19/08 - 04:34hs

Meninas do vôlei estão preparadas para o ouro; é visível
“Quando eu vejo meu time assim, fico tranqüilo, porque eu sei que ele está preparado”, disse Zé Roberto, após 'olhar nos olhos' de Fofão

Fábio Sormani, enviado especial do iG


PEQUIM (China) - No momento em que César Ciello conquistou a única medalha de ouro até agora do Brasil aqui em Pequim, a seleção feminina de vôlei estava treinando. A notícia chegou rápido. As meninas pararam o treinamento e começaram a gritar e a aplaudir.

Ontem à noite aqui em Pequim, Zé Roberto Guimarães, o técnico da equipe, tinha preparado um vídeo para que as meninas assistissem sobre o Japão. E na seqüência uma conversa entre o grupo.

“Será que vai demorar muito?”, perguntou Fofão, 38 anos, líder do grupo.

Zé Roberto sabia muito bem que por trás da pergunta de sua capitã tinha alguma coisa.

“Por que você quer saber?”, redargüiu Zé Roberto.

“É que a gente quer ver o jogo dos meninos no vôlei de praia”.

Hoje à noite, aqui em Pequim, 20h locais, Rússia e China se enfrentam fechando o dia do vôlei feminino. O vencedor vai pelejar contra o Brasil na quinta-feira.

“Mas você pode ter certeza de que elas vão ver apenas o primeiro set, porque quando começar o jogo do Brasil contra a Argentina, elas vão ver o futebol”, garantiu Zé Roberto.

Falta de concentração? Nada disso, as meninas estão definitivamente preparadas para a competição. Não há nada a se fazer. Isso é o que garante o treinador brasileiro.

Outro exemplo a ser dado foi o que ocorreu antes de começar a entrevista coletiva, depois da facílima vitória do Brasil contra o Japão nas quartas-de-final por 3-0 (25-12, 25-20 e 25-16). Lado a lado na ampla mesa onde ficam os treinadores dos dois times e suas capitãs, mais os intérpretes, Zé Roberto inclinou-se para o seu lado esquerdo, onde estava Fofão, e perguntou:

“Quem você prefere, Rússia ou China?”

“Que venha qualquer um”, respondeu Fofão.

Quando isso ocorre, segundo Zé Roberto, é sinal de que não há mais nada a se fazer. “Olhei nos olhos da Fofão e vi que era aquilo mesmo que ela achava”, disse o treinador brasileiro. “Quando eu vejo meu time assim, fico tranqüilo, porque eu sei que ele está preparado”.

Esse comportamento não quer dizer, entretanto, que o time está relaxado. Nada disso. Ao optarem por ver o jogo entre Brasil e Argentina, elas sabem muito bem que obrigatoriamente verão o teipe da partida entre Rússia e China, amanhã, como parte do treinamento do dia.

Sabem também que no momento que estão em quadra, treinando, é como se fosse um jogo. “Nosso treino é muito competitivo, elas pontuam pra valer”, disse Zé Roberto, respondendo uma pergunta feita por mim sobre se o time está preparado para ficar atrás no marcador, uma vez que a seleção não entregou nenhum set aos adversários até o momento aqui em Pequim. “Nos treinos elas enfrentam essas adversidades. E se você quer saber, a competição entre mulheres é muito mais intensa do que entre os homens”.

Zé Roberto pode falar muito bem sobre o assunto. Foi o treinador que comandou o masculino no título olímpico de 1992, em Barcelona.

O time está unido; está feliz também. É visível. As jogadoras brincam muito entre si. Depois da vitória sobre o Japão, Paula Pequeno conversava com os jornalistas, na zona mista, quando a líbero Fabi passou por ela e beliscou a bunda da atacante.

Paula olhou para ela e disse, rindo: “Você é f...”.

Fabi teve uma crise de riso ao lado de Paula Pequeno, que pegou a toalha que segurava e jogou na baixinha do time, empurrando-a. “Vai embora daqui!”, ordenou Paula.

Momento singelo, mas emblemático. O time está unido; como disse, é visível. E confiante também.

Ao responder uma pergunta na entrevista coletiva, Fofão finalizou a resposta da seguinte maneira: “... A gente tem que se preparar para qualquer uma das equipes que chegar à final, quer dizer, à semifinal”.

A confiança é grande. E eu acho isso muito bom.

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