23/08 - 16:47hs

Zé Roberto entra para a história e mantém a serenidade de sempre
Veja a entrevista do técnico após ser o primeiro treinador a ter no currículo uma medalha de ouro no masculino e no feminino

Fábio Sormani, especial para o iG Esporte

PEQUIM (China) - José Roberto Guimarães voltou a ser o centro das atenções aqui em Pequim. Bicampeão olímpico, único treinador na história do voleibol a ganhar medalha de ouro tanto no masculino quanto no feminino, todos queriam conversar com ele. E esse paulistano mais uma vez mostrou a serenidade dos campeões. Não fez discurso empolgado, não mandou recado para ninguém.

Respondeu a todas as perguntas com a mesma calma com que dirige o time fora das quadras. Com a mesma segurança que passa às meninas nos momentos difíceis. O comportamento contido, ele disse, se deveu também ao fato de que “a ficha ainda não tinha caído”.  Mesmo quando cair, pouca coisa vai mudar. Zé Roberto é assim.

Mas o que poucos viram foi seu talvez único momento de fraqueza. Ao encontrar com alguns amigos, deixando a quadra, virou-se para eles e disse, explodindo, de um jeito que poucos o viram: “Quero ver agora as pessoas dizerem que esse time amarela!”

Reuters
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Zé Roberto Guimarães é carregado pelo time após a conquista do ouro

Poucos minutos depois, ele entrou na sala de conferência de imprensa do ginásio e concedeu a seguinte entrevista para os jornalistas:

Zé, você falou que estava em débito com o Brasil. Explique isso, por favor.
Eu me sentia em débito com o povo brasileiro. Quando você está a um ponto de poder ter uma prata e a bola não cai, aquilo não passa, é difícil. Eu me sinto um cara privilegiado porque tive a oportunidade de refazer um trabalho, de ter força da confederação, mesmo com alguns jogos que a gente perdeu, difíceis. Mas eu acho que paguei com juros e correções monetárias (risos).

Estou leve, vou voltar a sorrir, fiquei triste, muito triste, mas graças a Deus eu tive a minha família o tempo inteiro, principalmente a minha mulher a meu lado, que me apoiou, ela sofreu junto comigo, viveu todas as situações, pressões, depressões, tudo que a gente passou, porque é duro. Eu queria entrar num buraco, eu tinha vergonha de sair na rua, porque aquilo foi muito forte. Eu me cobrava muito por não ter ajudado o time naquele momento. Mas fico feliz porque tive outra oportunidade e agradeço a Deus por isso.

Quatro anos sem sorrir?
Sorria, mas era um sorriso meio complicado. Eu estava em débito, eu deixei um pouco de mim naquela quadra de Atenas. Isso eu disse quando eu saí do Finasa, tinha que optar por ficar ou ir para a seleção. Eu não completei meu trabalho na seleção, porque tinha deixado um pedaço de mim lá. Hoje, resgato aqui em Beijing (Pequim), estou falando Beijing porque começa com B... Graças a Deus, estou de alma lavada.

Zé, fale mais sobre a importância da família.
A dona Alcione e minhas filhas sofreram muito, mas ela foi meu suporte, quem mais me ajudou, me orientou. Porque foram quatro anos difíceis, e ela foi a que mais acreditou, a que mais rezou, acho que para todos os santos, acendeu vela todas as noites. E eu tinha que dormir com a vela no meu criado-mudo e aquilo esquenta (risos)... Mas era por um bom motivo. Devo muito para ela.

O que você conversou com o Ari Graça (presidente da CBV)?
Ele estava falando do investimento, de tudo aquilo que ele tentou ajudar, que ele tentou fazer. E eu concordava com aquilo. Depois, falamos de voleibol. Ele falou que o ataque dos EUA quebrou muito nosso passe, mas a sorte é que nossas bolas altas estavam bem treinadas. E foi o que eu disse ali, a gente treinou muito com duplo e com triplo bloqueio, sabendo que isso poderia acontecer. Mas elas estavam bem. Eu não estava com muito medo, com a quebra do passe. Com a entrada da Berg foi mais complicado porque ela começou a usar as bolas mais fortes das jogadoras de meio e isso complicou o segundo set.

