20/08 - 03:37hs

Criticados no início dos Jogos, Márcio e Fábio Luiz buscam o ouro
A dupla brasileira venceu os também brasileiros Ricardo e Emanuel na semifinal do vôlei de praia

Fábio Sormani, enviado especial do iG


PEQUIM (China) - Márcio é mais articulado, mas Fábio é carismático. Por isso, resolvi conversar com Fábio depois que a dupla eliminou os também brasileiros Emanuel e Ricardo, atuais campeões olímpicos, por 2-0 (22-20 e 21-18) e se garantiu na disputa pela medalha de ouro.

Mas dizia eu que o papo seria com Fábio. E valeu a pena. Ele fala muito, pelos cotovelos, como a gente costumar dizer, a ponto de às vezes pedir: “Por favor, não publique isso”. Conversar com ele é diversão na certa, pois mistura respostas sérias, igualmente profundas, com brincadeiras bem colocadas.

Sempre entre uma diversão e outra, faz questão de se lembrar da fase difícil por que passou, ao lado de Márcio, neste primeiro semestre. Quase ficaram de fora dos Jogos de Pequim. Como já escrevi aqui, classificaram-se na bacia das almas, na última etapa, na repescagem em Marselha, França.

Márcio e Fábio Luiz comemoram ponto final contra Ricardo e Emanuel

A campanha dos dois faz-me lembrar do desempenho do Santos no Campeonato Brasileiro de 2002, quando ainda era disputado em fase classificatória e mata-mata. O time santista, como Fábio e Márcio, chegou à fase decisiva na última rodada graças ao saldo de gols. Ficou em último lugar. Depois, foi despachando um a um e acabou campeão brasileiro daquele ano.

O mesmo para Fábio e Márcio?

“Rapaz, não me fale em Santos porque eu sou Flamengo”, respondeu ele, com razoável sotaque nordestino, típico de Fortaleza, onde mora, embora seja capixaba. “Aliás, ganhou do Santos, por falar nisso?” Informado que houve empate na partida entre ambos no domingo passado, torceu o nariz e não aprovou o que ouviu. Queria vitória.

Como quer aqui. Não passa pela cabeça da dupla brasileira, nessa altura da competição, perder a medalha de ouro. O respeito pelos norte-americanos existe, é certo, mas a confiança é maior.

A dupla vive um grande momento. E quando esse tempo chega, as coisas ficam mais fáceis. “Já vivi os dois lados da moeda”, conta ele. “Passei três anos ganhando muita coisa. Mas esse primeiro semestre foi complicado para nós. Um grão de areia vira uma pedra gigante quando as coisas não dão certo”.

E voltou a falar do Flamengo. “Vocês não se lembram do que aconteceu no ano passado? O time esteve em último lugar. A torcida nem ia ao estádio. Depois, começou a reagir, foi para a Libertadores e o Maracanã vivia lotado. Quer dizer: precisava ter ido ao fundo do poço para chegar onde chegou?”

Às vezes precisa. Precisa para neste momento crescer, encorpar e mostrar que é grande. Só os grandes fazem isso. Não falou, mas foi uma alusão clara à própria dupla, que saiu do fundo do poço, como o Flamengo no ano passado, e agora vive um grande momento.

E a receita para isso tem nome: união. “A gente viu que o problema nosso não era questão de jogo. Portanto, a gente se uniu como irmãos, um cuidando do outro. Foi como um casamento... mas sem sexo”. Pronto, bastou para que todos gargalhassem – inclusive Fábio. Assim é ele, entre uma resposta séria, filosófica, vem uma brincadeira.

Voltando ao seu momento filosófico, ele falou: “Quando você toma porrada, ou fica calejado ou desiste”.

Os dois estão calejados. Desistir é palavra que não existe no dicionário da dupla. Tanto que ele próprio não mede esforços quando entra em quadra. Como o adversário praticamente faz todo em cima dele – em quase 90% do tempo ele faz a recepção e corta, enquanto que a rede fica por conta de seus 2m04 de altura –, Fábio disse que já perdeu quatro quilos aqui em Pequim.

Mas garante que vai recuperá-los quando voltar ao Brasil. Sabe como? Tomando uma cervejinha, uma de suas maiores paixões. Aqui, com a competição em andamento, está abstêmio. Mas no Brasil... “Vou beber por mim e pelo Márcio, que não bebe”, falou, rindo a seu jeito, sem mostrar muitos os dentes de sua grande boca. Também não é de fazer barulho quando ri; é mais discreto do que quando fala. “Quero encontrar os amigos e a família, para descontrair desta tensão toda que a gente está vivendo aqui”.

E não está sendo fácil mesmo, até porque os dois chegaram a Pequim muito criticados, segundo eles contam. “Teve gente que riu da gente”, disse Fabio. Quem?, perguntei. “Deixa pra lá, não vale a pena citar, quem falou sabe que falou. Foram pessoas que duvidaram do nosso potencial. Estar na decisão aqui em Pequim é um tapa de luva na cara deles”.

Este Fábio rancoroso existe – e eu fiz questão de mostrar –, mas esses momentos são rasos. Você quase não os vê. Rapidamente ele troca de assunto e volta a ser aquele Fabio brincalhão. E cita a mãe, por quem tem grande admiração: “É como mamãe sempre diz: ‘o que não te mata, te fortalece’. E foi isso o que aconteceu com a gente este ano”.

Quem teve a oportunidade de matar a dupla, não matou. Agora, agüenta.

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