Saneyev.
  • 02
  • Os Jogos mexicanos foram marcantes para as mulheres: a velocista Enriqueta Basilio recebeu a tocha olímpica – que havia partido da Espanha e percorrido toda a rota de Cristóvão Colombo – e se tornou a primeira mulher a acender a pira na cerimônia de abertura. Foi também a primeira vez que houve testes de feminilidade: nenhuma competidora foi reprovada.
  • 03
  • Após competirem unidas em 1964, as duas Alemanhas, Ocidental e Oriental, formaram delegações separadas. Os comunistas só adotariam seu nome oficial, República Democrática Alemã, na Olimpíada seguinte, em Munique.
  • 04
  • A tecnologia também ganhou terreno: a pista de atletismo deixou de ser de terra para passar a ser feita do material sintético conhecido como tartan. Os exames médicos também avançaram e levaram ao primeiro teste anti-doping positivo: o sueco Hans-Gunnar Liljenwall, do pentatlo moderno, foi desclassificado por uma razão cotidiana, o bom e velho excesso de álcool.
  • 05
  • Não estranha que a imagem mais famosa dos Jogos tivesse mais de política do que de esporte: ouro e bronze nos 200m rasos, os norte-americanos Tommie Smith e John Carlos, negros, subiram ao pódio com brasões do “Projeto Olímpico pelos Direitos Humanos” – movimento que defendia o boicote dos negros aos Jogos para chamar atenção para o racismo. Durante o hino norte-americano, os velocistas baixaram as cabeças e levantaram o punho com luvas negras: a saudação Black Power.
  • 06
  • O COI, que acha mais ou menos absurda a mistura de política e esporte, segundo a ocasião, baniu Smith e Carlos dos Jogos Olímpicos de forma vitalícia. O australiano Peter Norman, medalha de prata na prova, abraçou a causa e também usou o brasão do “Projeto Olímpico pelos Direitos Humanos” no pódio. Por causa disso, acabou afastado de Munique-1972 pelo comitê olímpico da Austrália. Após passar por uma depressão e um sério problema de alcoolismo, Norman morreu em 2006. No funeral, os companheiros de pódio Smith e Carlos estavam entre os que seguraram o caixão.
  • 07
  • A atleta de mais destaque em 1968 também tinha história política para contar: vencedora de quatro medalhas em Tóquio-1964, a ginasta checoslovaca Vera Caslavska era favorita para brilhar novamente. Seis meses antes dos Jogos, ela assinou o “Manifesto das 2000 Palavras” contra a presença soviética em seu país. Diante do risco de ser presa, precisou fugir para as montanhas, onde continuou os treinos se agarrando de árvore em árvore e praticando o exercício de solo num descampado. Autorizada pelo governo a voar para o México na última hora, ela levou 4 medalhas de ouro e duas de prata – e ainda encontrou tempo para se casar, numa catedral mexicana, com o velocista Josef Odlozil. Atitudes como a de virar o rosto durante a execução do hino soviético nas entregas de medalhas fizeram de Caslavska persona non grata em seu país e a levaram ao exílio no México até o fim da década de 80.
  • 08
  • Quebrar recorde é uma coisa, outra é o que fez o norte-americano Bob Beamon no salto em distância. Seu primeiro salto foi tão longe que o aparelho óptico de medição não alcançou: os juízes precisaram usar uma protocolar fita métrica para constatar os 8,90m. Beamon, que como todo bom norte-americano não entendia patavina de sistema métrico, fez cara de interrogação. Quando lhe contaram que aquilo eram 29 pés e duas polegadas e meia, o homem quase desmaiou de emoção e incredulidade. Em 33 anos, o recorde mundial havia avançado 22cm. Em alguns segundos, Bob acrescentou outros 55cm à marca! O recorde permaneceria durante 23 anos, até que Mike Powell o superasse em 1991.
  • 09
  • Mais Estados Unidos imperando na pista: Al Oerter se tornou o primeiro nome do atletismo a vencer a mesma prova quatro vezes. Ele lançou o disco mais longe que todos entre 1956 e 68. Quando decidiu voltar a competir, em 1980, tinha outra vez a melhor marca do ano, mas o boicote dos EUA à Olimpíada de Moscou acabou com suas chances. Além dele, Dick Fosbury também revolucionou sua modalidade e arrancou um esbaforido “olé” da galera mexicana. O medalha de ouro foi o primeiro a executar o salto em altura com as costas para o sarrafo – método que passou a levar seu nome e que se tornou a praxe.
  • 10
  • A série de nomes famosos no boxe continuou. Nos tempos em que ainda nem imaginava o melhor método para grelhar filés de frango com menos gordura, George Foreman conquistou a medalha de ouro, seguindo o que já haviam feito Cassius Clay em 1960 e Joe Frazier em 1964.
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