Você ficou com medo de elas escaparem no quarto set?
Eu estava esperando um tie-break, já estava me preparando para isso. Eu sabia que alguma bolinha poderia mudar. Quando eu optei pela entrada da Taísa, falei: vou correr esse risco, até porque eu não sabia o que a Fabiana poderia dar de bloqueio no final...

E ela bloqueou...
Sim, foram dois bloqueios da Fabiana e da Sheila, mas foi o rodízio que encaixou com a Tom Logan.

Você acha que o tie-break poderia produzir algum desequilíbrio?
Tie-break é sempre tie-break. É melhor não tê-lo (risos).

O que você falou no telefone ao final da partida?
Falei com tanta gente que eu não lembro... Falei com a mulher do Ricardo, o fisioterapeuta, com a mulher do Boni, a Miriam, que está em Ribeirão Preto, com as famílias...

Mas voltando ao Ari, você falou o quê? "Continuo"?
Eu já tinha falado para ele que eu queria continuar. Disse a ele: Ari, eu não vou sair não, hein! (risos)

Como foi aquela história do conselho do Karpol (ex-técnico da Rússia)?
Foi em Atenas. Quando a gente perdeu a semifinal, fomos para a entrevista coletiva. Aí ele falou: quero dar um conselho para o meu amigo treinador. E eu falei: pronto, além de perder ainda vou ter que ouvir. Ele falou: eu te conheci técnico do feminino... ele jogou um campeonato em São Paulo patrocinado pela Sadia, um mundial de clubes. E a gente jogou lá, acabou ganhando do time dele, que era o Marlos, da Croácia. No mesmo ano eu fui convidado para a seleção masculina. E fui treinar os homens. Fiquei cinco anos. Depois, parei, voltei para o feminino. Em 2004, em Atenas, ele falou: olha, seja mais fiel com as mulheres. E eu tive que ouvir esta frase (risos). E continuou: eu te conheci desta forma, e você teve essas mudanças. E eu aceitei o conselho dele.

É mais difícil ou mais fácil treinar mulheres?
Mais difícil. Eu preciso tomar cuidado ao responder isso (risos)... Elas são mais sensíveis, são muito ligadas à família. Não que o homem não seja, mas o homem separa bem o trabalho da família, enquanto que as mulheres levam a família para o trabalho. Ela pode estar trabalhando, mas está ligada no filho, como a Paula e a Carol. Elas estão o tempo inteiro a mil por hora, pensando em tudo, na casa, no marido que ficou, na mãe, no pai. Não que o homem não pense, mas elas estão muito mais ligadas a esta situação. Mulher é hormônio em ebulição. Então, você tem que tomar cuidado em certos momentos. A gente tentou fazer alguma coisa para tentar adiantar algumas menstruações, ou atrasar algumas menstruações. Algumas deram certo, outras, não...

Você enfrentou TPM aqui em Pequim?
Um pouquinho. Não podia deixar de ser (risos)... mas eu acho que foi legal, porque o grupo todo estava muito tranqüilo, sereno. Uma ou outra que alterou um pouquinho o humor, ficava mais irritada, mas não passou disso não.

Quais foram essas jogadoras? Agora que o Brasil é medalha de ouro, pode dizer...
(Risos) Não, não vou dizer, deixa disso...

Reuters
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No lugar mais alto do pódio, 'meninas' do Brasil acenam para o público
 

Compare a situação atual com 92.
É o que eu falei: não caiu a ficha ainda. É sério. Eu só estou aliviado. Tirei não sei quantos quilos das minhas costas...

Um piano?
É pouco.

