22/08 - 15:06hs
Bernardinho fala em deixar a seleção para estudar e comentar livros
Técnico está magoado com o episódio envolvendo o afastamento do levantador Ricardinho e com críticas que a seleção recebeu
Fábio Sormani, enviado especial do iG
PEQUIM (China) - O ciclo de Bernardinho à frente da seleção brasileira pode estar chegando ao fim. Como ele fez questão de dizer na coletiva depois da vitória sobre a Itália, há muito que se pesar neste momento. “Até mesmo se não chegou a hora de se trocar de treinador, se isso não seria bom para os jogadores”, disse ele.
Ele anda magoado com muita coisa que aconteceu nos últimos tempos. Episódios envolvendo o afastamento do levantador Ricardinho e as críticas que a seleção recebeu nos últimos meses após a perda da Liga Mundial, no Rio de Janeiro.
“Me chamaram de traidor, nepotista e mercenário”, disse, reportando-se ao caso que envolveu Ricardinho.
Traidor porque ele teria quebrado um pacto feito com o grupo após a conquista do ouro em Atenas-04 ao cortar Ricardinho, pois comissão técnica e elenco teriam feito um acordo que o elenco continuaria unido até a Olimpíada de Pequim. Nepotista porque convocou seu filho para a vaga de Ricardinho. Mercenário porque foi acusado de ter brigado com o jogador porque teria dito para ele dividir o prêmio em dinheiro que ganhou por ter sido o melhor jogador da Liga Mundial da Polônia com todo o grupo.
Sobre a seleção, queixou-se de que muitas das críticas vêm de gente que não sabe o que fala. E nas entrelinhas deixou claro que ela vem da mídia. “Muita gente fala sem conhecimento de causa, sem estar preparada para criticar”.
Mas não quer se aprofundar sobre estas questões.
Voltou a falar em deixar o comando da seleção e deixou claro que a decisão ainda não foi tomada. Deixou, no entanto, uma porta aberta. “Tem que haver um acordo entre todos e se esse acordo envolver o meu nome, quem sabe, posso continuar. Mas ainda não sei o que vou fazer”.
Bernardinho frisou que não está mais agüentando tanta pressão. Viciado em trabalho, não pára nem um minuto sequer. “Isso vem desde a época em que assumi o feminino (1993) e vem me desgastando demais”, revelou. “Essa cachaça às vezes dá dor de cabeça e te derruba. Tenho dormido muito mal, preciso pensar mais em mim”.
Perguntado se o seu futuro poderia ser fora das quadras, respondeu: “Dirigente? Nem pensar”. Depois foi argüido se poderia ser no exterior: “Menos ainda”.
O que poucos sabem é que dois são os sonhos do treinador neste momento: a criação de um braço esportivo dentro da Editora Sextante, que lançou seu livro, “Transformando Suor em Ouro”, e voltar a estudar.
O estudo sempre o fascinou. Por isso, voltar a sentar num banco escolar é algo que ele pensa muito, mas num primeiro momento é algo um pouco distante, pois teria que ficar seis meses fora do Brasil. Ele quer ir para os EUA, mas neste momento as coisas ainda não estão muito claras neste sentido.
“Já mantive contatos com algumas universidades, como Harvard e MIT”, disse ele. “Seria alguma coisa como liderança e gestão, esporte e liderança, alguma coisa assim nesta área, uns seis meses, mas nada a ver com o jogo em si. Coisas ligadas com liderança de coaching(treinamento), team work (trabalho de equipe), eles têm muitas coisas nessa área, é um tema que me atrai muito”.
Bernardinho revelou que sempre quis viver a experiência de estar em um campus de uma universidade nos EUA. “Quando eu jogava, recebi convite, mas abri mão por causa da seleção e acabei me formando por aqui no curso de economia. Não fui para fora estudar, mas eu sempre tive essa vontade, pois é uma experiência única”.
Ele gostaria muito de passar por um período sabático, como disse. E esta pode ser a hora, pois sempre que acaba um ciclo – e ele tem sempre a ver com a Olimpíada –, é chegado o momento de reflexão.
De qualquer maneira, se voltar a estudar é algo que ainda não está muito claro, ele já está completamente envolvido no projeto do braço esportivo da editora. O projeto é simples, mas muito interessante para quem é da área: alguém traduz o livro e Bernardinho faz o comentário.
“O primeiro livro a ser lançado é um do Michael Jordan chamado ‘I Can´t Accept Not Trying’, mas há outros livros, como um do John Wooden, ex-treinador de basquete da universidade de UCLA, do Vince Lombardi, ex-técnico do futebol americano”, explicou.
Segundo Bernardinho, há sete títulos encomendados. Perguntei se ele sente carência de cultura esportiva entre os treinadores, por exemplo, e se a tradução desses livros seria uma contribuição dele para a classe. “Não só entre eles, mas aqui também”, disse, referindo-se aos jornalistas, deixando claro, uma vez mais, que não aceita críticas de quem ele entende não estar preparado para criticar.
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