19/08 - 08:20hs
Distribuição de camisinhas é tabu para Comitês Olímpicos na China
Falar sobre camisinha e anticoncepcional é “assunto delicado” para chineses. Já o aborto é prática livre e fácil
Nara Alves, enviada especial do iG
PEQUIM (China) – Mais de 100 mil camisinhas foram disponibilizadas para os cerca de 10.500 atletas, mas o acesso a elas pode ser desestimulante de tão burocrático. Para um atleta achar um preservativo na Vila Olímpica, em Pequim, ele precisa procurar o centro médico. Lá, se ele perguntar, receberá um panfleto com informações sobre Aids. Dentro, bem discretamente, encontrará duas unidades.
| Divulgação |
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| "Camisinha olímpica" |
Desde Barcelona, em 1992, os organizadores oferecem preservativos aos atletas. Nos Jogos de Sydney, as 50 mil camisinhas distribuídas na Vila se esgotaram a cinco dias do encerramento, e o fornecedor teve de oferecer outras 20 mil. Em Atenas, 130 mil camisinhas foram distribuídas.
Em Pequim, o Comitê Olímpico Internacional (COI) não sabe informar quantas camisinhas já foram retiradas no centro médico. Ao ser questionado sobre isso, o assessor de imprensa perguntou ao chefe do departamento: “o que fazemos com essa pergunta?”. Como resposta, a reportagem do iG obteve um pedido de desculpas. “É difícil porque é uma questão delicada”, justificou o COI.
A resposta do Comitê Organizador para a mesma pergunta também é negativa. “Não fazemos idéia”, disse a assessora, entregando à reportagem um formulário para ser encaminhado à diretoria do Comitê. A resposta pode levar até três dias. Se ela vier.
Camisinha e pílula são tabus. Aborto, não
Para a presidente da Associação de Brasileiros em Pequim, Raquel Martins, que vive, estuda e trabalha há mais de 30 anos na China, a dificuldade em falar sobre preservativos nos Jogos Olímpicos é reflexo do tabu que existe na cultura chinesa. “Aqui, a questão sexual não é discutida. No dia a dia não se vêem lugares que vendam camisinhas em exposição ou em banheiros públicos”, explica.
Raquel é formada em Língua e Literatura Chinesa pela Universidade de Pequim e presta consultoria para empresas que tenham dificuldade em lidar com as diferenças culturais com a China. “Há 30 anos, quem tinha relação sexual antes do casamento podia ser condenado e preso. Homossexualismo era proibido. A pessoa era expulsa da família”, lembra.
A consultora acredita que até mesmo o uso de pílula contraceptiva não seja um hábito na China. “As mulheres tomam pouca pílula porque não é difundida a idéia. Os chineses ainda têm a idéia de que remédios ocidentais podem fazer mal à saúde”, considera.
Quando uma mulher fica grávida sem querer, é comum que ela interrompa a gestação. “O aborto é livre e fácil porque o conceito dos chineses é diferente do nosso. Eles não são cristãos. Para eles, o aborto não está relacionado com castigo. A mulher não se sente tão mal como no Brasil. Em qualquer hospital se faz. É um preço acessível”, explica.
Jeitinho brasileiro
A professora de português Tárcila Borges, residente em Pequim, se adaptou à pílula chinesa. Tárcila era acostumada com a pílula brasileira Diane 35. Como não encontrava a marca na capital chinesa, ela procurou a fórmula na internet, foi atrás de uma médica da universidade que freqüenta e conseguiu a receita de um remédio similar, chinês.
Já a estudante de chinês Paula Coruja, que mora há oito meses em Pequim, conta que é muito difícil encontrar uma farmácia que venda remédios ocidentais, aos quais ela está acostumada. Por isso, ela depende da ajuda de amigos que visitam o país para manter seu estoque de pílulas anticoncepcionais abastecido. “Quando eu vim, tinha a previsão de ficar um ano. Então, trouxe pílula para este período. Como vou estender minha estadia, agora peço pra quem vem trazer pra mim”, diz.
Paula explica que não fez o mesmo que Tárcila por não estar acostumada a mudanças na medicação. “Fiquei com medo de não me adaptar”, justifica. Por enquanto, com o aumento do número de amigos que vieram a Pequim por conta da Olimpíada, o estoque de Paula está garantido até meados de 2009.
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