Você se sente o melhor técnico do mundo?
Não, não. Acho que estou entre os melhores, quer dizer, é o que o povo fala, mas não sinto. Eu sem essa comissão técnica não seria nada. O que eles me deram de suporte, o que eles me auxiliaram, me orientaram, me aturaram, devo muito a eles. Não faço nada sozinho, dependo do Paulinho, do Claudinho, do médico, do fisioterapeuta, todos eles estão de parabéns. O Zé Elias, que fez um trabalho físico maravilhoso, da psicóloga que ajudou muito, de estar diluindo a situação, de estar conversando com as jogadoras, porque mulher também precisa mais de contato humano, de uma conversa, de um ouvido, de falar mais...

De carinho?
Precisa; e o homem você também dá, mas não é tanto.

Como é que você vai dormir esta noite?
Eu não vou dormir, você acha que eu quero dormir? Eu quero curtir esse momento o máximo que eu puder.

Você ficou sem dormir alguma vez durante a competição?
Não dormi depois do jogo contra a China, gozado isso. Fui dormir era umas cinco e meia e acordei às 7h30, fui tomar café...

E essa noite?
Essa noite eu dormi legal.

O que você vai falar para o Doug Beal (chefe do voleibol norte-americano) agora?
Ele deve estar por aqui ainda. Vou dizer a ele: gold medal (medalha de ouro) (risos).

Você falou que para o seu próximo ciclo olímpico terá que arrumar alguém para o lugar da Fofão. Já tem essa jogadora?
Nós temos levantadoras que precisam ser trabalhadas. O problema é que a gente tem que encontrar uma levantadora que tenha alma, que tenha o que a Fofão tem. Que jogue para o time, que queira se transformar na melhor levantadora do Brasil, que queira treinar, que se entregue ao trabalho como ela sempre se entregou. Eu acho que é isso. Nós temos levantadoras com bom físico, com boa qualidade técnica e que agora vão começar esse ciclo olímpico.

Quem seriam?
Tem a Daniele Lins, Ana Tieme, a Fabíola, que são jogadoras altas e que vão ser trabalhadas.

Seu time pode criar uma hegemonia como a que foi criada com o masculino?
Acho que no feminino é mais difícil, a não ser Cuba. A Sérvia é um time que vai crescer muito. Mas vai haver uma grande mudança em todas as equipes. A que mais vai manter jogadoras é a equipe da Sérvia. A Rússia vai mudar...

Mas o Brasil vai mudar pouco...
Muda a Walewska, não sei se ela vai querer continuar, a Fofão, a Valesquinha.. Ano que vem vejo que é um ano de transição. Como vamos ter uma perna do Grand Prix no Brasil, seria importante que todas participassem.

Muitos técnicos que passaram pelo que você passou talvez não se comportassem como você se comporta neste momento. Você está muito sereno. Você se preparou para isso?
Eu apanhei muito. Foi muita tristeza, dificuldade. Foi difícil trabalhar em mim esse momento. Como eu sei que ganhar e perder está muito próximo, tudo é muito efêmero, eu acho que o mais importante é que você tenha pessoas ao seu lado, que te ajudam, que trabalham. A gente estava muito tranqüilo porque todo o trabalho planejado foi feito. Muitas das críticas que eu recebi, foram merecidas, porque a gente não conseguia fechar algumas partidas.

Aquilo doía na gente, a gente não queria admitir. Mas eu sabia que o time tinha caráter, tinha brio, garra, que podia ganhar de qualquer time do mundo. Mas as coisas não aconteceram. E não adiantava a gente sair batendo em todo mundo, falando alto. Tem que se esperar o momento, trabalhar, porque tudo vai passar. Só fica a história e essa medalha vai ficar para sempre. E eu fico feliz porque, como eu disse, sou um privilegiado por terem me dado de novo a chance de eu poder mostrar o meu trabalho. Com isso eu pude dar uma alegria para o meu país. Isso é o que me deixa mais feliz.

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