19/08 - 08:20hs

Distribuição de camisinhas é tabu para Comitês Olímpicos na China

Falar sobre camisinha e anticoncepcional é “assunto delicado” para chineses. Já o aborto é prática livre e fácil

Nara Alves, enviada especial do iG

 

PEQUIM (China) – Mais de 100 mil camisinhas foram disponibilizadas para os cerca de 10.500 atletas, mas o acesso a elas pode ser desestimulante de tão burocrático. Para um atleta achar um preservativo na Vila Olímpica, em Pequim, ele precisa procurar o centro médico. Lá, se ele perguntar, receberá um panfleto com informações sobre Aids. Dentro, bem discretamente, encontrará duas unidades.

Divulgação
"Camisinha olímpica"
Ao contrário do que houve nos Jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro, em 2007, não há distribuição explícita de preservativos na China. “Tanto no Pan como nas outras Olimpíadas eu sempre vi a distribuição, mas aqui, não”, conta Christian Dawnes, do Comitê Olímpico Brasileiro.  “Eu não vi nenhuma distribuição na Vila”, reforça o presidente da Confederação Brasileira de Ciclismo, José Luiz Vasconcelos.

Desde Barcelona, em 1992, os organizadores oferecem preservativos aos atletas. Nos Jogos de Sydney, as 50 mil camisinhas distribuídas na Vila se esgotaram a cinco dias do encerramento, e o fornecedor teve de oferecer outras 20 mil. Em Atenas, 130 mil camisinhas foram distribuídas.

Em Pequim, o Comitê Olímpico Internacional (COI) não sabe informar quantas camisinhas já foram retiradas no centro médico. Ao ser questionado sobre isso, o assessor de imprensa perguntou ao chefe do departamento: “o que fazemos com essa pergunta?”. Como resposta, a reportagem do iG obteve um pedido de desculpas. “É difícil porque é uma questão delicada”, justificou o COI.

A resposta do Comitê Organizador para a mesma pergunta também é negativa. “Não fazemos idéia”, disse a assessora, entregando à reportagem um formulário para ser encaminhado à diretoria do Comitê. A resposta pode levar até três dias. Se ela vier.

Camisinha e pílula são tabus. Aborto, não
Para a presidente da Associação de Brasileiros em Pequim, Raquel Martins, que vive, estuda e trabalha há mais de 30 anos na China, a dificuldade em falar sobre preservativos nos Jogos Olímpicos é reflexo do tabu que existe na cultura chinesa. “Aqui, a questão sexual não é discutida. No dia a dia não se vêem lugares que vendam camisinhas em exposição ou em banheiros públicos”, explica.

Raquel é formada em Língua e Literatura Chinesa pela Universidade de Pequim e presta consultoria para empresas que tenham dificuldade em lidar com as diferenças culturais com a China. “Há 30 anos, quem tinha relação sexual antes do casamento podia ser condenado e preso. Homossexualismo era proibido. A pessoa era expulsa da família”, lembra.

A consultora acredita que até mesmo o uso de pílula contraceptiva não seja um hábito na China. “As mulheres tomam pouca pílula porque não é difundida a idéia. Os chineses ainda têm a idéia de que remédios ocidentais podem fazer mal à saúde”, considera.

Quando uma mulher fica grávida sem querer, é comum que ela interrompa a gestação. “O aborto é livre e fácil porque o conceito dos chineses é diferente do nosso. Eles não são cristãos. Para eles, o aborto não está relacionado com castigo. A mulher não se sente tão mal como no Brasil. Em qualquer hospital se faz. É um preço acessível”, explica.

Jeitinho brasileiro
A professora de português Tárcila Borges, residente em Pequim, se adaptou à pílula chinesa. Tárcila era acostumada com a pílula brasileira Diane 35. Como não encontrava a marca na capital chinesa, ela procurou a fórmula na internet, foi atrás de uma médica da universidade que freqüenta e conseguiu a receita de um remédio similar, chinês.

Já a estudante de chinês Paula Coruja, que mora há oito meses em Pequim, conta que é muito difícil encontrar uma farmácia que venda remédios ocidentais, aos quais ela está acostumada. Por isso, ela depende da ajuda de amigos que visitam o país para manter seu estoque de pílulas anticoncepcionais abastecido. “Quando eu vim, tinha a previsão de ficar um ano. Então, trouxe pílula para este período. Como vou estender minha estadia, agora peço pra quem vem trazer pra mim”, diz.

Paula explica que não fez o mesmo que Tárcila por não estar acostumada a mudanças na medicação. “Fiquei com medo de não me adaptar”, justifica. Por enquanto, com o aumento do número de amigos que vieram a Pequim por conta da Olimpíada, o estoque de Paula está garantido até meados de 2009.

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