24/08 - 07:12hs

Em silêncio, Bernardinho assume papel de coadjuvante
Treinador prefere não falar na coletiva, mas diz que vai estudar se segue ou não à frente da seleção

Fábio Sormani, enviado especial do iG


Bernardinho chegou atrasado para a entrevista coletiva protocolar preparada pela organização dos Jogos Olímpicos. Conversava, até então, com repórteres de televisão do Brasil.

Quando chegou, sentou-se ao lado do técnico dos EUA, Hugh McCutcheon, na verdade um nativo da Nova Zelândia. Não disse nada a ele; já tinha dito na quadra, quando cumprimentou-o pela vitória e pelo ouro olímpico.

Passaram-se alguns minutos, e Bernardinho virou-se para McCutcheon e disse:

“Este é o seu momento, sou apenas um coadjuvante”.

Não abriu a boca na coletiva – até porque os repórteres brasileiros, como praxe, nada perguntam na entrevista coletiva protocolar. Deixam para falar em particular, se é que pode haver privacidade em uma entrevista coletiva.

Na única vez em que foi convocado a falar, foi rápido. Nem parecia o Bernardinho falador que todos conhecemos. Como ele mesmo disse, aquele era o momento dos EUA.

Infelizmente para ele, para o grupo e para todo o Brasil, nossa seleção foi derrotada. E ele, que nos últimos oito anos foi o ator principal daquela cena vista por jornalistas do mundo inteiro, tornou-se, usando suas próprias palavras, um coadjuvante.

Perguntei a ele como é que ele se sentia estando agora do outro lado. “Muito bem”, disse-me ele. Aproveitou para citar um livro do ex-enxadrista Garry Gasparov, intitulado “Como a Vida Imita o Xadrez”, onde ele fala coisas que mostram que a vida de todos nós é muito igual.

“Ele conta uma passagem em que uma pessoa pergunta a ele o que ele faz quando acorda. E ele respondeu: escovo os dentes”, contou Bernardinho. “O que quero dizer é que a vida continua. Se eu chegar ao Brasil e não levar um presente para a minha filha, ela vai me cobrar; se eu deixar uma toalha molhada na cama, a minha mãe vai cobrar. A vida continua”.

De fato, continua, mas poderia seguir um rumo melhor se tivesse vindo a medalha de ouro. Não veio. “Mas me orgulho muito da prata”, disse ele. Discurso decorado? Eu acho que sim. Conheço Bernardinho há muito tempo. Sei que ele não entra em um projeto para perder. Subiu no pódio, mas não foi no topo, como ele queria.

Por não ter conseguido isso, falou várias vezes, na conversa com os jornalistas, que deve ficar no comando da seleção. Bernardinho não é do tipo de deixar um trabalho pela metade.

Não diria que o que realizou até agora é apenas a metade de seu projeto, mas o fato de não ter conquistado o ouro desta vez, ao contrário do que aconteceu em Atenas-04, espeta o seu ego. “Temos que ter a humildade de, neste momento, olhar o jogo dos EUA e ver o que eles fizeram a mais do que nós para terem ficado com o título”, disse o treinador brasileiro, numa clara demonstração de sua disposição em continuar no comando da seleção. “Muitos nos olharam nesses últimos quatro anos; agora é a nossa vez de observar os outros”.

Questionado se isso era um indicativo de que vai realmente permanecer no cargo, ele voltou a dizer que tem que haver um grande momento de reflexão, como sempre acontece após os ciclos olímpicos. “Se eu for o profissional adequado, tudo bem, eu fico; se não for, que se encontre alguém mais adequado para este momento”, disse Bernardinho, usando quase que as mesmas palavras utilizadas depois da vitória diante da Itália. E concluiu: “Eu preciso ter uma garantia de futuro. Será que eu voltarei com a mesma paixão? A princípio, sim; mas tenho que pensar”.

Num tom nostálgico, começou a falar do passado, do orgulho desse tempo todo, do instante em que assumiu o masculino e que mudou o time a ponto de fazê-lo conquistar seis títulos da Liga Mundial, dois Mundiais, duas Copas do Mundo, um Pan-Americano e duas medalhas olímpicas.

“Haverá uma renovação nesse grupo, o Gustavo já disse que não continua”, explicou. “Outros falam em sair também, como o Anderson e o André Heller. Se eu voltar e não encontrar esse pessoal, ficarei muito triste, porque aprendemos a nos respeitar neste momento, aprendemos a conviver um com o outro. Esse saudosismo existirá. Por isso, eu gostaria demais de ter concluído esse ciclo com a medalha de ouro”.

Não veio, veio sim uma prata, como em 1984, quando ele disputou a Olimpíada de Los Angeles como reserva do levantador William. A diferença entre elas? “A de 24 anos atrás foi perdida para um time que revolucionou o voleibol. Esta foi diferente, pois fizemos um jogo igual, caímos de pé”.

Encerrou a entrevista citando o poema “If”, do britânico Rudyard Kippling, que reproduzo abaixo em tradução de Guilherme de Almeida:

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar  – sem que a isso só te atires,
De sonhar  – sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais  – tu serás um homem, ó meu filho!

Belíssimo, não há como não ver desta maneira. Como Bernardinho mesmo falou, depois de ter lido todo o poema para os jornalistas ouvirem, se...

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