27/06 - 11:16hs

Brasileiros levam festa junina, samba e feijoada para a terra da Olimpíada
Samba, festa junina e a tradicional feijoada são fortes indicadores do intercâmbio cultural entre brasileiros e chineses na terra dos Jogos Olímpicos

Por Mariana Canedo, enviada especial do iG


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PEQUIM (China) – A cultura verde-amarela vem ganhando cada vez mais adeptos em Pequim. Os brasileiros que decidem conhecer ou morar na cidade, após um inevitável choque cultural inicial, acabam se sentindo em casa. Já se pode sambar, ir a festa junina, ouvir música brasileira em bares e até comer feijoada na capital chinesa.

Na última quarta-feira, dia 25, o grupo Sambasia se apresentou em uma casa de shows no bairro de Nanluoguxiang. E quem assistiu pôde sentir o impacto que a cultura brasileira vem causando na vida dos integrantes dessa banda, fundada pelo americano de descendência filipina Jimmy Biala e pelo chinês Leon Lee, em 2002, em São Francisco, Califórnia. Lee nasceu em Taiwan, mas passou a vida toda na Califórnia, até voltar para a China, em 2004, formado em Língua Chinesa pela Universidade de São Francisco. Biala, por sua vez, estudou percussão, em Cuba e no Brasil, e música, nos Estados Unidos. 

Em 2006, após se encontrarem em Pequim, passaram a promover oficinas para ensinar aos chineses técnicas de percussão, canto e dança e começaram a levar os alunos para fazer shows, como prêmio pelo aprendizado. O repertório da banda consiste em músicas da banda baiana Olodum e sambas-enredo de escolas do Rio de Janeiro. Os alunos que não chegaram à fase das apresentações comparecem às aulas uma vez por semana, enquanto os que participam dos shows fazem dois ensaios semanais.

Mariana Canedo
Sambasia: uma escola que ensina os chineses a sambar
 

Além de Biala, somente mais três integrantes do Sambasia não são chineses: as cantoras Camila Nasr (Canadá), Yara Sharon (Israel) e Mai Akamatsu (Japão). Os fundadores explicam o motivo de haver poucos alunos de outras nacionalidades aprendendo no Sambasia. "Nós não divulgamos as aulas em revistas de língua inglesa em Pequim, pois nossa proposta é apresentar a experiência do samba aos chineses. Foi por isso que resolvemos não ir para o Carnaval da Bahia no início deste ano, para que os chineses do grupo tivessem a chance de conhecer e sentir a energia da música que estão reproduzindo", diz Biala, que entre 1996 e 2006 fez cinco visitas ao Brasil, passando pelo Rio de Janeiro e Salvador.

Em março deste ano, a Embaixada do Brasil em Pequim conseguiu patrocínio para levar alguns integrantes do Sambasia para a Bahia, para se apresentarem no Carnaval de Salvador junto com o Olodum. Os fundadores, ambos portadores de passaportes americanos, decidiram não ir. Lee, que não conhece o Brasil, explicou o motivo que fez com que ele e Biala abrissem mão da oportunidade em benefício de alguns alunos.

"É mais fácil para mim, que assim como o Jimmy também tenho passaporte americano, ir ao Brasil em uma outra chance, do que para os alunos chineses. A maioria dos que foram sequer já haviam saído do país. Prefiro que um aluno nosso que se dedica 80% às aulas tenha a chance de conhecer a cultura brasileira e passe a se dedicar 100%, do que eu, que já faço tudo que posso e vou continuar fazendo, independentemente de quando terei a chance de conhecer o país", destaca.

