18/08 - 15:41hs
A China quer ser sexy
Acompanhamos as chinesas que fazem aula de dança no poste, ou o famoso “pole dance”
Nara Alves, enviada especial do iG
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PEQUIM (China) - Para achar a sala de aula é preciso ir até o último andar do prédio e subir mais quatro lances de escada. Como eu estava alguns minutos atrasada, já cheguei lá cansada. As paredes são de um tom vermelho-escuro, cheias de espelhos que vão do chão ao teto, multiplicando o número de postes ao infinito.
Até entrar naquela sala, meu conhecimento sobre dança do poste se restringia às cenas a que assisti na televisão da atriz global Flávia Alessandra, como a Alzira de "Duas Caras", que fez o maior sucesso no Brasil. Nem me passava pela cabeça que a dança nasceu nos clubes de strip-tease do Canadá na década de 80 (há versões mais glamurosas sobre a origem da dança no período Vitoriano e outras que garantem que é um ritual de fertilidade indiano do século 12).
As cenas da Alzira eram tão picantes que a Globo teve de maneirar na exposição da atriz por causa do horário da novela e a personagem ficou um bom tempo sem dançar. Nada a ver com a minha aula. Eu nunca me senti tão pouco sexy.
Antes do início da aula, fui ao vestiário onde as meninas tiram seus chinelos tipo “Rider”, calçam suas botas salto-agulha que vão até a coxa, vestem o mini-shorts com a logomarca da escola e sobem a blusa para deixar a barriga de fora. Nas ruas de Pequim, nenhuma mulher mostra o umbigo. Na aula de dança do poste, é item quase obrigatório. Tatuagens e piercings ficam à mostra.

A professora Wang Xin Jie lidera as alunas (Foto: Victor Boyadjian)
Passo a passo
O hip-hop começa a tocar e a turma se posiciona. Eu fico ao lado da professora Wang Xin Jie, entre o poste e o intérprete que acompanhou a aula. “Ela falou pra você acompanhar os passos”, orienta ele. Apesar de a frase não ter graça nenhuma, dei risada... Estava morrendo de vergonha! Mas minhas colegas de classe estavam tão sérias que logo me concentrei e me forcei a seguir a seqüência de rebolados, caras e bocas.
Aos poucos, o trabalho do intérprete, o Victor Boyadjian, que também tirou as fotos, foi sendo dispensado. “Dui, dui (certo, certo)”, dizia a professora o tempo todo. Na quinta repetição, até que meus movimentos começaram a se coordenar com o das outras alunas. “Agora mais rápido”, traduziu Boyadjian e se retirou da sala.
Dança sexy tem menos graça em forma de texto. Bom mesmo é ao vivo. Mesmo assim, vou tentar descrever a seqüência que eu aprendi nesta minha primeira e única aula de dança do poste. É mais ou menos assim: passa a mão na coxa, na barriga, no peito, sobe e aponta pro teto. A outra mão fica na cintura. Depois, a cabeça tem que mexer para o lado sem mexer os ombros, no ritmo da música. Na seqüência, vira-se à esquerda e remexe até o chão, como uma minhoca. Depois tem que subir. Primeiro a bunda, depois a cabeça. Dá pra imaginar? Dui, dui!
Próximo desafio: escalar o poste. As chinesinhas atrás de mim, com uns 10 quilos a menos que eu, pernas mais finas e ágeis, nem precisavam segurar com as mãos. Enroscavam-se no poste com uma perna só e continuavam os movimentos dos braços como se estivessem em solo firme.
As chinesas
| Nara Alves, do Último Segundo |
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| A mais nova, com 16 anos |
A mais graciosa era Yanxi Kim, de 16 anos, a mais nova da turma, que estava acompanhada da mãe. "Faço mais de uma aula por dia porque gosto muito de dançar", conta.
No total, éramos 10. "Tenho mais de 50", revelou uma das alunas, que não quis dar entrevista ou ser fotografada. As demais, mais desinibidas, pediram para tirar foto com o Boyadjian. "Você é muito bonito", elogiou uma delas. Já a adolescente Yanxi não tirava os olhos da professora.
Wang Xin Jie, a professora, é dançarina profissional. Graduou-se em dança após 4 anos de estudo em outra província chinesa. Ela ensina mais de 50 pessoas a dançar no poste todos os dias na escola Lolan Pole, em Pequim. “Tenho muitos alunos homens também”, gaba-se. "E são homens que gostam de mulheres", complementa. Desde que a escola foi fundada, há seis anos, mais de 1.000 alunos passaram por aquela sala.
“Em dois ou três meses você seria professora”, garante Wang. Não foi um elogio. O curso de formação tem essa duração para todos os que ali ingressam. No entanto, poucas alunas se tornam dançarinas profissionais. “A maioria está aqui porque gosta do estilo e para depois se destacarem dançando nas festas”, explica.
Ao final da aula, algumas foram se pesar. Preferi recuperar o fôlego e fui beber três copos d’água.
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