Mariana Canedo
O restaurante Alameda e um almoço brasileiro de quartas-feira

E como não poderia deixar de ser, os brasileiros também fazem a sua parte para promover o intercâmbio entre Brasil e China. No Arraiá do Brapeq (Brasileiros em Pequim), que começou às 17h do sábado, dia 21 de junho (horário local), havia barraquinhas com doces e salgados típicos de festa junina, como cocada, pé de moleque, bolo de fubá, pão de queijo, pipoca, empadas e cachorro-quente. Além disso, a decoração, a quadrilha e o correio elegante davam um toque especial. No final, chineses, brasileiros e estrangeiros de outros países, embalados por capirinhas e cerveja gelada, caíram no forró até as 23h. 

Para participar, as pessoas deveriam levar produtos de higiene pessoal para serem doados às vítimas do terremoto em Sichuan. Na entrada, os itens eram deixados em caixas. N no final do evento, foram contabilizados 45kg de produtos para serem enviadas ao local mais afetado pelo terremoto que atingiu a China no mês passado.

A presidente da Associação, Raquel Martins, que mora em Pequim há 15 anos, contou como surgiu a idéia de criar o grupo e de fazer da festa junina sua marca. "Nós fazíamos jantares anuais. Foi em um desses jantares, em janeiro de 2007, que consolidamos a idéia do grupo, para nos reunirmos e comemorarmos nossas festas e costumes, mantendo os laços com nosso país. Além disso, nos reunindo podemos conhecer melhor a China e mostrar um pouco do Brasil ao povo chinês. Esta foi nossa segunda festa junina, e escolhemos este como nosso evento principal porque realmente implica a participação da comunidade", explica.

Mas se engana quem pensa que a presença brasileira em Pequim é coisa recente. A advogada Therezinha Batista, 63 anos, que já morou em Pequim por mais de dez anos e hoje mora em Curitiba, conta como organizou a primeira festa junina pequinesa. "Eu trabalhava para a União em 92, e junto com outros amigos daquela época, como o Daniel (dono do restaurante Alameda, que fica em Sanlitun), nos juntamos para fazer a festa. Eu tinha uma amiga brasileira que era casada com um conselheiro da Embaixada da Dinamarca. O Embaixador viajou e nós fizemos a festa lá na Embaixada. Fizemos cocada, pamonha, pé de moleque, colocamos forró e saiu tudo do nosso bolso. Cada um deu sua contribuição e foi um barato. A cidade mudou muito desde aquela época", conta, divertindo-se.

Já o venezuelano Daniel Aldanha e o chef de cozinha Valdemir Augusto, o "Paraíba", brasileiro da cidade de Cajazeiras, são os encarregados de ajudar os estrangeiros a matar a saudade do tempero ocidental. No restaurante Alameda, em Sanlitun, pode-se apreciar um cardápio com temperos bem mais amenos que os usados pelos chineses na culinária local. Um dos carros-chefe do restaurante é a feijoada de sábado, que nunca sobra e para a qual é bom deixar uma mesa reservada.

Curioso observar que todos os cozinheiros comandados por Paraíba são chineses. "Eles sabem picar os alimentos como ninguém, mas deu trabalho para que aprendessem a dosar o tempero. Os chineses têm o costume de exagerar no sal, na pimenta, nos condimentos de um modo geral, então tem que ficar de olho. Mas gostam de fazer tudo bem feito, são perfeccionistas, e depois que aprendem são excelentes", destaca.

Durante os Jogos Olímpicos, o Alameda ficará aberto das 11h da manhã à 0h. A Brapeq manterá seus encontros mensais de final de tarde, ou "happy-hours", em julho e agosto, no O.T Lounge, bar onde pode-se ouvir e assistir a shows de bossa-nova e MPB. A entidade ainda estuda a possibilidade de reunir brasileiros para assistir às competições mais populares em um telão durante a Olimpíada. Já o Sambasia tem dois show marcados para o mês de julho, nos dias 19 e 26, mas ainda não tem nada confirmado para agosto, mês em que, segundo Leon Lee, haverá um controle maior do governo em relação às apresentações populares, a fim de prevenir manifestações de cunho político como as ocorridas nos últimos meses.

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